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Divulgação científica: importância e finalidade

Ao tentar descobrir se adquirir duas línguas ao mesmo tempo é benéfico para as crianças, entender a bula de um remédio, discutir com familiares a veracidade de uma notícia recebida no WhatsApp, ou até mesmo tomar o cuidado para não misturar produtos de limpeza na faxina, a ciência já está presente na sua rotina. Ela não vive trancada em laboratórios nem pertence exclusivamente a especialistas; faz parte direta das decisões mais simples do nosso cotidiano.

No entanto, por muito tempo, o conhecimento científico pareceu algo distante, trancado em laboratórios ou apresentado em uma linguagem inacessível. Quando a divulgação científica funciona como uma ponte e um diálogo real ao invés de ser uma lição dada pelos “donos” do conhecimento, ela ganha sentido prático: ajuda a combater fake news, fortalece a nossa autonomia e transforma a ciência em uma ferramenta de cidadania acessível a todos.

A divulgação científica, segundo os pesquisadores Marcelo Valério e Roberto Takata (2025), é um termo plural e complexo que vai além da mera tradução de conhecimentos científicos para a população em geral. Diferentes estudiosos sobre o tema discutem que a divulgação científica funciona como uma ponte, pois adapta e contextualiza o conhecimento dos laboratórios para uma linguagem acessível, garantindo que qualquer pessoa possa ter acesso à ciência (Brito; Massarani; Moreira, 2002; Bortoliero; Brotas; Porto, 2011; Valério; Takata, 2025).

Sob essa perspectiva, ao analisar as teorias da divulgação científica, de acordo com os pesquisadores Guilherme da Silva Lima e Marcelo Giordan (2021), é necessário questionar a ideia da transmissão de informações ao público considerado “leigo”, que assume, de forma equivocada, que a população é desprovida de saberes próprios. Essa postura, para alguns estudiosos como Luisa Massarani, Ildeu de Castro Moreira e Fátima Brito (2002), bem como Marcelo Valério e Roberto Takata (2025), coloca o conhecimento acadêmico em um pedestal e desvaloriza a bagagem cultural dos cidadãos não acadêmicos, impondo uma hierarquia que já deveria ter sido ultrapassada na produção do conhecimento. Em vez de uma transmissão vertical de informações, a comunicação científica eficiente precisa reconhecer a experiência da sociedade e construir pontes entre a ciência e os saberes do cotidiano.

Imagem gerada na IA Manus 1.6 Lite

Portanto, a relevância da divulgação científica se consolida por meio de sua capacidade de:

  1. buscar a legitimação da prática social da comunidade científica, bem como a ampliação das formas de interlocução com a sociedade (Gentilli; Silva, 2024);
  2. ampliar a alfabetização científica e tecnológica da sociedade e, consequentemente, consolidar uma cultura e uma cidadania científica (Takata; Valério, 2025);
  3. complementar, enriquecer, ampliar, contextualizar e atualizar a educação formal no ambiente escolar, oferecendo materiais escolares; despertando o interesse de crianças e jovens para a ciência (Takata; Valério, 2025);
  4. gerar autonomia suficiente para a emancipação intelectual e humana da população, melhorando o entendimento da população sobre ciência (Gentilli; Silva, 2024).
  5. possivelmente, promover o combate à desinformação e às fake news (Deccache-Maia, 2020);
  6. democratizar culturalmente a sociedade, permitindo que o conhecimento científico, antes restrito a uma elite, se difunda por toda a população (Dantas; Deccache-Maia, 2020).

Para acompanhar como o conhecimento é compartilhado no dia a dia, vale a pena conhecer projetos que traduzem conceitos complexos em conteúdos acessíveis, criativos e confiáveis. Veja aqui alguns exemplos práticos de iniciativas e canais de divulgação científica organizados por formato.

