Você já ouviu falar em translinguagem?

Tudo começou em 1994, quando o pesquisador Cen Williams criou o termo trawsieithu para denominar um modelo de educação bilíngue, comum no País de Gales desde os anos 1980. O objetivo desse estilo de aula era expor os alunos a material em língua inglesa – livros, vídeos, imagens – e estimulá-los a produzir algo – um texto, uma apresentação oral, uma discussão – em língua galesa. Isso quer dizer que a trawsieithu reunia a língua materna dos alunos e a língua que eles estavam aprendendo em uma mesma lição. A grande finalidade desse método era desenvolver o bilinguismo dos alunos, que é a habilidade de gerenciar duas ou mais línguas, segundo as pesquisadoras Isabella Mozzillo e Karen Spinassé (2021).

Com o passar do tempo, o termo trawsieithu foi traduzido para o inglês como translanguaging (em português: translinguagem). Além disso, o termo, além de ganhar um novo nome, ganhou também um novo significado. A professora Ofelia García (2017) se tornou um nome importante neste assunto ao chamar de translinguagem os usos da linguagem que falantes bilíngues empregam no dia-a-dia e de que formas utilizam as suas línguas para se comunicarem em diferentes situações. Segundo a autora, bilíngues não possuem duas línguas separadas dentro do cérebro. Não! O que eles realmente possuem é um único repertório linguístico, composto por elementos – sons, palavras, expressões etc. – de todas as línguas que conhecem. Dependendo da situação na qual se encontram, essas pessoas utilizarão somente elementos da língua X (pois podem estar conversando com alguém que fale somente essa língua); e haverá situações em que essas pessoas poderão utilizar elementos tanto da língua X quanto da língua Y, caso estejam frente a frente com outro bilíngue que conheça as mesmas línguas que elas.

Fonte: https://www.kinderaerztliche-praxis.de/a/gelebte-mehrsprachigkeit-mit-translanguaging-1813177

A professora García, em parceria com a pesquisadora Sara Vogel (2017), explica que o prefixo trans (da palavra “translinguagem”) serve também para designar determinados usos da linguagem que não podem ser classificados nem como uma língua nem outra. São nesses casos que os indivíduos “translinguam” – isto é, empregam formas linguísticas que reúnem elementos de mais de uma língua (trollar, crushzinho etc).

Isso ocorre porque, de acordo com a pesquisadora Tatyana Kleyn (2019), termos como “inglês”, “chinês” e “espanhol” servem para estabelecer uma diferença entre povos e nações, mas não possuem nenhuma função a nível mental. Isso significa que o único lugar onde as línguas estão separadas é nos mapas mundiais. Dentro do cérebro, as línguas estão reunidas e entrelaçadas, e é justamente por isso que usos translíngues da linguagem são tão comuns entre sujeitos que falam duas ou mais línguas.

Referências
LEWIS, Gwyn; JONES, Bryn; BAKER, Colin. Translanguaging: Origins and development from school to street and beyond. Educational Research and Evaluation: An International Journal on Theory and Practice, v. 18, n. 7, p. 641–654, 2012.
KLEYN, Tatyana; GARCÍA, Ofelia. Translanguaging as an Act of Transformation: Restructuring Teaching and Learning for Emergent Bilingual Studentes. In: OLIVEIRA, Luciana. (org.) The Handbook of TESOL in K-12. John Wiley & Sons Ltd., 2019. p. 69-82.
MOZZILLO, Isabella; PUPP SPINASSÉ, Karen. Políticas linguísticas familiares em contexto de línguas minoritáriasLinguagem & Ensino, Pelotas, v. 23, n. 4, p. 1297-1316, 2020.
VOGEL, Sara; GARCIA, Ofelia. Translanguaging. Oxford Research Encyclopedia of Education, USA, p. 1-19, 2017.

Autor: Leonardo Ribeiro, graduado em Licenciatura em Letras – Português e Inglês pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Atualmente, é aluno do mestrado em Aquisição, Variação e Ensino, com pesquisas em multilinguismo e translinguagem.

 

Estratégias de aprendizagem de língua estrangeira: o que são e para que servem?

O que você considera uma estratégia de aprendizagem? Como explicam os pesquisadores Sandra Ballweg e outros, estratégias são métodos utilizados para conseguir atingir um objetivo ou uma meta, como aprender uma nova língua, por exemplo. Tais estratégias podem variar de pessoa para pessoa, pois o processo de internalizar as informações é um processo individual em que se consideram as características dos aprendizes: se são mais reservados e observadores, mais ou menos comunicativos, entre outras. O intuito de usar estratégias é tornar a aprendizagem mais efetiva dentro e fora da sala de aula.

