A língua da família: uma herança que acompanha a criança

Hoje em dia, ainda é comum vermos pais e professores sentirem um “frio na barriga” ao ouvirem uma criança “misturar” o português com outro idioma no dia a dia. Também é comum ouvir que alternar entre duas línguas significa que não se conhece bem nenhuma delas. Embora se tenha acreditado que isso causava confusão ou atraso, pesquisas científicas recentes mostram que o bilinguismo é um recurso valioso para o desenvolvimento infantil. Para fomentar esse potencial, é preciso entender que intercalar entre sistemas linguísticos é natural e criativo. Incentivar o uso de uma língua materna em casa traz benefícios sociais e afetivos para toda a vida.

A professora e pesquisadora Isabella Mozzillo explica que o aprendiz bilíngue entende desde muito cedo que uma mesma coisa pode ter nomes diferentes, o que pode desenvolver uma capacidade maior de atenção às línguas e de assimilação do funcionamento dos idiomas. Quando a criança mistura palavras, ela não está confusa, mas está usando a sua criatividade para conseguir transmitir a sua mensagem, já tendo consciência de que possui dois repertórios diferentes e sabendo com quem deve/pode usar cada um.

Usar em casa um código diferente da língua do ambiente externo ensina, desde a infância, a transitar entre duas culturas. Enquanto o idioma da rua predomina na escola e nas brincadeiras, a herança linguística de casa precisa de mais cuidado. A especialista em bilinguismo Cristina Flores alerta que, sem a prática diária da comunicação familiar, o cérebro tende a enfraquecer o aprendizado acumulado. Por isso, se a escola ou os pais desencorajam esse uso, o falante pode ter vergonha de sua origem e perder um vínculo afetivo com sua língua e cultura.

Para que esse ensinamento continue vivo, os momentos simples do dia a dia são fundamentais para criar um ambiente acolhedor e motivador, permitindo que a criança se sinta segura e motivada para usar a língua de casa. As educadoras Ivian Destro Boruchowski e Ana Lúcia Lico orientam que não basta apenas “ouvir” o idioma, é preciso também oferecer incentivos práticos, como contar histórias, falar rimas e ditos populares, cantar e narrar brincadeiras, participando, assim, de interações reais que dão sentido àquela prática linguística.

Foto da família de Maren Bergmann, que transmite  pomerano, língua de herança, ao menino Vicente em casa. Fonte: Arquivo pessoal da autora. 

No fim das contas, ao contrário do que sugerem os mitos, o uso da fala familiar não atrapalha a aprendizagem escolar e, além de manter o carinho com as raízes, ainda treina o cérebro. Quando essa diversidade é abraçada, pais e professores ajudam a construir um futuro em que cada jovem se sinta orgulhoso de sua história e se perceba capaz de usar suas habilidades para aprender novos saberes e vencer desafios com mais facilidade.

Autora: Maren Camile Rutz Bergmann, falante de pomerano de Canguçu (RS), mestranda em Letras pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Referências
BORUCHOWSKI, Ivian Destro; LICO, Ana Lúcia. Como manter e desenvolver o português como língua de herança: sugestões para quem mora fora do Brasil. Miami: Consulado-Geral do Brasil em Miami, 2016.
FLORES, Cristina. Bilinguismo infantil. Um legado valioso do fenómeno migratório. Diacrítica, v. 31, n. 3, p. 237-250, 2017.
MOZZILLO, Isabella. Algumas considerações sobre o bilinguismo infantil. Veredas: Revista de Estudos Linguísticos, Juiz de Fora, v. 19, n. 1, p. 147-157, 2015.

Declaração de uso de IA: Conforme a Portaria 2664/2026, Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, de 6 de março de 2026, declara-se o uso de inteligência artificial gerativa neste trabalho. Este texto foi revisado gramaticalmente com o auxílio de Inteligência Artificial (NotebookLM, versão de julho de 2026), sob supervisão da autora.

Até que ponto professores têm autonomia sobre o uso de línguas em sala de aula diante do currículo?

Ser professor de línguas envolve, muitas vezes, seguir um currículo escolar que define as habilidades e as competências que os alunos devem desenvolver em uma determinada língua. Mas, para além desse currículo, os professores têm autonomia para decidir sobre a presença das línguas em sua sala de aula?

A resposta é sim, e essas decisões fazem parte do que nós, linguistas, chamamos “políticas linguísticas educacionais”. Conforme a professora Elana Shohamy, políticas linguísticas educacionais são as decisões explícitas ou implícitas sobre as línguas e seus usos na escola. 

Essas decisões são geralmente impostas por autoridades e refletem objetivos mais amplos relacionados às políticas linguísticas em uma determinada sociedade. Um exemplo disso é o inglês, que, por ocupar uma posição de prestígio nos contextos nacional e internacional, acaba integrando o currículo escolar. Apesar do caráter impositivo de muitas políticas linguísticas educacionais, a pesquisadora Elana Shohamy explica que elas também podem partir da comunidade escolar como mecanismos para negociar, exigir e introduzir políticas alternativas em relação às línguas.

Segundo a pesquisadora Nancy Hornberger, linguistas e educadores devem atuar em conjunto com os responsáveis pela elaboração dos currículos escolares, bem como com os estudantes, pais e demais membros da comunidade escolar para preencherem os espaços abertos pelas decisões a favor do multilinguismo.

Nesse contexto, as professoras Kate Menken e Ofelia García afirmam que os educadores têm o papel crucial de tomar decisões e fazer escolhas acerca do seu próprio uso da(s) língua(s), assim como do uso que os alunos fazem delas. O professor Bernard Spolsky explica que a efetividade das políticas linguísticas na escola pode ser enfraquecida pela necessidade ou pela vontade dos professores de ignorarem as decisões oficiais e utilizarem os dialetos e as línguas locais. Portanto, os professores podem, sim, escapar das políticas linguísticas educacionais responsáveis por discriminar línguas, variedades, culturas e seus falantes.

