Se você já tentou aprender mandarim, provavelmente viveu esta cena: o professor fala mā (妈, mãe) e mǎ (马, cavalo) e, aos seus ouvidos, as duas palavras soam… exatamente iguais. Você se pergunta se está com algum problema auditivo. Não está. O que está acontecendo é algo fascinante sobre como o cérebro humano aprende a ouvir.
O mandarim padrão possui quatro tons lexicais, além de um “tom neutro”, que mudam completamente o significado de uma palavra. 妈 mā (tom 1, voz alta e plana) significa “mãe”; 麻má (tom 2, ascendente) significa “cânhamo”; 马mǎ (tom 3, descendente-ascendente) significa “cavalo”; e 骂mà (tom 4, descendente) significa “xingar”. Para falantes de português, uma língua sem tons lexicais, essa distinção soa estranha porque o cérebro nunca precisou processar a altura da voz como informação de significado; ele a usava apenas para expressar emoção ou identificar uma pergunta.
Em línguas tonais, existem variações na altura da voz (frequência fundamental) para alterar o significado de uma palavra. A pesquisadora Nina Kraus e seus colegas (2012) mostraram que o processamento auditivo de tons linguísticos ativa regiões cerebrais diferentes dependendo da experiência prévia do ouvinte. Falantes nativos de línguas tonais processam as variações de altura da voz de forma automática e subcortical, enquanto falantes de línguas não tonais precisam reconstruir esse caminho neural, o que leva tempo e exposição.
Quem tem “ouvido musical” possui mais facilidade para aprender os tons lexicais de uma língua tonal. O professor Patrick Wong e seus colaboradores (2007) explicam que músicos conseguem apreender os tons do mandarim mais rapidamente, justamente porque o cérebro deles já desenvolveu sensibilidade a variações de altura, mas isso não significa que não-músicos não consigam aprender. Isso significa apenas que o ponto de partida é diferente.
Segundo a pesquisadora Natália Gorina-Careta e seus colegas, em pesquisa publicada em 2024, esse processo começa ainda antes do nascimento: bebês expostos a duas línguas no período pré-natal já apresentam respostas neurais diferentes daqueles expostos a apenas uma. O cérebro dos bebês já vai se especializando nos sons da própria língua e reduzindo a sensibilidade a contrastes que não existem nela. Por isso, ao nascer, qualquer criança pode aprender qualquer língua do mundo. Com o tempo, o sistema auditivo se “afina” para o que é relevante no ambiente linguístico em que a criança cresce e, para falantes de português, os tons do mandarim ficam fora desse mapa desde cedo.
A boa notícia é que o cérebro adulto preserva essa habilidade conhecida como plasticidade cerebral para reorganizar os caminhos neurais. Em termos simples, isso significa que o cérebro consegue se reorganizar e criar novos caminhos de conexão entre os neurônios a partir de novas experiências, inclusive as auditivas. Não é algo exclusivo da infância, pois o cérebro adulto continua mudando em resposta ao que vivemos e aprendemos, só que de forma mais gradual. Conforme os professores Xinchun Wang, Allard Jongman e Joan Sereno (2003), adultos falantes de inglês, uma língua não tonal, conseguem aprender a distinguir os tons do mandarim com treinamento auditivo focado, e esse aprendizado se transfere para situações reais de fala. O segredo está na exposição repetida e consciente, preferencialmente com variação de vozes e contextos, para que o cérebro generalize o padrão e não memorize apenas um falante específico da nova língua.
Então, se os tons parecem impossíveis no começo, isso não diz nada sobre sua capacidade de aprender. É sobre como o cérebro humano funciona e como você pode utilizar métodos e estratégias para identificar e diferenciar os tons da língua. O que ocorre é que ele precisa reaprender a prestar atenção em pistas sonoras que antes eram consideradas pouco relevantes.
Talvez por isso os aprendizes iniciantes de mandarim passem por uma experiência curiosa. Depois de semanas ou meses de estudo, muitos relatam que os tons parecem surgir de repente. Sons que antes pareciam idênticos começam a se diferenciar. O ouvido, pouco a pouco, aprende a ouvir aquilo que antes passava despercebido.
Como fonoaudióloga e professora de mandarim para brasileiros, posso afirmar que a sensação de não conseguir ouvir a diferença é o ponto de partida, não o obstáculo definitivo. Aprender uma nova língua não é apenas memorizar palavras e regras gramaticais. É também aprender uma nova forma de perceber sons e elementos culturais. E, a partir disso, desenvolver as estruturas da língua-alvo para uma comunicação eficaz. Por fim, talvez os tons do mandarim não sejam impossíveis. Talvez eles apenas nos lembrem que ouvir também é uma habilidade que se aprende – ou melhor, que se percebe.
Referências
KRAUS, Nina et al. Auditory learning through active engagement with sound: biological impact of community music lessons in at-risk children. Frontiers in Neuroscience, v. 8, n. 351, 2014.
GORINA-CARETA, Natàlia et al. Exposure to bilingual or monolingual maternal speech during pregnancy affects the neurophysiological encoding of speech sounds in neonates differently. Frontiers in Human Neuroscience, v. 18, n. 1379660, 2024.
WANG, Xinchun; JONGMAN, Allard; SERENO, Joan A. Acoustic and perceptual evaluation of Mandarin tone productions before and after perceptual training. Journal of the Acoustical Society of America, v. 113, n. 2, p. 1033–1043, 2003.
WONG, Patrick C. M. et al. Musical experience shapes human brainstem encoding of linguistic pitch patterns. Nature Neuroscience, v. 10, n. 4, p. 420–422, 2007.
Autora: Yuh Shyuan Chu. Fonoaudióloga (CRFa 2-24246), pós-graduanda em neurociências, professora de mandarim. São Paulo, SP. Siga: @fono.yuhchu