Para que o aprendiz consiga escolher a melhor estratégia, é necessário que ele conheça diferentes estratégias. Ele pode escolher entre estratégias diretas e indiretas. Essas categorias foram criadas pela pesquisadora Rebecca Oxford. As estratégias diretas possibilitam armazenar informações que representam o que aprendeu e lembrou. Alguns exemplos são:

  • Praticar: quanto maior for a frequência, melhor poderão ser os resultados alcançados. É bom que a prática tenha intervalos de tempo (por exemplo, um dia), pois isso facilita a memorização.
  • Reler, falar e repetir o que se escuta: quanto mais exercitar estes três pontos, com mais facilidade poderá conseguir os resultados das próximas vezes.
  • Refazer exercícios, variando a modalidade (oral e escrita, por exemplo).
  • Associar as palavras da língua estrangeira com palavras cognatas da língua materna ou de outras línguas
  • Memorizar, por exemplo, formando frases para utilizar um novo vocabulário.

Já as estratégias indiretas abrangem planejamento emocional e comunicativo. Alguns exemplos são:

  • Organizar a aprendizagem por meio de metas, planejamento e avaliação.
  • Motivar-se para encontrar novas formas de aprender.
  • Interagir com outros aprendizes para apoiar-se e adquirir conhecimento.

As estratégias de aprendizagem existem para auxiliar o aprendiz a aprender da maneira mais eficiente possível. O aprendiz precisa ter conhecimento das estratégias existentes para conseguir procurar a que melhor combine com seu modo de aprender.

Referências
BALLWEG, Sandra et al. Wie lernt man die Fremdsprache Deutsch? Buch mit DVD (DLL 2 – Deutsch lehren lernen: Fort- und Weiterbildung weltweit). München: Klett-Langenscheidt/Goethe Institut, 2013.
OXFORD, Rebecca L. Language learning strategies: what every teacher should know. Boston: Heinle & Heinle, 1990.

Autor: Yago Badaró Santino Ribeiro. Graduando em Letras – Português-Alemão pela UFPel.

Eu, bilíngue?

Responda rapidamente: você se considera uma pessoa bilíngue? Se você respondeu que não, eu pergunto: além do português, você usa outra língua para realizar alguma atividade específica em sua vida? Se a resposta for sim, saiba que você pode se considerar bilíngue! Ainda em dúvida? Talvez este texto possa ajudar, da mesma forma que este vídeo.

Segundo as pesquisadoras Antonieta Megale e Andrea Ualt, a definição de bilinguismo supostamente é bastante óbvia: saber duas línguas. Porém, muitos de nós atribuem o bilinguismo àquelas pessoas que aprenderam dois ou mais idiomas ao mesmo tempo ainda na infância. Além disso, é comum a percepção de que pessoas bilíngues têm exatamente o mesmo nível de conhecimento de ambas as línguas. Talvez por isso você tenha respondido que não se considera bilíngue.

De fato, os exemplos acima se referem a pessoas bilíngues. No entanto, as pesquisas na área da Linguística e áreas afins têm demonstrado que o conceito de bilinguismo é mais abrangente do que se imagina. É o que podemos ver na pesquisa de Isabella Mozzillo e Karen Spinassé (2021), que definem que o indivíduo bilíngue “consegue gerenciar (falar e/ou entender) duas ou mais línguas, utilizando cada uma para os respectivos contextos e propósitos necessários, com a propriedade necessária”.

Assim, por exemplo, se você é brasileiro e está aprendendo sua primeira língua estrangeira depois de adulto e já compreende os textos que lê, as músicas que escuta e, para a “felicidade” de seus vizinhos, já consegue cantá-las no chuveiro, você pode se considerar bilíngue. Se você, por outro lado, tem avós falantes nativos de alemão, não consegue falar com eles nesse idioma, mas compreende quando eles falam com você, você é bilíngue. Se fala pomerano em casa e português no trabalho, é bilíngue também. Se lê artigos em inglês para uma disciplina da faculdade, você é bilíngue. Troca mensagens em espanhol com um amigo da Argentina? Bilíngue!

Fonte: Designed by Freepik

Segundo o linguista François Grosjean, pessoas bilíngues adquirem e usam línguas com diferentes objetivos e pessoas, em situações de vida bastante variadas, o que significa que é perfeitamente normal que seu nível de fluência em cada idioma não seja idêntico. Logo, é possível e aceitável que uma pessoa bilíngue leia e escreva exclusivamente em uma das línguas, tenha um desempenho oral melhor naquela que utiliza com mais frequência, ou então que consiga compreender bem o que as pessoas falam e escrevem em uma das línguas, mas não se expressar oralmente tão bem. Um aspecto importante a se considerar em relação a esses diferentes usos apontados por Grosjean é a questão do vínculo afetivo com os idiomas. No artigo Como você sabe que é bilíngue?, publicado no jornal El País, Virgínia Mendoza menciona alguns linguistas que afirmam que a diferença de carga emocional dos contextos onde são adquiridos os idiomas por um indivíduo bilíngue faz com que seja natural, por exemplo, que ele recorra à língua adquirida em contextos familiares para expressar sentimentos.

Em síntese, ao contrário do que muitos pensam, o bilinguismo não é um fenômeno de simetria entre línguas. Então, agora que você leu este texto, eu volto a perguntar: você se considera uma pessoa bilíngue?

