A ofensiva de Washington contra o Pix por João Leonardo Campos

Nos últimos meses, as investidas de Washington contra a expansão do Pix — o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos — ganharam novos contornos. O relatório de 2026 do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), publicado em 31 de março, formaliza críticas ao modelo nacional e ao seu impacto no comércio internacional.

O documento alega, ainda, que o Brasil falha no combate à pirataria — citando o polo comercial da Rua 25 de Março, em São Paulo — e argumenta que exportadores norte-americanos são prejudicados por alíquotas de importação excessivas.

Como o foco central do relatório recai sobre o Pix, evidencia-se uma ofensiva coordenada para pressionar o Governo Brasileiro e, especificamente, o Banco Central do Brasil (BCB). Ao democratizar transações em tempo real com custo nulo ou reduzido, o Pix tornou-se um marco histórico que ameaça diretamente os interesses estadunidenses, por dispensar a intermediação de gigantes como Visa e Mastercard. Para conter esse avanço, foi anunciada a abertura de uma investigação que classifica as práticas brasileiras como “desleais”.

Em resposta, o BCB manteve sua agenda de expansão. Novas funcionalidades devem ser introduzidas ainda em 2026, como o pagamento de duplicatas escriturais e a obrigatoriedade da “cobrança híbrida”. O modelo, lançado em 2020, já transcende fronteiras ao servir de base para o BRICS Pay. Uma vez que o bloco detém 25% do comércio global, a gradual dispensa do sistema SWIFT em quase um terço das trocas comerciais atinge o cerne da hegemonia do dólar no Sistema Monetário e Financeiro Internacional (SMFI).“o aumento do peso econômico do BRICS na economia internacional contrasta com a persistente centralidade do dólar, evidenciando as profundas assimetrias que caracterizam o SMFI” (Araripe, Peruffo e Moreira, 2025).

Dessa forma, a hostilidade de Washington reflete o receio de que o BRICS desestabilize o domínio estabelecido desde Bretton Woods, visto que o bloco projeta realizar, até 2027, metade de seu comércio intrabloco em moedas locais (Real, Yuan, Rúpia e Rublo). Historicamente visto pelos EUA como um parceiro em relações assimétricas, o Brasil hoje lidera uma alternativa tecnológica de ressonância global. Entre os membros originais do bloco, o Brasil é o que possui relações diplomáticas mais consolidadas com o Ocidente e maior proximidade geográfica com os EUA. Diante da resistência de Brasília em ceder às pressões, é imperativo que o país esteja preparado para o acirramento dos embates diplomáticos e econômicos capitaneados pela Casa Branca.

 

REFERÊNCIAS:

GAZETA DO POVO. Governo Trump divulga relatório sobre o Brasil com críticas ao Pix, 25 de Março e impostos. Gazeta do Povo , 2026. Disponível em:https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/governo-trump-divulga-relatorio-sobre-o-brasil-com-criticas-ao-pix-25-de-marco-impostos/Acesso em: 8 de abril de 2026.

TNH1. EUA revoltados com o Pix brasileiro; entenda o motivo. Portal TNH1 , 2026. Disponível em:https://www.tnh1.com.br/variedades/eua-estao-revoltados-com-o-pix-brasileiro-entenda-o-motivo/Acesso em: 8 de abril de 2026.

Veja. Investigado pelos EUA, Pix aguarda novas funções designadas pelo BC. Veja , 2026. Disponível em:https://veja.abril.com.br/economia/investigado-pelos-eua-pix-aguarda-novas-funcoes-desenvolvidas-pelo-bc/Acesso em: 8 de abril de 2026.

ARARIPE, Thaís; PERUFFO, Luiza; CUNHA, André Moreira. O BRICS e a agenda de desdolarização: avanços e desafios na presidência do Brasil. 2025. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/c924286e-26c5-419a-a505-a8cfa41ec929/content .Acesso em: 8 abr. 2026.

REPRESENTANTE COMERCIAL DOS ESTADOS UNIDOS. Agenda de Política Comercial de 2026 e Relatório Anual do Presidente dos Estados Unidos de 2025 sobre o Programa de Acordos Comerciais. Washington, DC: USTR, 2026. Disponível em: https://ustr.gov/sites/default/files/files/Press/Releases/2026/2026%20Trade%20Policy%20Agenda%202025%20Annual%20Report.pdf . Acesso em: 8 abr. 2026.

*João Leonardo Campos é pesquisador do LabGRIMA.

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