Nesse sentido, algumas estratégias para abraçar a diversidade linguística na sala de aula são: trabalhar com a cultura e a língua do dia a dia; apresentar as variedades de uma mesma língua em diversos países e regiões; acolher a troca de línguas e as línguas faladas pelos alunos; promover a conscientização sobre o repertório linguístico presente no cotidiano dos estudantes e respeitar as variedades linguísticas dos próprios alunos.

Imagem gerada no Gemini 3.6 Flash

Assim, os professores podem contribuir para a criação de uma educação bilíngue/multilíngue dinâmica que, de acordo com as professoras Ofelia Garcia e Heather Woodley, deve dar espaço para que os estudantes negociem com base em seus repertórios linguísticos, ou seja, no conjunto de línguas que conhecem e utilizam. E você, professor? Quais decisões tem tomado sobre as línguas na sua sala de aula? Essas decisões são em prol do multilinguismo ou favorecem a ideologia monolíngue?

Referências
GARCÍA, Ofelia; WOODLEY, Heather. Bilingual education. In: BIGELOW, M.; ENNSER-KANANEN, J. (orgs.). The Routledge handbook of educational linguistics. Routledge, 2014. p. 132-144.
HORNBERGER, Nancy. Multilingual language policies and the continua of biliteracy: An ecological approach. Language policy, v. 1, n. 1, p. 27-51, 2002.
MENKEN, Kate; GARCÍA, Ofelia. Negotiating language policies in schools: Educators as Policymakers. New York: Routledge, 2010.
SHOHAMY, Elana. Implications of language education policies for language study in schools and universities. The Modern Language Journal, v. 87, n. 2, p. 278-286, 2003.
SHOHAMY, Elana. Language policy: Hidden agendas and new approaches. Routledge, 2006.
SPOLSKY, Bernard. Rethinking language policy. Edinburgh University Press, 2021.

Autora: Giovana Canez Valerão, mestranda em Letras no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), é integrante do Laboratório de Psicolinguística, Línguas Minoritárias e Multilinguismo (Laplimm) e da Curadoria de Estudos Coreanos (CEÁSIA/UFPE). É responsável pela página @hallyucoreanoemultilinguismo no Instagram. 

Declaração de uso de inteligência artificial generativa: Conforme a Portaria 2664/2026, Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, de 6 de março de 2026, declara-se o uso de inteligência artificial generativa neste trabalho. Embora o texto tenha sido escrito integralmente pela autora, as ferramentas de inteligência artificial generativa ChatGPT (versão gratuita, GPT-5) e Grammarly foram usadas na revisão de aspectos de coesão e coerência.  Após o uso dessas ferramentas, a autora revisou e editou o conteúdo em conformidade com o método científico e assume total responsabilidade pelo conteúdo do texto.

 

Por que os tons do mandarim parecem impossíveis de aprender no início?

Se você já tentou aprender mandarim, provavelmente viveu esta cena: o professor fala (, mãe) e (, cavalo) e, aos seus ouvidos, as duas palavras soam… exatamente iguais. Você se pergunta se está com algum problema auditivo. Não está. O que está acontecendo é algo fascinante sobre como o cérebro humano aprende a ouvir. 

O mandarim padrão possui quatro tons lexicais, além de um “tom neutro”, que mudam completamente o significado de uma palavra. (tom 1, voz alta e plana) significa “mãe”; (tom 2, ascendente) significa “cânhamo”; (tom 3, descendente-ascendente) significa “cavalo”; e (tom 4, descendente) significa “xingar”. Para falantes de português, uma língua sem tons lexicais, essa distinção soa estranha porque o cérebro nunca precisou processar a altura da voz como informação de significado; ele a usava apenas para expressar emoção ou identificar uma pergunta. 

Em línguas tonais, existem variações na altura da voz (frequência fundamental) para alterar o significado de uma palavra. A pesquisadora Nina Kraus e seus colegas (2012) mostraram que o processamento auditivo de tons linguísticos ativa regiões cerebrais diferentes dependendo da experiência prévia do ouvinte. Falantes nativos de línguas tonais processam as variações de altura da voz de forma automática e subcortical, enquanto falantes de línguas não tonais precisam reconstruir esse caminho neural, o que leva tempo e exposição. 

Quem tem “ouvido musical” possui mais facilidade para aprender os tons lexicais de uma língua tonal. O professor Patrick Wong e seus colaboradores (2007) explicam que músicos conseguem apreender os tons do mandarim mais rapidamente, justamente porque o cérebro deles já desenvolveu sensibilidade a variações de altura, mas isso não significa que não-músicos não consigam aprender. Isso significa apenas que o ponto de partida é diferente. 

Segundo a pesquisadora Natália Gorina-Careta e seus colegas, em pesquisa publicada em 2024, esse processo começa ainda antes do nascimento: bebês expostos a duas línguas no período pré-natal já apresentam respostas neurais diferentes daqueles expostos a apenas uma. O cérebro dos bebês já vai se especializando nos sons da própria língua e reduzindo a sensibilidade a contrastes que não existem nela. Por isso, ao nascer, qualquer criança pode aprender qualquer língua do mundo. Com o tempo, o sistema auditivo se “afina” para o que é relevante no ambiente linguístico em que a criança cresce e, para falantes de português, os tons do mandarim ficam fora desse mapa desde cedo. 