Referências

UALT, Andréa Fonseca. Afinal, o que é esse tal de bilinguismo? Tesouro Linguístico, Pelotas, 10 de fev. de 2021.
GROSJEAN, François. [trad. Heloísa Augusta Brito de Mello e Dilys Karen Rees]. Bilinguismo Individual. Revista UFG, ano X, n. 5, p. 163-176, 2008. . Acesso em: 14 mai. 2021.
MEGALE, Antonieta Heyden. Bilingüismo e educação bilíngüe – discutindo conceitos. Revista Virtual de Estudos da Linguagem – ReVEL, v. 3, n. 5, 2005.
MENDOZA, Virginia. Quando você sabe que é bilíngue? El País, Brasil, 2017.
MOZZILLO, Isabella; PUPP SPINASSÉ, Karen. Políticas linguísticas familiares em contexto de línguas minoritárias. Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 23, n. 4, p. 1297-1316, 2020.

Autora: Carolina Fernandes Alves. Licenciada em Letras Português-Espanhol (UFRGS), Mestra em Estudos da Linguagem (UFRGS) e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPEL. Professora do Departamento de Metodologia do Ensino da UFSM. Instagram: @profe_carolina.alves. 

O português também é uruguaio!

Mas a língua do Uruguai não é o espanhol? Para responder essa pergunta, primeiro é importante dizer que não necessariamente um país se constitui apenas por uma língua. Por exemplo, no Brasil, embora o português seja a língua oficial, e, por isso, muitos o identifiquem como um país monolíngue, mais de 200 línguas são faladas, de acordo com os pesquisadores Tommaso Raso, Heliana Mello e Cléo Altenhofen (2011). No Uruguai, não é diferente. Nas comunidades fronteiriças do norte, o português, historicamente, também foi bastante falado. E sabe por quê?

Muitos mitos indicam que o motivo do português ser falado no norte do Uruguai é a presença de brasileiros e de seus meios de comunicação. No entanto, a história é bem mais antiga e tem início lá no século XIX, quando a República Oriental do Uruguai ainda nem tinha esse nome.

O português é falado no norte do Uruguai devido às raízes históricas da época colonial e vem sendo transmitido como língua de herança por gerações. A pesquisadora Ana Maria Carvalho (2006) explica que, no século XIX, o Brasil ocupava grande parte do território uruguaio, como mostra a imagem abaixo, e era visto como um rival na disputa de terras.

Fonte: RONA, José Pedro. El dialecto “fronterizo” del norte del Uruguay. Montevideo. Adolfo Linardi, 1965.

Para se diferenciar no processo de construção de sua nação, o Uruguai buscava eliminar o português do país. Para isso, diversas políticas monolíngues foram implementadas. Entre elas, destacamos a própria construção de Montevidéu como centro de referência hispânico e o ensino apenas de espanhol nas escolas públicas.

Diante dessa ideologia, para a estudiosa Ana Maria Carvalho (2006), o uso do português era “visto como resistência à unidade nacional e traição aos valores da pátria” e, por isso, criou-se uma predisposição em dizer que o espanhol era a língua do governo e da identidade uruguaia, ficando o português uruguaio com status de língua marginalizada.

Atualmente, como resultado das políticas monolíngues implementadas ao longo dos séculos, o português uruguaio é bem menos falado. Por outro lado, existem pesquisas e projetos que buscam resgatar o idioma e utilizá-lo como recurso para um processo de educação bilíngue.

Referências
CARVALHO, Ana Maria. Políticas lingüísticas de séculos passados nos dias de hoje: o dilema sobre a educação bilingüe no norte do Uruguai. Language Problems & Language Planning, v. 30, n. 2, p. 149–171.
RASO, Tommaso; MELLO, Heliana; ALTENHOFEN, Cléo V. Os contatos linguísticos e o Brasil: Dinâmicas pré-históricas, históricas e sociopolíticas. In: MELLO, Helina; ALTENHOFEN, Cléo V.; RASO, Tommaso. Os contatos linguísticos no Brasil. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011. p. 13-56.

Autora: Caroline Gonçalves Feijó-Quadrado. Licenciada em Letras e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Pampa – campus Jaguarão. Doutoranda em Letras pela Universidade Federal de Pelotas.

Não se preocupe: os estrangeirismos NÃO estão “matando” a língua portuguesa

Um dos boatos que se ouve por aí é de que “a língua portuguesa está sendo assassinada pelos estrangeirismos”. Fala-se que o constante empréstimo de palavras de outros idiomas fará com que, cedo ou tarde, o português perca forças e deixe de existir. O purismo linguístico sem sentido desse discurso tem origem em ideias nacionalistas e patrioteiras, conforme diz Marcos Bagno (2001), importante linguista e ativista brasileiro. As pessoas se esquecem do fato de que o português brasileiro tem sido influenciado por diversas línguas ao longo dos séculos e que nem por isso se tornou uma língua moribunda.

É importante ter em mente que “as línguas não se desenvolvem, não progridem, não decaem, não evoluem, […] elas simplesmente mudam” (BAGNO, 2001, p. 70) de acordo com a ação de seus falantes de carne e osso. Bagno (2001) ainda ressalta que as mudanças que ocorrem nas línguas acontecem de forma lenta, às vezes até de forma imperceptível, e que há sempre um equilíbrio que possibilita entendimento mútuo entre falantes de gerações diferentes.

