Você já tentou mudar seu sotaque para ser mais bem compreendido ou aceito? Esse processo é comum em contextos de migração; eu mesmo já passei por isso. Cresci na região das Missões (RS), onde dizemos “leite quente” com a vogal final bem marcada, sem a elevação do som de “e”, o que resulta em “leiti”. Na minha adolescência, ao me mudar para a região metropolitana de Porto Alegre, onde vivo até hoje, percebi que passei a falar como as pessoas ao meu redor. Houve um processo de acomodação linguística, conceito descrito por Howard Giles e Tania Ogay como o ajuste do estilo de fala para se aproximar das outras pessoas. Para fazer parte do grupo, passei por um processo de imitação de um sotaque que tinha mais prestígio do que o meu, o que é bastante comum. Na época, essa mudança me trouxe um senso de pertencimento ao novo lugar, mas meu sotaque original ainda era a marca que narrava minha origem missioneira.
Mudei meu sotaque de forma mais ou menos natural, mas nem sempre esse processo é indolor. Recentemente, o relato de uma aluna do Norte do país me motivou a escrever este texto. Ela relatou sofrer tanto preconceito que passou a considerar ajuda fonoaudiológica para “perder” o sotaque. Esse relato me fez refletir: por que o falar de alguém incomoda o outro? Quando ouvi o relato dela, fiquei sensibilizado e comecei a conversar com ela, mas depois me dei conta de que já passei por isso também – em menor grau. O nosso sotaque reflete, portanto, a nossa história pessoal.
Para a Linguística, o sotaque tem relação com as variações na pronúncia. Como explica David Crystal, o sotaque é composto por características individuais, pois pessoas que falam o mesmo dialeto podem ter sotaques diferentes. O sotaque sinaliza nossa identidade social e regional. Ele mostra a nossa história! No podcast Desteoriza, Leonardo Lopes reforça que sotaque não é “vício de linguagem”, mas sim uma marca própria. Todos temos sotaques, independentemente da região, e a decisão de manter ou adaptar esses traços deveria ser uma escolha de identidade, não uma fuga da discriminação.
O linguista William Labov mostrou no clássico estudo em lojas de departamentos em Nova Iorque que, pela forma como falamos, transmitimos quem somos ou quem desejamos ser. Já Marcos Bagno, em sua obra seminal Preconceito Linguístico (confira o nosso texto sobre o tema), defende que não existem sotaques superiores. O português brasileiro é um “balaio de gatos” repleto de diversidade. Como mostra a série documental Línguas da nossa língua, existem várias línguas dentro da nossa.
A mídia, algumas regiões e certas instituições tentam impor um “sotaque padrão”, chamando os outros sotaques de erro, impondo um padrão de mundo. A ciência da linguagem afirma: isso não é possível nem desejável. O que existe é uma norma de prestígio, um registro formal que deve ser acessível a todos para garantir ascensão social, mas que jamais deveria exigir o apagamento dos outros sotaques.

Não podemos perder nem esconder o nosso sotaque, porque ele é uma marca da nossa história e identidade. Não tenha medo de falar inglês ou outra língua estrangeira com sotaque do português, como a Fernanda Torres ou o Wagner Moura, pois você nunca vai ser nativo se não cresceu no país estrangeiro. Não tenha medo de mostrar como fala português em qualquer lugar, assim como a Brenda Suerda e o Ariano Suassuna. Não podemos apagar a nossa história, o nosso RG, tampouco os nossos sotaques. Portanto, o esforço deliberado para “perder” o sotaque fere a nossa própria identidade. Quando escolhemos preservar traços de fala ou nos adaptamos por desejo de conexão, estamos exercendo nosso direito à identidade. Que todos nós – a aluna, eu e muitas outras pessoas – transformemos o sotaque em orgulho e que possamos entender que a riqueza da língua não está na uniformidade, mas na pluralidade de vozes que contam quem somos.
Agradeço ao colega Lucas Löff Machado pela leitura atenta e crítica deste texto.
Referências
BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. 49ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2007.
GILES, Howard; OGAY, Tania. Communication Accommodation Theory. In: WHALEY, B. B.; SAMTER, W. (orgs.) Explaining communication: Contemporary theory and exemplars. Mahwah: Lawrence Erlbaum. p. 293-310.
LABOV, William. The Social Stratification of English in New York City. Washington, DC: Center for Applied Linguistics, 1966.
Autor: Bernardo Kolling Limberger. Professor de Pós-Graduação na Universidade Federal de Pelotas e de Graduação na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Coordenador do Laboratório de Psicolinguística, Línguas Minoritárias e Multilinguismo – Laplimm.