A boa notícia é que o cérebro adulto preserva essa habilidade conhecida como plasticidade cerebral para reorganizar os caminhos neurais. Em termos simples, isso significa que o cérebro consegue se reorganizar e criar novos caminhos de conexão entre os neurônios a partir de novas experiências, inclusive as auditivas. Não é algo exclusivo da infância, pois o cérebro adulto continua mudando em resposta ao que vivemos e aprendemos, só que de forma mais gradual. Conforme os professores Xinchun Wang, Allard Jongman e Joan Sereno (2003), adultos falantes de inglês, uma língua não tonal, conseguem aprender a distinguir os tons do mandarim com treinamento auditivo focado, e esse aprendizado se transfere para situações reais de fala. O segredo está na exposição repetida e consciente, preferencialmente com variação de vozes e contextos, para que o cérebro generalize o padrão e não memorize apenas um falante específico da nova língua. 

Então, se os tons parecem impossíveis no começo, isso não diz nada sobre sua capacidade de aprender. É sobre como o cérebro humano funciona e como você pode utilizar métodos e estratégias para identificar e diferenciar os tons da língua. O que ocorre é que ele precisa reaprender a prestar atenção em pistas sonoras que antes eram consideradas pouco relevantes.

Talvez por isso os aprendizes iniciantes de mandarim passem por uma experiência curiosa. Depois de semanas ou meses de estudo, muitos relatam que os tons parecem surgir de repente. Sons que antes pareciam idênticos começam a se diferenciar. O ouvido, pouco a pouco, aprende a ouvir aquilo que antes passava despercebido. 

Como fonoaudióloga e professora de mandarim para brasileiros, posso afirmar que a sensação de não conseguir ouvir a diferença é o ponto de partida, não o obstáculo definitivo. Aprender uma nova língua não é apenas memorizar palavras e regras gramaticais. É também aprender uma nova forma de perceber sons e elementos culturais. E, a partir disso, desenvolver as estruturas da língua-alvo para uma comunicação eficaz. Por fim, talvez os tons do mandarim não sejam impossíveis. Talvez eles apenas nos lembrem que ouvir também é uma habilidade que se aprende – ou melhor, que se percebe. 

Referências
KRAUS, Nina et al. Auditory learning through active engagement with sound: biological impact of community music lessons in at-risk children. Frontiers in Neuroscience, v. 8, n. 351, 2014.
GORINA-CARETA, Natàlia et al. Exposure to bilingual or monolingual maternal speech during pregnancy affects the neurophysiological encoding of speech sounds in neonates differently. Frontiers in Human Neuroscience, v. 18, n. 1379660, 2024.
WANG, Xinchun; JONGMAN, Allard; SERENO, Joan A. Acoustic and perceptual evaluation of Mandarin tone productions before and after perceptual training. Journal of the Acoustical Society of America, v. 113, n. 2, p. 1033–1043, 2003.
WONG, Patrick C. M. et al. Musical experience shapes human brainstem encoding of linguistic pitch patterns. Nature Neuroscience, v. 10, n. 4, p. 420–422, 2007. 

Autora: Yuh Shyuan Chu. Fonoaudióloga (CRFa 2-24246), pós-graduanda em neurociências, professora de mandarim. São Paulo, SP. Siga: @fono.yuhchu

A batalha silenciosa das palavras na mente bilíngue

Quem já escutou que pessoas bilíngues podem se confundir no uso das suas línguas? Ou até você mesmo já passou por essa situação comum. Isso acontece porque o cérebro bilíngue não funciona como um interruptor que liga e desliga línguas; ele as gerencia simultaneamente, de forma automática, sem que o falante perceba.

Geração da imagem: IA Manus

Ainda não há consenso sobre como as palavras são ativadas no cérebro. Algumas pesquisas indicam que uma língua é ativada por vez, mas, conforme a professora e pesquisadora Ingrid Finger, a hipótese mais forte é a de que o acesso ocorre de forma simultânea, nas duas (ou mais) línguas. Alguns fatores influenciam esse acesso: a idade em que aprendemos uma língua, a qualidade e a quantidade de exposição a ela e, principalmente, a proficiência e a frequência de uso das palavras. Quanto melhor a habilidade em uma língua e mais comuns as palavras, mais rápido e fácil é o acesso ao seu vocabulário.

Quando usamos uma das línguas, a outra não fica “desligada”. As duas permanecem ativas, competindo pelo mesmo espaço de uso. Um falante de português aprendendo inglês, ao ler a palavra “pasta”, provavelmente ativa o significado em português (tipo de material escolar) antes de recuperar o significado em inglês: macarrão. Não houve uma escolha consciente: as duas línguas foram ativadas ao mesmo tempo, e o português simplesmente pode ter emergido primeiro.

Da próxima vez que uma palavra em outra língua vier à sua cabeça sem você chamar, talvez você perceba essa “batalha” silenciosa. E aí, já percebeu as línguas disputando espaço no seu cérebro?

Referências
FINGER, Ingrid. Psicolinguística da segunda língua. In: MAIA, Marcus A. R. (org.) Psicolinguística, psicolinguísticas. 1. ed. São Paulo: Editora Contexto, 2015. p. 157-169.
GROSJEAN, François. Bilinguismo Individual. Trad. por Heloísa Augusta Brito de Mello e Dilys Karen Rees. Revista UFG, v. 10, n. 5, p. 163-176, 2017.
TOASSI, Pâmela Freitas Pereira; MOTA, Mailce Borges. Acesso lexical de bilíngues e multilíngues. Acta Scientiarum: Language and Culture, v. 37, n. 4, p. 393-404, 2015.

Autora: Kamila Mendes da Silva. Doutoranda em Letras, Universidade Federal de Pelotas.

Formas de tratamento do coreano no português brasileiro

Neste momento, já não há dúvidas de que o Brasil se tornou um grande mercado consumidor de cultura sul-coreana. A quantidade de atores sul-coreanos e de grupos de k-pop que recentemente inseriram o Brasil como ponto de passagem obrigatório em turnês comprova a força do Brasil no consumo de produtos culturais do país. 