Assim, trago alguns exemplos de palavras que pegamos emprestadas e que hoje são tão comuns que nem parece que vieram de outros idiomas. A palavra “mingau” vem da forma “minga’u”, do tupi, e significa “comida que gruda”. “Muvuca” vem da forma “mvúka”, da língua quicongo, de origem banta (região na metade sul do continente africano), e significa “aglomeração ruidosa de pessoas”. “Blitz”, a qual normalmente usamos ao falar de uma blitz policial, significa “relâmpago” ou “raio” em alemão. E “fulano” vem de “fulân”, do árabe, e significa “algo como tal”, “aquele”.

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/redacao/estrangeirismos.htm).

Então, por mais que haja quem não goste da utilização de estrangeirismos, lutar contra essa prática é como dar murro em ponta de faca. Vivemos em uma sociedade globalizada em que diversas culturas e línguas entram em contato constantemente, ainda mais com a presença da Internet no dia a dia. Inclusive, diversos termos tecnológicos vindos do inglês são utilizados atualmente no português, como “site”, “download” e “design”. Portanto, não há necessidade de nos preocuparmos com a “morte” do português, porque os estrangeirismos são super normais e os utilizamos desde que o Brasil é Brasil.

 

Referências
BAGNO, M. Cassandra, Fênix e outros mitos. In: FARACO, C. A. Estrangeirismos. São Paulo: Parábola, 2001. p. 49-83.
Conheça as palavras africanas que formam nossa cultura. CARTA CAPITAL, 2017. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/educacao/conheca-as-palavras-que-herdamos-da-africa/> Acesso em: 26 jun. 2021.
FREITAS, A. 10 palavras portuguesas de origem árabe que vão fazer você se surpreender. BABBEL, 2018. Disponível em: <https://pt.babbel.com/pt/magazine/10-palavras-em-portugues-que-vieram-da-lingua-arabe> Acesso em: 26 jun. 2021.
NOGUEIRA, S. Palavras que vêm das línguas indígenas. G1, 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/palavras-que-vem-das-linguas-indigenas.html> Acesso em: 26 jun. 2021
SABORIDO, C. Lá vem o alemão: palavras alemãs no português. Lusopatia, 2013. Disponível em: <https://lusopatia.wordpress.com/2013/09/30/la-vem-o-alemao-palavras-alemas-no-portugues/> Acesso em: 2 maio 2022

Autor: Johann Bonow Neves
Formado em Licenciatura em Letras – Português/Inglês pela Universidade Federal de Pelotas. Atualmente, é aluno do Programa de Mestrado em Letras da mesma universidade e sua pesquisa é voltada à Linguística Sistêmico-Funcional e aos Estudos da Tradução. Já trabalhou como professor de Língua Inglesa em curso livre, foi professor bolsista de Língua Inglesa do Programa Idiomas sem Fronteiras e foi professor de Língua Inglesa da Câmara de Extensão do Centro de Letras e Comunicação da UFPel.

A internacionalização das universidades brasileiras e a importância do ensino de línguas estrangeiras no ambiente acadêmico

Em 2009, os membros da Conferência Mundial sobre Ensino Superior, organizada pela UNESCO, determinaram que um dos objetivos da educação superior no Brasil seria o da busca pela internacionalização das instituições de ensino superior. Mas o que é esse processo? De que forma uma universidade pode se internacionalizar? Qual o objetivo desse empreendimento? Como ele é atingido?

Dentre os propósitos da internacionalização, estão: a busca pela cooperação entre universidades do mundo todo; maior mobilidade acadêmica, enviando estudantes brasileiros a instituições de outros países; e estimular, de forma respeitosa, o contato entre diferentes culturas.

A professora Jane Knight (2008) classifica as razões pelas quais uma universidade se internacionaliza em quatro categorias: sociais/culturais, políticas, econômicas e acadêmicas. Essas motivações, no entanto, tendem a variar de país para país. De acordo com as pesquisadoras Laura Baumvol e Simone Sarmento (2016), em países do hemisfério norte, por exemplo, a principal razão para o processo de internacionalização tende a ser econômica. Instituições de ensino superior da América do Norte e da Europa, na sua maioria privadas, se beneficiam de alunos estrangeiros e das altas mensalidades que eles pagam. Já em países em desenvolvimento, as universidades, ao se internacionalizarem, buscam, sobretudo, parcerias com outras nações, maior mobilidade acadêmica, enviando alunos brasileiros para outros países (algo que se tornou particularmente desafiador em razão dos cortes de verbas mais recentes), além de oportunizar a todos os membros da comunidade acadêmica o contato com outras culturas.

