Ser professor de línguas envolve, muitas vezes, seguir um currículo escolar que define as habilidades e as competências que os alunos devem desenvolver em uma determinada língua. Mas, para além desse currículo, os professores têm autonomia para decidir sobre a presença das línguas em sua sala de aula?
A resposta é sim, e essas decisões fazem parte do que nós, linguistas, chamamos “políticas linguísticas educacionais”. Conforme a professora Elana Shohamy, políticas linguísticas educacionais são as decisões explícitas ou implícitas sobre as línguas e seus usos na escola.
Essas decisões são geralmente impostas por autoridades e refletem objetivos mais amplos relacionados às políticas linguísticas em uma determinada sociedade. Um exemplo disso é o inglês, que, por ocupar uma posição de prestígio nos contextos nacional e internacional, acaba integrando o currículo escolar. Apesar do caráter impositivo de muitas políticas linguísticas educacionais, a pesquisadora Elana Shohamy explica que elas também podem partir da comunidade escolar como mecanismos para negociar, exigir e introduzir políticas alternativas em relação às línguas.
Segundo a pesquisadora Nancy Hornberger, linguistas e educadores devem atuar em conjunto com os responsáveis pela elaboração dos currículos escolares, bem como com os estudantes, pais e demais membros da comunidade escolar para preencherem os espaços abertos pelas decisões a favor do multilinguismo.
Nesse contexto, as professoras Kate Menken e Ofelia García afirmam que os educadores têm o papel crucial de tomar decisões e fazer escolhas acerca do seu próprio uso da(s) língua(s), assim como do uso que os alunos fazem delas. O professor Bernard Spolsky explica que a efetividade das políticas linguísticas na escola pode ser enfraquecida pela necessidade ou pela vontade dos professores de ignorarem as decisões oficiais e utilizarem os dialetos e as línguas locais. Portanto, os professores podem, sim, escapar das políticas linguísticas educacionais responsáveis por discriminar línguas, variedades, culturas e seus falantes.
Nesse sentido, algumas estratégias para abraçar a diversidade linguística na sala de aula são: trabalhar com a cultura e a língua do dia a dia; apresentar as variedades de uma mesma língua em diversos países e regiões; acolher a troca de línguas e as línguas faladas pelos alunos; promover a conscientização sobre o repertório linguístico presente no cotidiano dos estudantes e respeitar as variedades linguísticas dos próprios alunos.

Assim, os professores podem contribuir para a criação de uma educação bilíngue/multilíngue dinâmica que, de acordo com as professoras Ofelia Garcia e Heather Woodley, deve dar espaço para que os estudantes negociem com base em seus repertórios linguísticos, ou seja, no conjunto de línguas que conhecem e utilizam. E você, professor? Quais decisões tem tomado sobre as línguas na sua sala de aula? Essas decisões são em prol do multilinguismo ou favorecem a ideologia monolíngue?
Referências
GARCÍA, Ofelia; WOODLEY, Heather. Bilingual education. In: BIGELOW, M.; ENNSER-KANANEN, J. (orgs.). The Routledge handbook of educational linguistics. Routledge, 2014. p. 132-144.
HORNBERGER, Nancy. Multilingual language policies and the continua of biliteracy: An ecological approach. Language policy, v. 1, n. 1, p. 27-51, 2002.
MENKEN, Kate; GARCÍA, Ofelia. Negotiating language policies in schools: Educators as Policymakers. New York: Routledge, 2010.
SHOHAMY, Elana. Implications of language education policies for language study in schools and universities. The Modern Language Journal, v. 87, n. 2, p. 278-286, 2003.
SHOHAMY, Elana. Language policy: Hidden agendas and new approaches. Routledge, 2006.
SPOLSKY, Bernard. Rethinking language policy. Edinburgh University Press, 2021.
Autora: Giovana Canez Valerão, mestranda em Letras no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), é integrante do Laboratório de Psicolinguística, Línguas Minoritárias e Multilinguismo (Laplimm) e da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/UFPE). É responsável pela página @hallyucoreanoemultilinguismo no Instagram.
Declaração de uso de inteligência artificial generativa
Conforme a Portaria 2664/2026, Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, de 6 de março de 2026, declara-se o uso de inteligência artificial generativa neste trabalho. Embora o texto tenha sido escrito integralmente pela autora, as ferramentas de inteligência artificial generativa ChatGPT (versão gratuita, GPT-5) e Grammarly foram usadas na revisão de aspectos de coesão e coerência. Após o uso dessas ferramentas, a autora revisou e editou o conteúdo em conformidade com o método científico e assume total responsabilidade pelo conteúdo do texto.