É interessante notar que, nesse processo, há o contato com aspectos da cultura coreana, como o idioma. O espaço globalizado e multicultural da internet nos permite observar a influência da língua coreana no português brasileiro, em que percebemos, por exemplo, o uso de termos de tratamento e de referência.

As formas de tratamento na cultura coreana consideram aspectos, como a idade, a senioridade, a profissão e a hierarquia, bem como as relações sociais estabelecidas, que indicam diferentes níveis de intimidade. Termos de parentesco são usados para se dirigir a pessoas mais velhas, como harabeoji (할아버지/avô), halmeoni (할머니/avó), ajeossi (아저씨/tio), ajumeoni (아주머니/tia), mesmo que não sejam parentes dos falantes, como explica a autora Jae Jung Song. 

No quadro abaixo, adaptado de Haejin Elizabeth Koh, apresentam-se alguns termos de tratamento e de referência da língua coreana.

Categoria Termo Como é usado na língua coreana Em que contextos são usados Exemplos de uso
Títulos honoríficos -ssi (씨)  Pode ser usado de três formas diferentes: ¹anexado ao sobrenome + primeiro nome; ² anexado apenas ao sobrenome; ou ³anexado apenas ao primeiro nome Sufixo usado para pessoas da mesma idade ou mesmo nível hierárquico

¹Koh Haejin ssi

²Kim ssi

³Hyunsoo ssi

Termos de parentesco entre irmãos* oppa (오빠)  Usado depois do primeiro nome ou sozinho Termo usado para uma mulher se referir ao seu irmão mais velho Hyunsoo oppa
eonni (언니)  Usado depois do primeiro nome ou sozinho Termo usado para uma mulher se referir à irmã mais velha Haejin eonni
hyeong (형)  Usado depois do primeiro nome ou sozinho Termo usado para um homem se referir ao irmão mais velho Hyunsoo hyeong
nuna (누나) Usado depois do primeiro nome ou sozinho Termo usado para um homem se referir à irmã mais velha Haejin nuna
Vocativo de intimidade -a/-ya (- 아/-야) Anexados ao primeiro nome: -a depois de uma consoante; -ya depois de uma vogal Sufixo usado para se referir aos mais novos ou com quem se tem bastante intimidade, como amigos

Haejin-a

Hyunsoo-ya

*Os termos de parentesco entre irmãos podem ser usados não apenas para irmãos e irmãs mais velhos(as), mas também para amigos(as) e namorados(as) mais velhos(as).

Para além da ocorrência dos termos de parentesco entre irmãos, como o famoso “oppa (오빠), a língua coreana tem estado presente em práticas comunicativas de falantes do português brasileiro por meio do emprego de outros termos de tratamento e referência, apresentados a seguir.

Sufixo honorífico: do respeito ao afeto

O uso do sufixo honorífico -ssi (씨) por falantes do português brasileiro segue, em parte, as regras da língua coreana, sendo adicionado predominantemente após o primeiro nome, como se observa nos exemplos apresentados: Jin-ssi; Seungmin-ssi; e Eunkyung-ssi. No entanto, esse uso não ocorre, nesses casos, em razão da idade ou da posição social dos falantes em relação à pessoa a quem se referem.

Fonte: https://www.threads.com/@ericabat__/post/DPBXSa3gQin?xmt=AQG0XjmSZYyD-JF1cVxB82XQt8J_7RZVjAI_H4LOcUzObw

Nesse sentido, por que esses falantes usam o sufixo -ssi (씨)? A motivação ainda pode estar relacionada ao respeito, mas parece estar mais ligada à demonstração de afeto. O emprego de -ssi (씨) pode ser uma maneira do falante comprovar sua identidade de fã e seu pertencimento a uma comunidade, já que conhecer e usar essa expressão atesta que o falante consome e acompanha os conteúdos produzidos pelos seus artistas favoritos.

Vocativo de intimidade: proximidade em nova função

As partículas –a/-ya (-아/-야) são usadas como no coreano, anexadas ao primeiro nome, seguindo a regra da terminação em vogal ou consoante. No entanto, percebe-se uma diferença de uso. Falantes nativos as empregam como vocativos, ou seja, como um chamamento, uma forma de se dirigir diretamente a alguém, como ocorre no primeiro e no terceiro exemplo da figura abaixo: Jiminah e Eunwoo-ya, respectivamente. Já no segundo exemplo (jiminah), a partícula não é empregada na função de vocativo, mas como uma maneira de se referir a alguém, de falar sobre essa pessoa. 

Fonte do exemplo 1: https://www.threads.com/@andreacandidodps/post/DRlJuGujvG-?xmt=AQG083yYdXSq4GFAOHHtABcAqYuNz6WINj6XWPgZao5WWw              Fonte do exemplo 2: https://www.threads.com/@hourlyastrobr/post/DMfntJxub7y?xmt=AQG083yYdXSq4GFAOHHtABcAqYuNz6WINj6XWPgZao5WWw

Essas partículas, quando usadas no coreano, indicam intimidade com quem se fala e/ou status social igual ou superior do falante em relação ao interlocutor. No contexto do português brasileiro, elas podem ser empregadas conscientemente para refletir uma percepção de proximidade, já que os falantes, pelo tempo que acompanham e pela quantidade de conteúdo que consomem, podem se sentir próximos dos seus artistas preferidos e desejam expressar isso por meio da linguagem. Ao mesmo tempo, o uso dessas estruturas não necessariamente parece levar em consideração esse aspecto da cultura coreana que envolve as relações sociais e hierárquicas, uma vez que passam a desempenhar uma nova função.

Esse novo emprego dos vocativos de intimidade do coreano por falantes do português brasileiro também pode ser explicado, assim como o uso de -ssi (씨), como uma replicação da maneira de falar dos artistas que acompanham.