Mas, na prática, como essa internacionalização acontece? Um dos carros-chefes nesse processo são os programas de mobilidade acadêmica, como, por exemplo, o Ciência sem Fronteiras (CsF), cujo objetivo era enviar alunos e pesquisadores do Brasil a instituições de outros países. Além disso, há também políticas de Internacionalização em Casa, cuja finalidade é oferecer a alunos não contemplados por bolsas do CsF o contato com aspectos internacionais e interculturais. Entre essas políticas, está a presença de alunos e professores internacionais em campi brasileiros, estudando/lecionando aqui.

Contudo, segundo os pesquisadores Gabriel Amorin e Kyria Finardi (2017), um dos maiores obstáculos rumo à internacionalização é a barreira linguística. A fim de que esta aconteça com sucesso, são de grande importância programas como o Idiomas sem Fronteiras (IsF) – originalmente Inglês sem Fronteiras (IsF) -, cujo propósito era, no seu princípio, o de ajudar os alunos contemplados pelas bolsas do Ciência sem Fronteiras a obter a proficiência em língua inglesa necessária para participar do programa. Com o passar do tempo, o Inglês sem Fronteiras evoluiu para Idiomas sem Fronteiras, passando a oferecer aulas de outras línguas também. Através de estratégias como essas, o processo de internacionalização acontece de forma democrática, tocando o maior número possível de pessoas.

Fonte: https://isf.mec.gov.br/

Referências

AMORIN, G. B.; FINARDI, K. R. Internacionalização do ensino superior e línguas estrangeiras: evidências de um estudo de caso nos níveis micro, meso e macro.  Avaliação, v. 22, n. 3, p. 614-632, 2017.
BAUMVOL, L. K.; SARMENTO, S. A internacionalização em casa e o uso de inglês como meio de instrução. Florianópolis: Echoes, 2016, p. 65-82.
KNIGHT, J. Higher Education in Turmoil: the Changing World and Internationalization. Rotterdam: Sense Publishers, 2008.

Autor: Leonardo Ribeiro, graduado em Licenciatura em Letras – Português e Inglês pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Atualmente, é aluno do mestrado em Aquisição, Variação e Ensino, com pesquisas em multilinguismo e translinguagem.

Lançamento da série “Viver no Brasil falando Hunsrückisch: Extras”

Três anos após o lançamento do documentário “Viver no Brasil falando Hunsrückisch”, é lançada uma minissérie documental com extras, que propõe uma visão aprofundada em alguns tópicos específicos da língua hunsriqueana.

A partir de excertos de entrevistas do Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração (IHLBrI), em um primeiro momento não selecionados para compor o documentário “Viver no Brasil falando Hunsrückisch“, foi elaborada uma série de vídeos com cenas inéditas gravadas pela equipe do projeto. A série apresenta diferentes modalidades de entrevista, como relatos pessoais, traduções da Lista de Swadesh e conversas livres.

O primeiro episódio, lançado no Canal do Projeto ALMA-H no Youtube no dia 09/01/2022, traz a entrevista na íntegra realizada com Sílvio Meincke. Em tom de relato biográfico, Sílvio fala sobre sua formação em São Leopoldo, no Instituto Pré-Teológico e, posteriormente, na Escola Superior de Teologia (EST). Sílvio comenta também a respeito de seus anos como pastor e professor da EST e nos conta como a língua alemã permeou sua vida.

Apesar de Sílvio já ter aparecido no documentário, dessa vez, temos a oportunidade de conhecer toda sua história, sem os cortes que foram feitos pela produção a fim de adaptar seu relato à narrativa construída pelos roteiristas. Tais cortes, por um lado, são necessários para criar uma corrente de discurso coerente para o espectador, mas, por outro lado, suavizam diferentes visões e opiniões sobre a língua Hunsrückisch.

O segundo episódio, que foi ao ar no domingo dia 16/01/22, trouxe a entrevista gravada com Nair e Rosemarie em Linha Brasil – Nova Petrópolis, Rio Grande do Sul. Com base na Lista de Swadesh, que contempla cem vocábulos de uso cotidiano, a dinâmica dessa entrevista consistiu em os pesquisadores dizerem as palavras em português, deixando para as entrevistadas a tarefa de as traduzir para sua língua materna.

Além das interessantes respostas fornecidas pelas entrevistadas (que nem sempre concordam uma com a outra), esse episódio também traz momentos muito divertidos, quase sempre resultados de pequenas falhas na comunicação (como na pergunta sobre bom/pão) e é encerrado com uma mostra da alma artística hunsriqueana.

No terceiro episódio da série de extras, Helga Winck, Flavia Terezinha Winck e Joaci Terezinha Staudt (Lomba Grande – Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, Brasil) traduzem a Lista de Swadesh de forma bem-humorada, demonstrando seus conhecimentos acerca de diferentes variedades dialetais. As entrevistadas, com vasto repertório linguístico, abordam os hábitos linguísticos da sua região e seus próprios por meio de diversos exemplos e comentários. No que tange à legendagem dos vídeos, o code-switching entre português e Hunsrückisch, outra faceta do plurilinguismo regional, representou um desafio extra para a tradução.

Imagem do terceiro episódio

Aliás, um dos aspectos mais especiais da série (assim como no próprio documentário) é o cuidado com as legendas. Disponíveis estão quatro opções de língua: original (hunsrückisch e português), português, alemão e inglês.

