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A batalha silenciosa das palavras na mente bilíngue

Quem já escutou que pessoas bilíngues podem se confundir no uso das suas línguas? Ou até você mesmo já passou por essa situação comum. Isso acontece porque o cérebro bilíngue não funciona como um interruptor que liga e desliga línguas; ele as gerencia simultaneamente, de forma automática, sem que o falante perceba.

Geração da imagem: IA Manus

Ainda não há consenso sobre como as palavras são ativadas no cérebro. Algumas pesquisas indicam que uma língua é ativada por vez, mas, conforme a professora e pesquisadora Ingrid Finger, a hipótese mais forte é a de que o acesso ocorre de forma simultânea, nas duas (ou mais) línguas. Alguns fatores influenciam esse acesso: a idade em que aprendemos uma língua, a qualidade e a quantidade de exposição a ela e, principalmente, a proficiência e a frequência de uso das palavras. Quanto melhor a habilidade em uma língua e mais comuns as palavras, mais rápido e fácil é o acesso ao seu vocabulário.

Quando usamos uma das línguas, a outra não fica “desligada”. As duas permanecem ativas, competindo pelo mesmo espaço de uso. Um falante de português aprendendo inglês, ao ler a palavra “pasta”, provavelmente ativa o significado em português (tipo de material escolar) antes de recuperar o significado em inglês: macarrão. Não houve uma escolha consciente: as duas línguas foram ativadas ao mesmo tempo, e o português simplesmente pode ter emergido primeiro.

Da próxima vez que uma palavra em outra língua vier à sua cabeça sem você chamar, talvez você perceba essa “batalha” silenciosa. E aí, já percebeu as línguas disputando espaço no seu cérebro?

Referências
FINGER, Ingrid. Psicolinguística da segunda língua. In: MAIA, Marcus A. R. (org.) Psicolinguística, psicolinguísticas. 1. ed. São Paulo: Editora Contexto, 2015. p. 157-169.
GROSJEAN, François. Bilinguismo Individual. Trad. por Heloísa Augusta Brito de Mello e Dilys Karen Rees. Revista UFG, v. 10, n. 5, p. 163-176, 2017.
TOASSI, Pâmela Freitas Pereira; MOTA, Mailce Borges. Acesso lexical de bilíngues e multilíngues. Acta Scientiarum: Language and Culture, v. 37, n. 4, p. 393-404, 2015.

Autora: Kamila Mendes da Silva. Doutoranda em Letras, Universidade Federal de Pelotas.