Afeto, proximidade e pertencimento

A partir dos exemplos apresentados, percebe-se que, embora no contexto brasileiro, diferentemente da Coreia do Sul, não haja uma necessidade social de marcar linguisticamente relações sociais e hierárquicas, essas estruturas são usadas por falantes do português brasileiro.

No entanto, ao serem usados em contexto sociocultural diferente, os termos de tratamento e de referência recebem novos usos e funções. O que, para falantes nativos, é empregado para indicar relações sociais específicas passa a ser usado para demonstrar afeto pelos artistas que os admiram e para criar uma sensação de proximidade com eles. Além disso, são usados como meio de indicar pertencimento a uma comunidade, sinalizando familiaridade com práticas discursivas associadas à cultura coreana.

Referências
KOH, Haejin Elizabeth. Usage of Korean Address and Reference Terms. In: SOHN, Homin (ed.). Korean Language in Culture and Society. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2006. p. 146-154.
SONG, Jae Jung. The Korean language: structure, use and context. London and New York: Routledge, 2005. 

Autora: Ellen Andreza P. de Melo Lima, graduada em Letras – Português pela UFRN e especialista em Docência da Língua Portuguesa para Estrangeiros, atua como professora de Língua Portuguesa nos anos finais do ensino fundamental. Motivada por seus interesses, tem se dedicado a pesquisar como o consumo de produtos culturais coreanos influencia o português brasileiro.

Como é viver em uma família surda?

Às vezes, as pessoas querem saber como é viver em uma família surda; é uma pergunta curiosa para todos. Para nós, famílias surdas, não vemos grande diferença entre famílias surdas e ouvintes. É claro que cada família é única, mas a vida das famílias surdas é normal, assim como a vida de uma família que fala, por exemplo, espanhol ou francês em casa. Confira o texto já publicado aqui sobre família surda: 

DODA e o orgulho surdo

Não há muita diferença entre uma família ouvinte e uma família surda em termos de crescer em um ambiente com pleno acesso à língua e cultura. Nós, famílias surdas, nos comunicamos em língua de sinais e temos orgulho de nossa cultura surda. Somos uma minoria, representando  menos de 10% da população mundial. 

Muito além do “deixa pra lá”

Uma criança surda de uma família ouvinte fica, muitas vezes, impressionada com o acesso total às conversas durante as refeições em uma família surda. É um ambiente cheio de vida, com conversas animadas, risadas e piadas. Fala-se sobre tudo, desde política até escola. Não existe a famosa frase depois eu te explico” ou deixa pra lá”, que muitas crianças surdas de famílias ouvintes escutam regularmente.  

Sim, as crianças surdas consideram que ser surdo em uma família surda é uma bênção.  Infelizmente, a maioria dos pais ouvintes de crianças surdas não sabe ou não aprende a língua de sinais. Mas uma pequena parcela de pais ouvintes que aprendem Libras proporciona verdadeiros benefícios para seus filhos surdos. 

 Algumas situações que acontecem nas famílias surdas

  • Na casa de uma família surda, sempre tem duas lâmpadas em cada cômodo: uma delas é para iluminar, a outra é para a campainha, que pisca toda vez que alguém toca. Sim, isso significa que a luz de todos os cômodos pisca por toda a casa! Se você vir isso, sabe que é uma casa de surdos.
  • Algumas famílias comemoram anualmente o dia da descoberta da surdez, como se fosse um aniversário, mas para celebrar o dia em que receberam o diagnóstico. Isso faz parte do orgulho surdo.  
  • Quando uma criança surda, que cresceu em uma família surda e usa a língua de sinais, visita algum vizinho ouvinte, ela pode ficar perplexa ao ver todos mexendo os lábios e não sabendo língua de sinais. Ela coça a cabeça e pensa: O que é isso?” Então, sua família surda lhe explica que há pessoas que não sabem língua de sinais. Muitas vezes, as famílias surdas pensam que é uma pena que ouvintes não saibam língua de sinais.  
  • Para chamar a atenção de um familiar surdo, podemos ligar e desligar a luz (se estivermos perto da porta), bater no chão, acenar com a mão, tocar no ombro ou usar um intermediário. Se nenhum desses métodos comuns funcionar, o que é raro, alguém pode jogar algo leve, como uma pequena almofada. 
  • Em alguns casos, quando um estranho ouvinte percebe que um adulto é surdo, ele se volta para o cônjuge do surdo, apenas para descobrir que o cônjuge também é surdo. Então, ele se volta para o filho e, antes de falar, o pai surdo intervém, dizendo que a criança também é surda. Se houver um irmão, ele faz um gesto, aponta para o ouvido e pergunta: Surdo também?” A reação pode ser: “Todos vocês são surdos?” Ele ou ela pode pensar que isso é lamentável. Na verdade, a família surda é tão normal quanto – e não menos afortunada – que uma família ouvinte.
  • Se adolescentes ouvintes chegam tarde em casa, podem andar na ponta dos pés para seus quartos o mais silenciosamente possível, certo? Da mesma forma, jovens surdos entram silenciosamente na casa dos pais surdos e mantêm tudo o mais escuro possível, sem acender nenhuma luz.

Somos uma família surda, somos humanos como todo mundo e temos histórias! A surdez realmente não faz muita diferença além da língua e da cultura.  Se quiserem conhecer mais sobre famílias surdas, no YouTube, há uma entrevista gravada superinteressante sobre quatro famílias surdas:

Além disso, no YouTube há uma live sobre Literatura Doda com as famílias surdas:

Referências
COLÉGIO RIO BRANCO. Compartilhando experiências pais surdos e filhos surdos. Como  acontece a estimulação? Acesso em: 26 set. 2024.
DAIGLE, Matt. Deaf Bourne Identity. Acesso em: 26 set. 2024.
LAPIAK, Jolanta. DODA / Deaf children of Deaf parents / Deaf family.  Acesso em: 26 set. 2024.
MARTINS, Fiorella Souto Rosa Cantarelli. O diário da Fiorella.  Acesso em: 26 set. 2024.  

