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A língua da família: uma herança que acompanha a criança

Hoje em dia, ainda é comum vermos pais e professores sentirem um “frio na barriga” ao ouvirem uma criança “misturar” o português com outro idioma no dia a dia. Também é comum ouvir que alternar entre duas línguas significa que não se conhece bem nenhuma delas. Embora se tenha acreditado que isso causava confusão ou atraso, pesquisas científicas recentes mostram que o bilinguismo é um recurso valioso para o desenvolvimento infantil. Para fomentar esse potencial, é preciso entender que intercalar entre sistemas linguísticos é natural e criativo. Incentivar o uso de uma língua materna em casa traz benefícios sociais e afetivos para toda a vida.

A professora e pesquisadora Isabella Mozzillo explica que o aprendiz bilíngue entende desde muito cedo que uma mesma coisa pode ter nomes diferentes, o que pode desenvolver uma capacidade maior de atenção às línguas e de assimilação do funcionamento dos idiomas. Quando a criança mistura palavras, ela não está confusa, mas está usando a sua criatividade para conseguir transmitir a sua mensagem, já tendo consciência de que possui dois repertórios diferentes e sabendo com quem deve/pode usar cada um.

Usar em casa um código diferente da língua do ambiente externo ensina, desde a infância, a transitar entre duas culturas. Enquanto o idioma da rua predomina na escola e nas brincadeiras, a herança linguística de casa precisa de mais cuidado. A especialista em bilinguismo Cristina Flores alerta que, sem a prática diária da comunicação familiar, o cérebro tende a enfraquecer o aprendizado acumulado. Por isso, se a escola ou os pais desencorajam esse uso, o falante pode ter vergonha de sua origem e perder um vínculo afetivo com sua língua e cultura.

Para que esse ensinamento continue vivo, os momentos simples do dia a dia são fundamentais para criar um ambiente acolhedor e motivador, permitindo que a criança se sinta segura e motivada para usar a língua de casa. As educadoras Ivian Destro Boruchowski e Ana Lúcia Lico orientam que não basta apenas “ouvir” o idioma, é preciso também oferecer incentivos práticos, como contar histórias, falar rimas e ditos populares, cantar e narrar brincadeiras, participando, assim, de interações reais que dão sentido àquela prática linguística.

Foto da família de Maren Bergmann, que transmite  pomerano, língua de herança, ao menino Vicente em casa. Fonte: Arquivo pessoal da autora. 

No fim das contas, ao contrário do que sugerem os mitos, o uso da fala familiar não atrapalha a aprendizagem escolar e, além de manter o carinho com as raízes, ainda treina o cérebro. Quando essa diversidade é abraçada, pais e professores ajudam a construir um futuro em que cada jovem se sinta orgulhoso de sua história e se perceba capaz de usar suas habilidades para aprender novos saberes e vencer desafios com mais facilidade.

Autora: Maren Camile Rutz Bergmann, falante de pomerano de Canguçu (RS), mestranda em Letras pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Referências
BORUCHOWSKI, Ivian Destro; LICO, Ana Lúcia. Como manter e desenvolver o português como língua de herança: sugestões para quem mora fora do Brasil. Miami: Consulado-Geral do Brasil em Miami, 2016.
FLORES, Cristina. Bilinguismo infantil. Um legado valioso do fenómeno migratório. Diacrítica, v. 31, n. 3, p. 237-250, 2017.
MOZZILLO, Isabella. Algumas considerações sobre o bilinguismo infantil. Veredas: Revista de Estudos Linguísticos, Juiz de Fora, v. 19, n. 1, p. 147-157, 2015.

Declaração de uso de IA: Conforme a Portaria 2664/2026, Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq, de 6 de março de 2026, declara-se o uso de inteligência artificial gerativa neste trabalho. Este texto foi revisado gramaticalmente com o auxílio de Inteligência Artificial (NotebookLM, versão de julho de 2026), sob supervisão da autora.