Por fim, o quarto e último episódio da primeira temporada (sim, teremos no mínimo mais uma temporada da nossa minissérie!) também apresenta uma tradução da Lista de Swadesh, desta vez em Linha Schwerin/Linha Andrade de Neves – Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. Os entrevistados, Albino, Martina, Naiane, Douglas, Ronaldo e Lidiane Franz, interromperam sua rotina de trabalho para gentilmente atender os entrevistadores Angélica Prediger e Gabriel Schmitt.

Imagem do quarto episódio

De maneira geral, a série oferece detalhes da comparação entre português e hunsrückisch e uma parte da variação interna do hunsrückisch pode ser depreendido pela comparação entre as entrevistas. Esperamos que futuros pesquisadores que forem utilizar a Lista de Swadesh possam se inspirar nas entrevistas do IHLBrI, também para evitar algumas confusões e imprecisões, que pela nossa inexperiência à época, nos passaram batidos.

Ficha Técnica

Direção:
Gabriel Schmitt

Legendas:
Gabriel Schmitt
Sofia Froehlich Kohl
Geronimo Loss Bergmann

Textos e traduções:
Sofia Froehlich Kohl

Revisão:
Jussara Maria Habel
Angélica Prediger
Siegwalt Lindenfelser

Entrevistadores:
Jussara Maria Habel
Angélica Prediger
Gabriel Schmitt

Coordenação: Cléo Vilson Altenhofen (PPGL/UFRGS)

Entrevistados:
Sílvio Meincke
Nair Fröhlich
Rosemarie
Helga Winck
Flavia Terezinha Winck
Joaci Terezinha Staudt
Albino Franz
Martina Franz
Naiane Franz
Douglas Franz
Ronaldo Franz
Lidiane Franz

A série é um produto do IHLBrI (Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração), coordenado por Cléo Vilson Altenhofen (ALMA-H/UFRGS) e Rosângela Morello (IPOL).

Produção: Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração, com apoio do IPHAN.

Autor: Gabriel Schmitt, graduado em Licenciatura Letras e Alemão pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é aluno do Mestrado Europeu em Lexicografia (EMLex), com pesquisa em dicionários dialetológicos e de línguas minoritárias.

O que é uma língua de herança?

Pessoas que vivem em países falantes de línguas oficiais diferentes de suas línguas maternas podem se deparar com a língua de herança. Crianças que nasceram no Brasil e que se mudaram para outro país ou até mesmo as crianças que nasceram em um determinado país podem adquirir dos pais uma língua de herança, pois trata-se das raízes familiares que constroem a parte da comunicação dentro de casa.

Essa língua possui características diferentes em relação às outras línguas, como o seu modo de aprendizagem que ocorre no meio familiar. Esse modo de aquisição pode resultar em sotaque quase igual ao de um nativo. Outro aspecto importante também a ser pontuado é que a língua de herança existe em dois mundos paralelos: dentro de um país que tem uma outra língua dominante e dentro do ambiente familiar que alimenta a existência dessa herança. Por conseguinte, a língua de herança pode não se desenvolver da mesma maneira que a língua dominante, porque esta possibilita maior imersão de forma natural.

Fonte: https://sprachelesen.vobs.at/sprache/mehrsprachigkeit/jede-sprache-ist-ein-schatz

De acordo com a pesquisadora Glaucia Silva (2015), os aprendizes de língua de herança que somente mantêm contato com seus familiares podem chegar ao mesmo nível de um falante de nível universitário e até mesmo intermediário. Para essa autora, os aprendizes de língua de herança terão um maior nível de proficiência em habilidade oral do que na escrita ou na leitura, justamente pelo fato de nem sempre terem contato com materiais escritos. Dessa forma, o meio familiar contribui para que o aprendiz desenvolva, no mínimo, uma das habilidades. Assim, no caso do português, é de extrema importância que o professor trabalhe com a competência linguística de diferentes gêneros textuais de países lusófonos e com as diferenças culturais na sala de aula, trazendo o contraste da língua formal e informal, as diferenças de vocabulários e dialetos, trabalhar com oralidade e escrita.

A língua de herança é direito de todo indivíduo e não pode ser ignorada, porque ela faz parte da identidade e, uma vez negada, é negada também parte dessa identidade que os constrói como indivíduos que carregam em suas origens outros grupos sociais pertencentes ao país de seus pais.

Em suma, é importante que haja manutenção da língua de herança. Um exemplo de iniciativa na Europa é a Mala de Herança, um projeto criado na Alemanha em 2012 que tem como objetivo incentivar o ensino da língua portuguesa como língua de herança, através de contação de histórias e oficinas culturais para famílias com crianças falantes da língua portuguesa. Além disso, é relevante que os pais pensem em formas de ensino dessa língua herdada. Da mesma forma, os países de língua portuguesa devem estar engajados para que sejam oferecidos a esses indivíduos contato com a cultura e a língua.