Referências

DANTAS, Luiz Felipe Santoro; DECCACHE-MAIA, Eline. Divulgação Científica no combate às Fake News em tempos de Covid-19. Research, Society and Development, v. 9, n. 7, e797974776, p. 1-18, 2020.
LIMA, Guilherme da Silva; GIORDAN, Marcelo. Da reformulação discursiva a uma práxis da cultura científica: reflexões sobre a divulgação científica. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 28, n. 2, p. 375-392, 2021.
MOREIRA, Ildeu de Castro; MASSARANI, Luisa. Aspectos históricos da divulgação científica no Brasil. In: MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro; BRITO, Fatima (org.). Ciência e público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência/UFRJ, Fórum de Ciência e Cultura, 2002. p. 43-64.
MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro; BRITO, Fátima (org.). Ciência e público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência – Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da UFRJ, Fórum de Ciência e Cultura, 2002.
SANCHES, Priscila Elizabeth Ferreira Duarte; OLIVEIRA, Maria Lívia Pachêco de. Desinformação em saúde e seus impactos na divulgação científica. Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia, João Pessoa, v. 20, n. 1, p. 39-49, 2025.
SILVA, Thalita Mascarelo da; GENTILLI, Victor Israel. A divulgação científica em saúde no Brasil: um atravessamento midiatizado entre plataformas de redes sociais e jornais. In: ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 33, 2024, Niterói: UFF, 2024. p. 1-19.
VALÉRIO, Marcelo; TAKATA, Roberto. Afinal, o que é divulgação científica? Explanação e proposição de uma definição plural. Pro-Posições, Campinas, v. 36, e2025c0502BR, p. 1-25, 2025. 

Dados de autoria: Renata Saul dos Reis, estudante de Fisioterapia da UFCSPA, e Bernardo Kolling Limberger, professor de graduação na UFCSPA e pós-graduação na UFPEL. 

Revisão: Agradecemos à professora Aline Aver Vanin pelas sugestões de revisão do texto.

Parceria: Projeto Quando a ciência fala a nossa língua: divulgação científica em saúde, educação e linguagem

Declaração do uso de inteligência artificial: Foi utilizada a ferramenta NotebookLM para revisão ortográfica e adequação de algumas citações e referências. 

O que é o “normal” na língua?

O normal na língua ou as normas linguísticas são expectativas sobre como (se deve ou não) usar a língua. Para tornar essa definição um pouco mais concreta, fornecemos dois exemplos. Imagine as normas de trânsito: como poderíamos realizar uma simples travessia de rua sem as convenções que definem a diferença entre verde, vermelho e amarelo? Aliás, o que é “correto” dizer, “semáforo” ou “sinaleira”? Agora, vamos falar do vestuário, ou mais especificamente, dos tamanhos das roupas. Para comprar uma camiseta ou uma bermuda, é necessário saber o tamanho (por exemplo, GG, G, M). Inclusive, isso é importante para comprar pela internet e não precisar trocar o produto pouco tempo depois. Aliás, o “certo” seria “bermuda” ou “calção”? Talvez você use os dois ou apenas um. O que esses exemplos demonstram é que as normas têm um papel importante no dia a dia das pessoas. Os exemplos linguísticos sugerem que pode haver variações dentro da mesma língua. 

Os exemplos acima dizem respeito a padrões. No caso da língua, costuma-se falar em variedades e instituir uma delas como a norma-padrão. No entanto, essas etiquetas (“o que é correto”) são convenções criadas por certas pessoas, grupos ou instituições. Por isso, essas normas podem ser um tanto confusas: o correto é “o alface” ou “a alface”? “Bolacha” ou “biscoito”? 

Linguistas brasileiros que se dedicam ao tema há mais tempo, como Carlos Faraco, Ana Zilles e Marcos Bagno, partem de dois conceitos básicos para diferenciar os tipos de normas: a norma-padrão e a norma culta. Enquanto a norma-padrão se aproxima da escrita, a norma culta é a realização dessa variedade por um determinado grupo de falantes, normalmente mais culto. A norma-padrão se aproxima do que é aceito como correto, enquanto a norma culta se aproxima mais do normal (recorrente naquele grupo de falantes). Contudo, aquilo que julgamos como “normal” não deixa de ser uma ilusão. Retomando as situações acima, podemos imaginar algumas exceções, como, por exemplo, uma ambulância que precisa avançar no sinal vermelho ou a roupa que precisa de ajustes mesmo sendo do tamanho “esperado”. 