Autora: Francielle Cantarelli Martins. Professora de Libras da Universidade Federal de Pelotas.

Não esconda ou perca o sotaque

Você já tentou mudar seu sotaque para ser mais bem compreendido ou aceito? Esse processo é comum em contextos de migração; eu mesmo já passei por isso. Cresci na região das Missões (RS), onde dizemos “leite quente” com a vogal final bem marcada, sem a elevação do som de “e”, o que resulta em “leiti”. Na minha adolescência, ao me mudar para a região metropolitana de Porto Alegre, onde vivo até hoje, percebi que passei a falar como as pessoas ao meu redor. Houve um processo de acomodação linguística, conceito descrito por Howard Giles e Tania Ogay como o ajuste do estilo de fala para se aproximar das outras pessoas. Para fazer parte do grupo, passei por um processo de imitação de um sotaque que tinha mais prestígio do que o meu, o que é bastante comum. Na época, essa mudança me trouxe um senso de pertencimento ao novo lugar, mas meu sotaque original ainda era a marca que narrava minha origem missioneira.

Mudei meu sotaque de forma mais ou menos natural, mas nem sempre esse processo é indolor. Recentemente, o relato de uma aluna do Norte do país me motivou a escrever este texto. Ela relatou sofrer tanto preconceito que passou a considerar ajuda fonoaudiológica para “perder” o sotaque. Esse relato me fez refletir: por que o falar de alguém incomoda o outro? Quando ouvi o relato dela, fiquei sensibilizado e comecei a conversar com ela, mas depois me dei conta de que já passei por isso também – em menor grau. O nosso sotaque reflete, portanto, a nossa história pessoal.

Para a Linguística, o sotaque tem relação com as variações na pronúncia. Como explica David Crystal, o sotaque é composto por características individuais, pois pessoas que falam o mesmo dialeto podem ter sotaques diferentes. O sotaque sinaliza nossa identidade social e regional. Ele mostra a nossa história! No podcast Desteoriza, Leonardo Lopes reforça que sotaque não é “vício de linguagem”, mas sim uma marca própria. Todos temos sotaques, independentemente da região, e a decisão de manter ou adaptar esses traços deveria ser uma escolha de identidade, não uma fuga da discriminação.

O linguista William Labov mostrou no clássico estudo em lojas de departamentos em Nova Iorque que, pela forma como falamos, transmitimos quem somos ou quem desejamos ser. Já Marcos Bagno, em sua obra seminal Preconceito Linguístico (confira o nosso texto sobre o tema), defende que não existem sotaques superiores. O português brasileiro é um “balaio de gatos” repleto de diversidade. Como mostra a série documental Línguas da nossa língua, existem várias línguas dentro da nossa. 

A mídia, algumas regiões e certas instituições tentam impor um “sotaque padrão”, chamando os outros sotaques de erro, impondo um padrão de mundo. A ciência da linguagem afirma: isso não é possível nem desejável. O que existe é uma norma de prestígio, um registro formal que deve ser acessível a todos para garantir ascensão social, mas que jamais deveria exigir o apagamento dos outros sotaques. 

Imagem criada no Gemini – versão 3

Não podemos perder nem esconder o nosso sotaque, porque ele é uma marca da nossa história e identidade. Não tenha medo de falar inglês ou outra língua estrangeira com sotaque do português, como a Fernanda Torres ou o Wagner Moura, pois você nunca vai ser nativo se não cresceu no país estrangeiro. Não tenha medo de mostrar como fala português em qualquer lugar, assim como a Brenda Suerda e o Ariano Suassuna. Não podemos apagar a nossa história, o nosso RG, tampouco os nossos sotaques. Portanto, o esforço deliberado para “perder” o sotaque fere a nossa própria identidade. Quando escolhemos preservar traços de fala ou nos adaptamos por desejo de conexão, estamos exercendo nosso direito à identidade. Que todos nós – a aluna, eu e muitas outras pessoas – transformemos o sotaque em orgulho e que possamos entender que a riqueza da língua não está na uniformidade, mas na pluralidade de vozes que contam quem somos.

Agradeço ao colega Lucas Löff Machado pela leitura atenta e crítica deste texto.

Referências
BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. 49ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
GILES, Howard; OGAY, Tania. Communication Accommodation Theory. In: WHALEY, B. B.; SAMTER, W. (orgs.) Explaining communication: Contemporary theory and exemplars. Mahwah: Lawrence Erlbaum. p. 293-310.
LABOV, William. The Social Stratification of English in New York City. Washington, DC: Center for Applied Linguistics, 1966.

Autor: Bernardo Kolling Limberger.  Professor de Pós-Graduação na Universidade Federal de Pelotas e de Graduação na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Coordenador do Laboratório de Psicolinguística, Línguas Minoritárias e Multilinguismo – Laplimm.

Por que não faz sentido separar as línguas na escola bilíngue?

Uma das principais dificuldades ao implementar um projeto bilíngue em uma escola, conforme os pesquisadores Helena Kieling e Rafael Vetromille-Castro (2022), é a própria barreira com a língua adicional, que até então ocupava uma aula semanal. Nessas aulas, não havia qualquer envolvimento ou integração com outros componentes curriculares e professores da língua materna ou de outras línguas.

Na escola bilíngue, é importante adotar uma visão heteroglóssica de língua, que significa reconhecer que, no dia a dia, os estudantes fazem conexões e mobilizam todo o seu repertório linguístico (todo o conhecimento das línguas que os estudantes possuem e utilizam) para entender o mundo, se comunicarem e participarem das situações sociais.