Referências
SILVA, Glaucia. O fim é apenas o começo: o ensino de português língua de herança para adultos e adolescentes. In: JENNINGS-WINTERLE, F.; LIMA-HERNANDES, M.C. (Org). Português como língua de herança: A filosofia do começo, meio e fim. New York: Brasil em Mente, 2015. p. 2-5.
SOARES, Sofia M. C. Português Língua de Herança: Da Teoria à Prática. Faculdade de Letras Universidade do Porto. 2012.

Autoras
Larissa Caroline Ferreira
– Graduada no curso de Letras – Português e Alemão na Universidade Federal de Pelotas.
Larissa Lysakowski Venzke – Graduada no curso de Letras – Português e Inglês na Universidade Federal de Pelotas.

Documentação de línguas indígenas brasileiras: uma necessidade para além dos estudos linguísticos

A Linguística Documental é o campo de estudos dedicado à documentação de registros (falados ou escritos) e revitalização de línguas minoritárias e/ou ameaçadas de extinção. Apesar de haver resquícios de documentação linguística no Brasil desde o século XVI, com os missionários e viajantes europeus relatando e registrando (por meio de cartas, listas de palavras, sermões, gramáticas etc.) as línguas indígenas faladas no litoral do Brasil, foi a partir dos anos 1990 que a área alcançou o status de disciplina.

De acordo com a linguista e antropóloga brasileira Bruna Franchetto (2004), no Brasil, todas as línguas indígenas são consideradas minoritárias e, devido a isso, surge a urgente necessidade de se documentar e preservar essas línguas para que, dessa maneira, as memórias linguística, histórica, sociocultural e afetiva desses povos sejam preservadas.

Fonte; https://www.imaginie.com.br/temas/a-extincao-de-linguas-indigenas-no-brasil/

Para que uma documentação linguística seja realizada, é necessário que a/o profissional responsável pela coleta de registros falados e/ou escritos numa determinada comunidade disponha de um leque de ferramentas (gravadores, câmeras, caderno de campo e computadores, por exemplo) que auxiliam em todas as etapas do processo, desde antes da documentação até as etapas pós-documentação. Todas as ferramentas devem ser checadas antes de serem utilizadas, e o uso deve ser feito com discernimento sem deixar de lado os aspectos éticos envolvidos no processo de documentação, uma vez que a privacidade e o protagonismo das comunidades indígenas devem ser respeitados.

Segundo a linguista Cilene Campetela e demais pesquisadores (2017), muitos projetos foram e têm sido idealizados em diversas instituições públicas do país com o intuito de documentar e garantir a preservação de línguas ameaçadas de extinção, sobretudo as línguas indígenas. Com isso, professores e alunos, por meio da elaboração de estudos e projetos, têm cada vez mais despertado o interesse de outras pessoas no que se refere a esse campo de estudos tão necessário que é o campo da Linguística Documental.

Mesmo com esses esforços, é notório que são muitos os fatores que se apresentam como obstáculos ao processo de documentação, a exemplo das questões econômicas e socioculturais que nos permeiam. Ainda assim, é necessário resistir, pois só assim teremos disponíveis políticas e projetos de documentação e revitalização que, como sugere o título deste texto, é uma necessidade que vai muito além dos estudos linguísticos.

Referências
CAMPETELA, C. et al. Documentação linguística, pesquisa e ensino: revitalização no contexto indígena do norte do Amapá. Revista LinguíStica, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 151-167, jan. 2017.

FRANCHETTO, B. Línguas indígenas e comprometimento linguístico no Brasil: situação, necessidades e soluções. Cadernos de Educação Escolar Indígena, Cáceres, v. 3, n. 1, p. 9-26, 2004.

Indicações de sites que auxiliam na documentação de línguas indígenas do Brasil:
Biblioteca Digital Curt Nimuendajú
Museu do Índio – Funai
Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG)
Povos Indígenas do Brasil

Autor: João Gabriel Pereira da Silveira
Graduando em Letras-Bacharelado com ênfase em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). É revisor bolsista da Coordenação de Gestão Editorial e Impacto Social (CGEI), vinculada à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da UFPE, e membro do Grupo de Estudos e de Pesquisa em Tradução e Tecnologia (Getradtec) da mesma instituição. E-mail: jgsilveira96@gmail.com.

Las abuelas y their grandchildren: Conversas em espanhol e inglês – dentro de casa – nos seriados Jane the Virgin e Cobra Kai

Cresci escutando minha avó e mãe conversarem ora em pomerano, ora em português. Como sou professora de inglês, passei a prestar atenção a alguns dos enunciados que elas produziam: “Ich will Luísa telefonieren”, “Não come a sopa porque está heiß!“. Esses momentos de trocas entre as línguas me faziam questionar sobre o porquê de alterná-las e se elas – minha mãe e minha avó – realmente sabiam falar pomerano.

Você já deve ter assistido às séries norte-americanas Jane the virgin e Cobra Kai. Apesar de abordarem temáticas diferenciadas, ambas apresentam dois pontos em comum: o primeiro deles, o fato de que as famílias das personagens principais utilizam tanto o espanhol quanto o inglês em ambiente familiar e, o segundo, que as famílias são compostas por avós que emigraram da América do Sul para os EUA em busca de uma vida melhor. No entanto, não são todos os membros das duas famílias que utilizam a língua espanhola e, certamente, há uma ou mais razões para que isso ocorra.

