O governo dos Estados Unidos indiciou formalmente Raúl Castro, ex-presidente de Cuba, por assassinato e conspiração para matar cidadãos americanos devido ao abate de duas aeronaves civis da organização “Irmãos ao Resgate” em 1996.
Na época, Castro ocupava o cargo de ministro da Defesa e teria dado a ordem direta para o ataque, que resultou na morte de quatro pessoas, sendo três cidadãos americanos. Esse movimento judicial busca enquadrar o líder histórico cubano em um processo criminal com consequências imprevisíveis, tratando o caso sob a ótica de aplicação da lei (law enforcement), de maneira similar à estratégia adotada contra Nicolás Maduro na Venezuela.
Estrategicamente, o indiciamento é visto por analistas como uma tentativa de dar um “verniz de legalidade” a eventuais operações futuras de captura ou ações militares. Após a administração de Donald Trump enfrentar impasses diplomáticos com o Irã, Cuba surgiu como uma alternativa para redirecionar o foco político e oferecer uma narrativa de vitória doméstica. O objetivo central de Washington seria forçar a ilha a deixar de atuar como um centro de espionagem para países como China, Rússia e Irã, oferecendo em troca o fim do embargo e prosperidade econômica.
A pressão militar foi intensificada com o deslocamento do porta-aviões USS Nimitz para o mar do Caribe, aumentando os temores de uma ação direta ou indireta contra o país. Em resposta, o atual líder cuban8o, Miguel Díaz-Canel, prometeu resistência armada contra qualquer força de invasão. A tensão escalou ainda mais após Cuba anunciar a compra de 300 drones iranianos (modelo Shahid) com tecnologia russa e chinesa, apenas dois dias depois de o diretor da CIA, John Ratcliffe, ter visitado Havana para entregar uma mensagem de ultimato da administração americana.
O indiciamento atinge Cuba em seu momento de maior fragilidade em décadas, enfrentando uma crise humanitária e energética extrema com apagões constantes e escassez de combustível. Estima-se que as dificuldades econômicas e a repressão política tenham provocado um êxodo de até 20% da população cubana. Apesar de ter deixado oficialmente seus cargos na presidência e no Partido Comunista, Raúl Castro, aos 94 anos, ainda é considerado o homem mais poderoso da estrutura de poder da ilha, mantendo influência decisiva sobre as Forças Armadas e as decisões estratégicas do Estado.
Paralelamente à retórica agressiva, existem sinais de aberturas diplomáticas e interesses econômicos subjacentes. Canais discretos de comunicação têm sido mantidos, inclusive com a participação do neto e segurança de Raúl Castro, conhecido como “El Cangrejo”. Além das questões de segurança, analistas apontam que o setor de turismo, o mercado imobiliário e recursos minerais como o cobre representam atrativos econômicos relevantes para os americanos. O secretário de Estado, Marco Rubio, chegou a propor uma “nova via” para as relações bilaterais, condicionada ao afastamento de Cuba da influência de potências rivais dos Estados Unidos.
Referências:
AMERISE, Atahualpa. Quem é Raúl Castro, o último grande símbolo da Revolução Cubana que está na mira dos Estados Unidos. BBC News Brasil, [S. l.], 21 maio 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn7pjjyl7leo. Acesso em: 21 maio 2026
ANÁLISE: Após falhar no Irã, Trump tenta mudar rumos de Cuba. CNN Brasil, [S. l.], 21 maio 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-apos-falhar-no-ira-trump-tenta-mudar-rumos-de-cuba/. Acesso em: 21 maio 2026
*Luiz Carlos de Freitas é pesquisador do LabGRIMA.