Fonte: Criação pela autora no ChatGPT

A pesquisadora Ofelia García (2009) defende que, em vez de tratar as línguas como caixas separadas, a escola precisa reconhecer que os alunos usam tudo o que sabem de linguagem de maneira integrada. Para ela, não faz sentido imaginar que a criança se torne duas pessoas monolíngues, uma para cada língua. Um exemplo dessa exigência é quando, em uma situação de sala de aula, uma professora diz: “Ah, agora não pode usar o inglês/alemão porque eu não entendo!” Separar as línguas rigidamente não corresponde à forma real como as crianças aprendem e se expressam.

Em projetos de educação bilíngue, é essencial que a escola compreenda que os estudantes trazem experiências linguísticas diversas; assim, cria-se um ambiente mais acolhedor e propício à aprendizagem. A criança não precisa “esquecer” ou “desligar” uma língua para aprender outra; ao contrário, ela pode usar tudo o que já sabe para compreender, se expressar e avançar.

Essa perspectiva torna o currículo mais significativo. Professores podem e devem incentivar os alunos a fazerem conexões entre as línguas, a compararem formas de dizer, a explorarem sentidos e a usarem a comunicação de maneira natural, como acontece fora da escola. Quando valorizamos essa pluralidade, a aprendizagem se torna mais autêntica, e os estudantes desenvolvem maior confiança e competência em ambas as línguas.

Referências
GARCÍA, Ofelia. Bilingual education in the 21st century: A global perspective. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009.
KIELING, Helena dos Santos; VETROMILLE-CASTRO, Rafael. Desafios da Implementação de um Currículo Bilíngue: reflexões sobre a construção desse novo espaço do inglês nas escolas. Revista Papéis, Campo Grande, v. 26, n. 51, p. 39-58, 2022.

Autora: Helena dos Santos Kieling, Doutora em Letras – Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Pelotas e Especialista em Educação Bilíngue e Cognição (IENH).

Memória e aprendizagem de línguas: estratégias para estudar de forma mais eficiente

Já passou horas focado estudando vocabulário e gramática, mas na hora da prova ou de usar a língua parece que tudo desapareceu? Essa frustração é comum para quem está aprendendo uma língua. O que muitos não sabem é que a maneira como você organiza seus estudos pode fazer toda a diferença. Em vez de fazer uma “maratona” de revisão, que tal explorar estratégias que ajudam a transformar a aprendizagem mais leve, duradoura e divertida?

Fonte: Imagem gerada pelo autor por meio do Canva.

Segundo os pesquisadores Michael Ullman e Jarrett Lovelett, nosso cérebro funciona melhor quando recebe informações em doses distribuídas ao longo do tempo. Quando tentamos aprender tudo de uma vez, sobrecarregamos a nossa mente, o que dificulta a retenção do conteúdo. Por isso, ao intercalar as revisões, o conteúdo se fixa de maneira mais eficiente. Como fazer isso? Estude hoje em aula ou em casa e, em seguida, faça revisões em intervalos. Essa prática de revisar em intervalos espaçados, conhecida como repetição espaçada, não apenas reforça o que foi aprendido, mas também ajuda a fixar as informações de forma mais duradoura, pois seu cérebro retém melhor o que considera importante e precisa ser lembrado.

Agora, a segunda estratégia: a prática de recuperação. Essa técnica envolve testar a si mesmo. Em vez de apenas reler suas anotações, desafie-se a recordar o que estudou sem olhar para o material. Esse esforço adicional não só reforça a retenção do conteúdo, mas também oferece uma oportunidade valiosa para avaliar seu progresso. Identificar áreas que precisam de melhoria é fundamental para direcionar seu estudo e aumentar a eficácia da aprendizagem. Para aplicar essa técnica, feche o livro ou o aplicativo e tente escrever ou falar para si mesmo ou para alguém sobre o que aprendeu. Outra estratégia é pedir para uma inteligência artificial (ou outra ferramenta, como Quizlet ou Anki) gerar um teste com gabarito, baseando-se em textos ou em slides. Quanto mais você se desafia, mais fácil será lembrar depois.

Por fim, o truque mais poderoso: recuperação espaçada. Essa técnica combina as duas anteriores — intervalos entre revisões e testes constantes. Após estudar, dê um tempo antes de revisar e, ao revisar, teste-se antes de consultar o material. Isso não só garante que você retenha a informação por muito mais tempo, mas também evita a necessidade de revisões intensivas para adquirir conhecimento.

Fonte: Imagem gerada pelo autor por meio do Canva.

Para otimizar sua aprendizagem, utilize diferentes materiais, como flashcards (cartões de estudo), quizzes (questionários – use e abuse da inteligência artificial) e perguntas práticas de revisão. Esses recursos tornam o processo mais dinâmico e ajudam a solidificar seu conhecimento.

Fonte: Imagens geradas pelo autor por meio do Canva.

Essas estratégias funcionam porque se baseiam no funcionamento da memória, que é a base para a aprendizagem. Quanto mais tempo você dá ao cérebro para processar informações e mais se desafia a lembrar, mais fortes ficam as conexões neurais, consolidando o conhecimento a longo prazo.

Fonte: Imagem gerada pelo autor por meio do Canva.

Sempre que você for estudar, lembre-se: a chave não está em estudar mais, mas sim em estudar melhor!

Referência
ULLMAN, Michael T.; LOVELETT, Jarett T.  Implications of the declarative/procedural model for improving second language learning: The role of memory enhancement techniques. Second Language Research, v. 34, n. 1, p. 39-65, 2016.

Autor: Thomas de Julio, graduado em Licenciatura em Letras – Português e Alemão pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mestre em Letras na linha de Aquisição, Variação e Ensino pela mesma universidade.

Pode alfabetizar em duas línguas ao mesmo tempo?