Nesses seriados, facilmente observamos as avós (abuelas) se dirigirem às filhas e aos netos utilizando somente a língua espanhola no contexto familiar. As filhas e os netos utilizam, majoritariamente, a língua inglesa e, em alguns momentos, a língua espanhola. Essas escolhas de uso das línguas se devem a alguns fatores, sendo um deles a questão da crença e das práticas em relação a uma língua. As abuelas deixaram seus países e histórias para construírem algo novo na terra das oportunidades. Os pesquisadores King e Fogle (2006) investigaram como eram tomadas as decisões sobre o uso das línguas com crianças nos EUA. Nesse estudo, as mães aparecem como os membros da família que tendem a tomar a responsabilidade pela transmissão da língua que carregam como herança ou pela aprendizagem de uma nova língua.

Fonte: https://images.app.goo.gl/Dd9RdUD9DE5pafU36
Fonte: https://images.app.goo.gl/bpNiLZj2dF9KujyS6

A essa altura, você deve estar se perguntando: ok, e onde entra a parte das conversas em espanhol e inglês dentro de casa? Essa pergunta pode ser mais bem respondida através de exemplos.

Quarta temporada, episódio quinze (JV)
Jane: Right, that’s it, no more putting it off, we’re getting a new TV. I’ve narrowed it down to three choices based on price, size and picture quality.
Alba: que bién, toma esto grilled cheese, que necesitas comer.
Jane. Ok, I will. But look this is my top choice and I’ve found a discount coupon in a paper for 25%off… oh my God and it expires today! […]

Primeira temporada, episódio 4
Carmen: No, no more karate.
Rosa: Carmen, ¿cuál es el problema aqui? Miggy ha encontrado algo que le gusta hacer.
Carmen: Mira como Miguel está.
Rosa: Yo lo veo. Necesitas mas practica, ¿no es verdad? Arriba com las manos…
Carmen: Mama, este hombre es una mala influencia.
Miguel: He’s not. You don’t know him.

As conversas acima ocorreram ao redor de uma mesa na sala de janta de duas famílias. É possível notar que os falantes envolvidos fazem escolhas quanto a que língua utilizar. Essa troca entre espanhol e inglês acontece porque todos os envolvidos na conversa são detentores do mesmo par de línguas e possuem motivações acerca do uso de cada uma delas. Além disso, o espaço familiar permite uma maior liberdade para falar espanhol, mesmo residindo nos Estados Unidos. Esse é o espaço do coração, da língua de casa e das memórias. A abuela Alma, ao servir um lanche a sua neta Jane, conversa em espanhol, como de costume, mas muda para o inglês ao se referir a um alimento que passou a fazer parte de seu cotidiano por meio da língua e da cultura dos EUA, o grilled cheese.

Assim, é de grande importância estudar as experiências de mães imigrantes em relação à transmissão de línguas e dar visibilidade ao papel das mulheres no planejamento sobre o que fazer com as línguas. Quando você ouvir a troca de línguas dentro da sua casa ou em um seriado, lembre-se que esse fenômeno é natural, esperado e explicita escolhas linguísticas e culturais.

Referências

ARRIAGADA, Paula. Family Context and Spanish-Language Use: a study of Latino Children in the United States. Social Science Quaterly, n. 3, p. 599 – 619, 2005.
KING, Kendal; FOGLE, Lyn. Bilingual parenting as good parenting: Parents‘ perspectives on family language policy for additive bilingualism. International Journal of Bilingual Education and Bilingualism, v. 9, p. 695-712, 2006.
MOZZILLO, Isabella. A conversação bilíngüe dentro e fora da sala de aula de língua estrangeira. In: HAMMES, W.; VETROMILLE-CASTRO, R. (Org.) Transformando a sala de aula, transformando o mundo: ensino e pesquisa em língua estrangeira. Pelotas: Educat, 2001. p. 287-324.
SPOLSKY, Bernard. Para uma Teoria de Políticas Linguísticas. ReVEL, vol. 14, n. 26, p. 32-44, 2016.

Seriados

Jane the Virgin. Direção: Jennie Urman. Produção: Paul Sciarrotta, Meredith Averill, Corine Brinkerhoff, David Rosenthal, Josh Reims, Gina Lamra e Mark Grossan. Califórnia: Produtora: CBS Televison e Warner Bros. Television, 2014.
Cobra Kai. Direção: Jen Celotta. Produção: Ralph Macchjo, William Zabka, Will Smith, James Lassiter, Caleeb Pinkett, Susan Ekins, Josh Heald, Jon Hurwitz, Hayden Schlossberg. Califórnia: Hurwitz e Schlossberg Productions, Overbrook Entertainment, Heald Productions e Sony Pictures Television, 2018.

Autora: Lydia Tessmann Mülling da Motta. Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Católica de Pelotas.