Como o conflito no Irã evidencia a crise do multilateralismo por Maria Eduarda Motta

É nítido que o conflito no Irã abalou o sistema internacional, visto que o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, causou um aumento imediato nos preços do combustível. Entretanto, tal cenário evidenciou muito mais do que isso: expôs a profunda interdependência entre as nações e uma crise do multilateralismo que já se arrasta há considerável tempo.

No Oriente Médio, Israel se mostra insatisfeito com o cessar-fogo vigente. Figuras da oposição ao governo do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu usam a trégua para atacá-lo, afirmando que o acordo é um vexame para a segurança nacional e que o governante não soube defender os interesses israelenses frente a Donald Trump (Al Jazeera, 2026). Além disso, as forças israelenses seguem atacando o Hezbollah no Líbano para enfraquecer a presença iraniana na região, visto que Teerã alegadamente apoia grupos rebeldes nesses locais (BBC, 2026).

Apesar do cessar-fogo, os Estados Unidos também demonstram insatisfação com as negociações, as quais afirmam estar paralisadas devido à falta de acordo entre as partes. Em sua conta no Truth Social, o presidente Trump segue ameaçando as autoridades iranianas, declarando que o diálogo “está respirando por aparelhos” e que uma resposta à altura é necessária. Porém, autoridades próximas revelaram que o presidente mudou de opinião quanto ao enriquecimento de urânio: se antes ele exigia o encerramento definitivo dessas atividades, agora alterou o discurso para uma suspensão por 20 anos (BBC, 2026). Essa mudança significativa de posicionamento ocorre, em grande parte, devido ao desgaste que o conflito vem trazendo à sua imagem.

Carente de uma vitória externa para os Estados Unidos, o governo americano está redirecionando seus esforços para Cuba, sufocando o país caribenho com um embargo econômico e energético que tem gerado uma grave crise humanitária. Segundo o analista para a América Latina Rane Mário Braga, esse redirecionamento é estratégico; devido às falhas no Irã, Washington precisa urgentemente de um ganho geopolítico para aliviar as pressões domésticas e internacionais (CNN, 2026). A ofensiva contra Cuba é justificada pela Casa Branca sob a alegação de que a ilha estaria permitindo a presença de espiões da China, da Rússia e do Irã, baseando-se no fato de Havana ter comprado drones do modelo Shahed, produzidos pelo Irã, mas que utilizam doutrina russa e inteligência de alvos chinesa.

Cerca de um mês após a visita de Trump à China, o presidente Xi Jinping recebeu o líder russo Vladimir Putin em Pequim, e especula-se que tanto a questão iraniana quanto a cubana foram abordadas no encontro (CNN, 2026). Esse movimento reforça, novamente, como o sistema internacional e seus diferentes atores estão interligados. Ao mesmo tempo, o grande número de impasses e conflitos evidencia a crise do multilateralismo, com as potências priorizando a demonstração de força e o controle de narrativas.

Em suma, o cenário internacional é marcado por contradições: ao mesmo tempo em que a economia e a segurança global demonstram uma interdependência inegável – seja pelo impacto do fechamento do Estreito de Ormuz ou pela triangulação de forças em Cuba -, os mecanismos tradicionais de diálogo falham em entregar estabilidade. A paralisia nas negociações com o Irã, o desgaste político interno de lideranças em Washington e Tel Aviv, e o consequente redirecionamento de hostilidades para palcos historicamente sensíveis evidenciam que a busca imediata por vitórias hegemônicas tem prevalecido sobre o entendimento coletivo. Diante do fortalecimento de eixos estratégicos alternativos, como a aproximação entre China e Rússia para coordenar respostas a essas crises, confirma-se que o sistema internacional se fragmenta em disputas de poder que perpetuam a instabilidade econômica e as crises humanitárias.

Referências: 

Análise: Após falhar no Irã, Trump tenta mudar rumos de Cuba. CNN Brasil. 21 de maio de 2026. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-apos-falhar-no-ira-trump-tenta-mudar-rumos-de-cuba/> . Acesso em: 21 mai. 2026.

Israel pushes for war amid US ceasefire, but its options may be limited. Al Jazeera. 21 de maio de 2026. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2026/5/21/israel-pushes-for-war-amid-us-ceasefire-but-its-options-may-be-limited>. Acesso em 21 mai. 2026

“Tempo está se esgotando”: a nova ameaça de Trump ao Irã em meio às negociações paralisadas. BBC News. 18 de maio de 2026. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy02yer51dko>. Acesso em: 21 mai. 2026

*Maria Eduarda Motta é pesquisadora do LabGRIMA.

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