Variações como “sinaleira” ou “semáforo”, “calção” ou “bermuda” chamamos de variantes linguísticas regionais. Enquanto essas podem ser aceitas até mesmo pela norma-padrão, outras como “eu vi ele” (“eu o vi”) costumam ser taxadas como “erradas” para a norma-padrão, porém aceitas na norma culta brasileira. Ou seja, cada variedade tem um campo de uso ou de validade negociado socialmente. Isso significa que não existe apenas uma norma, mas também normas nacionais, regionais, locais dentro de uma mesma língua. 

Fonte: o autor.

A essa altura, podemos retomar nossa pergunta inicial: o que é normal na língua ou o que são normas linguísticas? Klaus Gloy tem uma definição bastante completa, embora não tão simples. Por “normas linguísticas”, entende-se uma parte das normas sociais que, por meio de juízos de valor, exigências e expectativas escritas ou faladas, determinam, prescrevem ou mesmo recomendam como usar a língua em cada situação. O que caracteriza as normas linguísticas, portanto, não é unicamente a sua fixação (por exemplo, em dicionários e livros), mas sim a sua essência social. É no uso ao longo do tempo que as normas constituem seu alcance e se cristalizam. Por isso, quando você viaja e conversa com pessoas de outros lugares, você entra em contato com outras normas linguísticas e pode até mesmo viajar no tempo (!), pois o que não é mais aceito na sua região ainda pode ser aceito em outro lugar ou vice-versa. 

As normas linguísticas manifestam-se nos mais diferentes níveis ou dimensões da língua (por exemplo, sentido, estrutura, fala, escrita, estilo, interação comunicacional) e podem ser mais ou menos explícitas. As variedades locais, geralmente as línguas minoritárias ou de tradição oral, podem ser consideradas normas implícitas, em oposição às línguas oficiais ou normas explícitas que possuem maior abrangência e grau institucional (escola, repartição pública, paisagem linguística). As línguas minoritárias que estão a caminho de se tornarem (co)oficiais, seja no âmbito nacional ou municipal, costumam receber aparatos normativos (leis, dicionários, materiais escolares) que vão do implícito ao explícito. Historicamente, não é surpresa que grupos vulneráveis tenham sido invisibilizados e que apenas recentemente estejam (re)tomando seus instrumentos de descrição da língua. 

Por outro lado, o lado crítico da normatização – ou padronização – é seu uso exagerado: uma escola que prioriza UMA variedade de UMA língua, ou seja, UMA norma, tem consequências para os professores que acabam limitados por essa ÚNICA norma, para os pais que se distanciam de uma língua que acreditam não dominar e para os próprios alunos que acabam reproduzindo uma lógica de certo ou errado, sem refletir por quê. Inclusive, em sala de aula, é possível trabalhar com normas flexíveis, como vêm mostrando os estudos sobre translinguagem.

Resumindo… as normas linguísticas ajudam as sociedades a organizar a linguagem. Portanto, são negociadas de diversas formas, às vezes mais formalmente ou informalmente, às vezes de modo mais explícito ou implícito. Os estudiosos das línguas acompanham esses processos de forma responsável e atenta, observando suas causas e efeitos e sugerindo soluções para (possíveis) conflitos.

Referências
BAGNO, Marcos. A norma oculta: língua e poder na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
FARACO, Carlos Alberto; ZILLES, Ana Maria. Para conhecer: norma linguística. São Paulo: Contexto, 2017.
GLOY, Klaus. Sprachnormen I: linguistische und soziologische Analysen. Stuttgart-Bad Cannstatt: Frommann-Holzboog, 1975. v. 46.

Autor: Lucas Löff Machado. Docente de Língua Alemã na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).