Formas de tratamento do coreano no português brasileiro

Neste momento, já não há dúvidas de que o Brasil se tornou um grande mercado consumidor de cultura sul-coreana. A quantidade de atores sul-coreanos e de grupos de k-pop que recentemente inseriram o Brasil como ponto de passagem obrigatório em turnês comprova a força do Brasil no consumo de produtos culturais do país. 

É interessante notar que, nesse processo, há o contato com aspectos da cultura coreana, como o idioma. O espaço globalizado e multicultural da internet nos permite observar a influência da língua coreana no português brasileiro, em que percebemos, por exemplo, o uso de termos de tratamento e de referência.

As formas de tratamento na cultura coreana consideram aspectos, como a idade, a senioridade, a profissão e a hierarquia, bem como as relações sociais estabelecidas, que indicam diferentes níveis de intimidade. Termos de parentesco são usados para se dirigir a pessoas mais velhas, como harabeoji (할아버지/avô), halmeoni (할머니/avó), ajeossi (아저씨/tio), ajumeoni (아주머니/tia), mesmo que não sejam parentes dos falantes, como explica a autora Jae Jung Song. 

No quadro abaixo, adaptado de Haejin Elizabeth Koh, apresentam-se alguns termos de tratamento e de referência da língua coreana.

Categoria Termo Como é usado na língua coreana Em que contextos são usados Exemplos de uso
Títulos honoríficos -ssi (씨)  Pode ser usado de três formas diferentes: ¹anexado ao sobrenome + primeiro nome; ² anexado apenas ao sobrenome; ou ³anexado apenas ao primeiro nome Sufixo usado para pessoas da mesma idade ou mesmo nível hierárquico

¹Koh Haejin ssi

²Kim ssi

³Hyunsoo ssi

Termos de parentesco entre irmãos* oppa (오빠)  Usado depois do primeiro nome ou sozinho Termo usado para uma mulher se referir ao seu irmão mais velho Hyunsoo oppa
eonni (언니)  Usado depois do primeiro nome ou sozinho Termo usado para uma mulher se referir à irmã mais velha Haejin eonni
hyeong (형)  Usado depois do primeiro nome ou sozinho Termo usado para um homem se referir ao irmão mais velho Hyunsoo hyeong
nuna (누나) Usado depois do primeiro nome ou sozinho Termo usado para um homem se referir à irmã mais velha Haejin nuna
Vocativo de intimidade -a/-ya (- 아/-야) Anexados ao primeiro nome: -a depois de uma consoante; -ya depois de uma vogal Sufixo usado para se referir aos mais novos ou com quem se tem bastante intimidade, como amigos

Haejin-a

Hyunsoo-ya

*Os termos de parentesco entre irmãos podem ser usados não apenas para irmãos e irmãs mais velhos(as), mas também para amigos(as) e namorados(as) mais velhos(as).

Para além da ocorrência dos termos de parentesco entre irmãos, como o famoso “oppa (오빠), a língua coreana tem estado presente em práticas comunicativas de falantes do português brasileiro por meio do emprego de outros termos de tratamento e referência, apresentados a seguir.

Sufixo honorífico: do respeito ao afeto

O uso do sufixo honorífico -ssi (씨) por falantes do português brasileiro segue, em parte, as regras da língua coreana, sendo adicionado predominantemente após o primeiro nome, como se observa nos exemplos apresentados: Jin-ssi; Seungmin-ssi; e Eunkyung-ssi. No entanto, esse uso não ocorre, nesses casos, em razão da idade ou da posição social dos falantes em relação à pessoa a quem se referem.

Fonte: https://www.threads.com/@ericabat__/post/DPBXSa3gQin?xmt=AQG0XjmSZYyD-JF1cVxB82XQt8J_7RZVjAI_H4LOcUzObw

Nesse sentido, por que esses falantes usam o sufixo -ssi (씨)? A motivação ainda pode estar relacionada ao respeito, mas parece estar mais ligada à demonstração de afeto. O emprego de -ssi (씨) pode ser uma maneira do falante comprovar sua identidade de fã e seu pertencimento a uma comunidade, já que conhecer e usar essa expressão atesta que o falante consome e acompanha os conteúdos produzidos pelos seus artistas favoritos.

Vocativo de intimidade: proximidade em nova função

As partículas –a/-ya (-아/-야) são usadas como no coreano, anexadas ao primeiro nome, seguindo a regra da terminação em vogal ou consoante. No entanto, percebe-se uma diferença de uso. Falantes nativos as empregam como vocativos, ou seja, como um chamamento, uma forma de se dirigir diretamente a alguém, como ocorre no primeiro e no terceiro exemplo da figura abaixo: Jiminah e Eunwoo-ya, respectivamente. Já no segundo exemplo (jiminah), a partícula não é empregada na função de vocativo, mas como uma maneira de se referir a alguém, de falar sobre essa pessoa. 

Fonte do exemplo 1: https://www.threads.com/@andreacandidodps/post/DRlJuGujvG-?xmt=AQG083yYdXSq4GFAOHHtABcAqYuNz6WINj6XWPgZao5WWw              Fonte do exemplo 2: https://www.threads.com/@hourlyastrobr/post/DMfntJxub7y?xmt=AQG083yYdXSq4GFAOHHtABcAqYuNz6WINj6XWPgZao5WWw

Essas partículas, quando usadas no coreano, indicam intimidade com quem se fala e/ou status social igual ou superior do falante em relação ao interlocutor. No contexto do português brasileiro, elas podem ser empregadas conscientemente para refletir uma percepção de proximidade, já que os falantes, pelo tempo que acompanham e pela quantidade de conteúdo que consomem, podem se sentir próximos dos seus artistas preferidos e desejam expressar isso por meio da linguagem. Ao mesmo tempo, o uso dessas estruturas não necessariamente parece levar em consideração esse aspecto da cultura coreana que envolve as relações sociais e hierárquicas, uma vez que passam a desempenhar uma nova função.

Esse novo emprego dos vocativos de intimidade do coreano por falantes do português brasileiro também pode ser explicado, assim como o uso de -ssi (씨), como uma replicação da maneira de falar dos artistas que acompanham.

Afeto, proximidade e pertencimento

A partir dos exemplos apresentados, percebe-se que, embora no contexto brasileiro, diferentemente da Coreia do Sul, não haja uma necessidade social de marcar linguisticamente relações sociais e hierárquicas, essas estruturas são usadas por falantes do português brasileiro.

No entanto, ao serem usados em contexto sociocultural diferente, os termos de tratamento e de referência recebem novos usos e funções. O que, para falantes nativos, é empregado para indicar relações sociais específicas passa a ser usado para demonstrar afeto pelos artistas que os admiram e para criar uma sensação de proximidade com eles. Além disso, são usados como meio de indicar pertencimento a uma comunidade, sinalizando familiaridade com práticas discursivas associadas à cultura coreana.

Referências
KOH, Haejin Elizabeth. Usage of Korean Address and Reference Terms. In: SOHN, Homin (ed.). Korean Language in Culture and Society. Honolulu: University of Hawai’i Press, 2006. p. 146-154.
SONG, Jae Jung. The Korean language: structure, use and context. London and New York: Routledge, 2005. 

Autora: Ellen Andreza P. de Melo Lima, graduada em Letras – Português pela UFRN e especialista em Docência da Língua Portuguesa para Estrangeiros, atua como professora de Língua Portuguesa nos anos finais do ensino fundamental. Motivada por seus interesses, tem se dedicado a pesquisar como o consumo de produtos culturais coreanos influencia o português brasileiro.

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