Se você é responsável por alguma criança e tem dúvidas quanto ao ensino bilíngue e à alfabetização em duas línguas simultaneamente, este texto pode ser interessante para você. Vamos ver o que algumas pesquisas nos mostram sobre o assunto. 

Fonte: Blog Discite

As pesquisadores Ingrid Finger, Cristiane Lemke e Larissa Cury relatam que o número de escolas bilíngues está crescendo de forma acelerada no Brasil. O que ocorre, no entanto, é que devido ao baixo número de pesquisas na área e à pouca divulgação do assunto, surgem muitos mitos quanto à aprendizagem e alfabetização em uma outra língua além do português. 

Os linguistas Orlando Vian Júnior, Janaína Weissheimer e Marcelo Marcelino trazem alguns exemplos desses mitos: “aprender uma segunda língua confunde a criança e diminui sua inteligência”; “a criança deve aprender uma primeira língua adequadamente, depois se pode ensinar outra língua”. As autoras Ingrid Finger, Luciana Brentano e Daniela Ruschel falam do mito de que a criança deve estar completamente alfabetizada em sua primeira língua para então ser alfabetizada em um segundo idioma.  

Muitas ideias equivocadas sobre o bilinguismo vieram da noção já superada de que a pessoa bilíngue seria composta por dois monolíngues e que uma língua acaba atrapalhando a outra. Porém, de acordo com trabalhos dos pesquisadores François Grosjean, bem como de Ingrid Finger, Luciana Brentano e Daniela Ruschel, as línguas estão armazenadas em um mesmo lugar no cérebro e são ativadas de acordo com o contexto em que o falante se encontra. As habilidades que o falante usa ao falar, ler, escrever e escutar estão relacionadas a um mesmo “repositório” central comum, como representado na figura (Proficiência linguística Cognitiva/Acadêmica).

Fonte: Livro Bilingual education in the 21st century: a global perspective (2009)

As autoras Ingrid Finger, Cristiane Lemke e Larissa Cury discutem estudos sobre alfabetização em dois idiomas, mostrando que pessoas que falam duas línguas aprendem a ler e a escrever em ambas sem prejudicar nenhuma delas. Isso acontece porque, quando a criança aprende a ler em uma língua, ela transfere as habilidades que adquiriu para a outra, e ambas servem de base para o desenvolvimento da leitura. Sendo assim, o que ela aprende em uma língua impacta a outra e vice-versa, como explicam as autoras Ingrid Finger, Cristiane Lemke e Larissa Cury. As autoras acrescentam que o bilinguismo traz benefícios às crianças em seu desenvolvimento cognitivo, cultural, comunicativo e acadêmico. As crianças já nascem com uma capacidade de aprender mais de uma língua, de distingui-las e de usá-las corretamente em situações e contextos diferentes. Para exemplificar, recomendo assistir a um vídeo no Instagram, no qual é possível ver a alternância de línguas na fala de uma criança, feita de forma completamente natural.

As pesquisadoras Letícia Almeida e Cristina Flores também mostram o resultado de uma pesquisa que comparou crianças alfabetizadas em apenas uma língua e crianças que frequentaram escolas de ensino bilíngue nos Estados Unidos. Os resultados indicam que as crianças que foram alfabetizadas em duas línguas possuem habilidades em leitura mais desenvolvidas em comparação às crianças alfabetizadas apenas em uma língua. 

Como também enfatizam as pesquisadoras Ingrid Finger, Cristiane Lemke e Larissa Cury, a alfabetização, no sentido de juntar letras e sílabas para reconhecer as palavras, acontece apenas uma vez. O que muda de uma língua de origem latina para outra são apenas as possíveis combinações de letras em cada uma delas. 

As pesquisas mostram que a alfabetização simultânea em duas línguas é viável e pode trazer ganhos importantes para o desenvolvimento infantil. Por isso, vale a pena olhar para o bilinguismo com confiança: a criança é plenamente capaz de aprender e se beneficiar dessa experiência.

Referências

ALMEIDA, Letícia; FLORES, Cristina. Bilinguismo. In: FREITAS, Maria João; SANTOS, Ana Lúcia. Aquisição de língua materna e não materna: Questões gerais e dados do português. Berlin: Language Science Press, 2017. p. 275-304.
FINGER, Ingrid; BRENTANO, Luciana de Souza; RUSCHEL, Daniela. E quando a alfabetização ocorre simultaneamente em duas línguas? Reflexões sobre o biletramento a partir da análise de textos de crianças bilíngues. ReVEL. v. 17, n. 33, p. 29-57, 2019.
FINGER, Ingrid; LEMKE, Cristiane Ely; CURY, Larissa da Silva.  Biliteracia e alfabetização em duas línguas: expandindo as relações entre L1 e L2. In: LIMBERGER, Bernardo K.; KLEIN, Angela I.; TOASSI, Pâmela P. F.  Bilinguismo e Leitura: contribuições da Psicolinguística. São Paulo: Pontes, 2023. p. 29-58.
GARCIA, Ofelia. Bilingual education in the 21st century: a global perspective. West Sussex: John Wiley & Sons Ltd, 2009.
GROSJEAN, François. Neurolinguists, Beware! The Bilingual Is Not Two Monolinguals in One Person, Brain and Language, Université de Neuchatel, Switzerland, v. 36, p. 3-15, 1989.
LUCENA, Priscila. Alfabetização e ensino bilíngue: como esse processo acontece? In: YOUBilingue. YOUBlog. São Paulo, 10 set. 2023. Disponível em: 
VIAN, Orlando Jr.; WEISSHEIMER, Janaina; MARCELINO, Marcelo. Bilinguismo: Aquisição, cognição e Complexidade, Revista do GELNE, Natal, v. 15, n. especial, p. 339-412, 2013. 

Autora: Nathália Guimarães de Lima Siqueira, mestranda em Letras pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).