Esta página apresenta o arcabouço de Geopolítica dos Sistemas‑Mundo e Ações Antissistêmicas de Estados, desenvolvido por Charles Pennaforte no âmbito do LabGRIMA/UFPel. A proposta articula análise dos sistemas‑mundo, geopolítica clássica e geopolítica crítica para interpretar a crise da hegemonia norte‑americana, o confronto entre Estados Unidos e China e o papel do Sul Global – em particular do Brasil e da América Latina – na ordem internacional contemporânea.
Partindo da hipótese de que a ordem atual é bifurcante, e não apenas “multipolar”, o enfoque introduz duas contribuições principais: (1) a noção de ações antissistêmicas de Estados, que desloca o olhar dos movimentos sociais “de baixo” para estratégias estatais e interestatais de contestação; e (2) a distinção entre Estados Proativos e Estados Ativos, como formas distintas de responder ao que se define como imperativo antissistêmico – o conjunto de pressões gerado pelo uso intensivo de sanções, exclusões financeiras, guerras e disputas de narrativas por parte do centro hegemônico.
Nesta aba, reunimos uma apresentação sintética das teses centrais, referências bibliográficas, materiais didáticos (slides, textos de apoio) e links para livros e artigos que desenvolvem a Geopolítica dos Sistemas‑Mundo e Ações Antissistêmicas de Estados, com ênfase nas implicações para o Brasil, a América Latina e o Sul Global em geral.
Seis teses – Geopolítica dos Sistemas‑Mundo e Ações Antissistêmicas de Estados
Tese 1 – A ordem é bifurcante, não apenas multipolar
A ordem internacional do século XXI não está apenas passando de uma unipolaridade norte‑americana para uma multipolaridade difusa. Ela caminha para uma ordem bifurcante, em que coalizões de Estados constroem infraestruturas financeiras, tecnológicas, securitárias e narrativas rivais – sistemas de pagamentos, cadeias produtivas, alianças militares e ecossistemas midiáticos paralelos – que não cabem plenamente na linguagem tradicional da “multipolaridade”.
Tese 2 – A ação antissistêmica não é só “de baixo”: há ação antissistêmica de Estados
Retomando e revisando a noção de movimentos antissistêmicos de Wallerstein, a abordagem distingue entre resistência “de baixo” e ações antissistêmicas de Estados. Estas se referem às estratégias por meio das quais Estados e coalizões estatais contestam a lógica geopolítica e geoeconômica do sistema liderado pelos EUA – em segurança, finanças, comércio e governança global – sem necessariamente abandonar o capitalismo ou o sistema interestatal.
Tese 3 – Proativos e Ativos como tipologia de contestação
A proposta desenvolve uma tipologia que diferencia Estados Proativos e Estados Ativos. Os Proativos adotam estratégias abertamente confrontacionais frente ao eixo Washington–Bruxelas, enfrentando sanções, isolamento diplomático e pressão militar enquanto investem em capacidades militares, financeiras, energéticas e tecnológicas alternativas – casos de Rússia, China, Irã e Coreia do Norte. Os Ativos, como Brasil, Índia, África do Sul e partes do mundo árabe, permanecem profundamente integrados a instituições e mercados ocidentais, mas praticam formas calibradas de contestação e busca de autonomia, defendendo multipolaridade, reforma multilateral e maior voz para o Sul Global.
Tese 4 – Geopolítica de Sistemas‑Mundo: espaço, ciclos e infraestruturas
A Geopolítica de Sistemas‑Mundo combina preocupações clássicas com território, rotas marítimas, zonas de amortecimento e acesso a recursos com a análise de sistemas‑mundo de ciclos de acumulação de longa duração e hierarquias centro–semiperiferia–periferia. Ela enfatiza as infraestruturas materiais do poder – redes financeiras, corredores energéticos, plataformas digitais, bases militares – por meio das quais centros hegemônicos organizam o sistema‑mundo e por onde se articulam ações antissistêmicas de Estados.
Tese 5 – Sanções, guerras e narrativas como motores da bifurcação
Sanções, guerras por procuração e disputas de narrativa não são “episódios isolados”, mas mecanismos centrais da bifurcação contemporânea. O uso extensivo de sanções econômicas, exclusões financeiras e controles tecnológicos contra atores como Rússia, Irã e Venezuela; a guerra na Ucrânia; e o tratamento de crises como Gaza revelam a crise da hegemonia norte‑americana e, ao mesmo tempo, geram incentivos antissistêmicos para Estados Proativos e Ativos. Em paralelo, conflitos narrativos e cibernéticos sobre a interpretação dessas crises tornam‑se arenas centrais de disputa por legitimidade e liderança.
Tese 6 – O Sul Global como laboratório da ordem bifurcante
Em vez de tratar o Sul Global como recipiente passivo das dinâmicas sistêmicas, a abordagem o coloca no centro como laboratório da ordem bifurcante. BRICS e BRICS Plus, experiências de desdolarização e mecanismos de pagamento alternativos, formas de cooperação Sul–Sul e demandas por reforma das instituições multilaterais ilustram como Estados Proativos e Ativos do Sul Global testam novas combinações de parcerias, moedas, instituições e narrativas em resposta ao imperativo antissistêmico.
