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Entrevista sobre o Trabalho em tempos de pandemia

Em reportagem do jornal Diário Popular, publicada no dia 1º de maio, sobre o dia do trabalho nesse contexto de crise econômica e sanitária, intitulada “Um feriado sem motivos para celebrar” (página 7), o Prof. Francisco E. B. Vargas, coordenador do Observatório Social do Trabalho, foi entrevistado e analisou o impacto da pandemia da Covid-19 sobre o mundo do trabalho. Na matéria publicada no jornal Diário Popular, apenas uma parte da entrevista com o Prof. Francisco foi publicada. Por isso, o Observatório Social do Trabalho publica abaixo, na íntegra, a entrevista concedida, na véspera do dia do trabalho, à jornalista Júlia Müller.

P: A pandemia de Covid-19 afetou o que conhecíamos antes como trabalho e as suas relações? De que forma? Qual a visão sociológica para as relações de trabalho futuras?

A pandemia tem tido um forte impacto em nossas vidas, trazendo à tona e tornando visíveis dimensões de nossas experiências sobre as quais dávamos pouco atenção, pouco discutíamos. É uma mudança de olhar e sensibilidade que se coloca diante de nós. Em relação ao trabalho isso também acontece, temos a oportunidade de reavaliar nossos modos de vida, nossa relação com o trabalho e com os outros. Penso que, sobretudo, temos tido a oportunidade de recuperar valores e instituições que poderão reforçar laços de solidariedade, de cuidado, de atenção aos outros. Estamos nos damos conta que precisamos cultivar modos de vida e formas de organização que valorizem a convivência, a coletividade. Mas nada disso é definitivo, é um processo que está acontecendo e existem disputas em andamento cujos resultados ainda não somos capazes de vislumbrar. O mundo do trabalho é um exemplo disso tudo. As sociedades modernas se ergueram em torno de valores fortemente ancorados na vida econômica, no mercado, no trabalho, na produção do bem estar material, negligenciando-se os aspectos humanos, os laços de solidariedade e o cuidado com o meio ambiente. Generalizou-se a forma de trabalho assalariada, o trabalho subordinado, o chamado emprego, em que o trabalhador está sob o comando de um empregador. A precariedade histórica dessa forma de trabalho assalariada foi sendo superada pela construção dos direitos sociais e trabalhistas que tornaram os trabalhadores cidadãos e não apenas força de trabalho. No entanto, nas últimas décadas, temos assistido a um processo de enfraquecimento desses direitos, de precarização do trabalho, em nome da competitividade, do desempenho econômico, da adequação ao mercado, deixando-se em segundo plano a dimensão propriamente humana de nossa condição. O Estado e nossas instituições públicas de proteção e garantia de serviços para a população (saúde, educação, saneamento) têm sido enfraquecidos em nome de uma austeridade fiscal que só reforça os valores do mercado e enfraquece os mecanismos de solidariedade inscritos na ação do Estado. Nunca as desigualdades sociais foram tão profundas e os contrastes tão chocantes. As mudanças tecnológicas também impactam profundamente o mundo do trabalho, através das chamadas economias de plataformas, com a uberização do trabalho, mas parece que esse processo está marcado por forte precarização das condições de trabalho desse proletariado de serviços (entregadores e motoristas de aplicativos, etc.).

P: A procura por trabalhos informais tem crescido, como Freelancers e entregadores de aplicativos. Esse distanciamento físico entre empregado e empregador também causa algum tipo de impacto?

A informalidade e o desemprego são facetas dessas transformações que estão ocorrendo no mundo do trabalho e que a pandemia traz à tona de forma dramática. Na medida em que a lógica do mercado e de acumulação do capital se acentuam, também se intensificam processos de racionalização do trabalho, de uso de novas tecnologias a fim de reduzir custos e aumentar as possibilidades de lucro. A relação de emprego assalariada tradicional está em crise, pois implica direitos e proteções, e as empresas preferem terceirizar, preferem contratar empreendedores autônomos, na maior parte trabalhando sem direitos e proteções sociais. A terceirização generalizada provoca, portanto, um aumento da informalidade e, consequentemente, da insegurança e dos riscos no trabalho, do desemprego. Com o avanço das novas tecnologias, novas formas de trabalho vão se constituindo, como o teletrabalho, e uma nova cultura do trabalho vai se forjando. Mas não temos garantia nenhuma de que isso será bom para todos. Provavelmente será ótimo para alguns e ruim para a maior parte da população que vive numa situação de insegurança econômica e social. Mais uma vez, as desigualdades sociais são enormes e apenas revelam a distribuição profundamente desigual dos benefícios econômicos e do bem estar material, sempre concentrados em pequenas parcelas da população.

P: Os profissionais do ramo de gestão de pessoas apostam em novas exigências do mercado de trabalho após a pandemia, por conta dos trabalhos remotos e do tempo livre para o desenvolvimento de habilidades pessoais (disciplina e auto gestão). Levando em consideração que não são todas as profissões com o privilégio de trabalhar de casa, essas novas exigências surtem algum tipo de efeito nos diferentes estratos sociais?

Creio que precisamos fortalecer a instituições públicas, os serviços públicos, a ciência, o conhecimento. Esse é um desafio essencialmente político e não uma questão de mercado. É esse funcionamento do mercado como um espaço auto-regulado pelos preços, orientado apenas em função do lucro, que temos que colocar em xeque. A pandemia está mostrando a importância de termos instituições públicas organizadas e estruturas, que funcionem efetivamente, com recursos adequados, com profissionais qualificados e motivados, tudo que está faltando neste momento no enfrentamento da pandemia, de caos da saúde pública. Esse é um fenômeno mundial, aqui no Brasil a situação é mais grave, pois nossas instituições e serviços públicos são mais precários. Essa pandemia é a crônica de uma morte anunciada. Sabia-se, há muito tempo, que um vírus como esse poderia chegar. Não nos preparamos para isso porque prevalece uma racionalidade econômica estreita, a lógica do mercado, e não uma racionalidade voltada a cuidar das pessoas e salvar vidas. A dificuldade de mantermos o distanciamento para desacelerar o processo de contaminação, a pressa em reabrir os negócios, também é uma expressão dessa racionalidade econômica. Enfim, o que está em jogo atualmente não é somente a mudança das formas de trabalho, o uso de tecnologias, a possibilidade de se trabalhar remotamente, mas as bases fundamentais de nossa convivência social. Temos diante de nós um desafio enorme, que talvez seja uma revolução cultural, que é tornar a atividade econômica um meio, um meio para uma vida mais humana e solidária, e não um fim em si mesmo, um palco de luta por lucro e sobrevivência. Nesse sentido, o trabalho talvez possa vir a ser uma expressão autêntica de nossa convivência solidária, um meio de autorrealização individual e coletiva. Essa é uma velha promessa nunca cumprida por nossa modernidade.

 

 

 

 

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