No fim da tarde, em Los Angeles, a seleção iraniana iniciou a sua longa e controversa saga na Copa do Mundo de 2026, empatando com o time neozelandês em 2×2. Diante de todo contexto envolvendo as condições de participação do team melli no torneio, inclusive com ameaças de abandono do jogo em resposta às possíveis manifestações políticas de membros da diáspora ou de outros atores, a partida transcorreu sem maiores problemas. As ações envolvendo a mobilizada e heterogênea Tehrangeles ficaram, em grande medida, restritas ao lado de fora do estádio.
Fora dos gramados, na copa da geopolítica, o Irã não empatou. Com destaque para a sua atuação frente ao governo estadunidense, Teerã formalizou o que há muito já estava dado: sua vitória estratégica diante da aliança entre Trump e Netanyahu. Contando com a mediação paquistanesa, o Memorando de Entendimentos entre estadunidenses e iranianos abriu expectativas sobre o fim de um conflito que, em sua atual fase, já dura cerca de quatro meses.
O conteúdo integral deve ser só conhecido a partir de sexta-feira (19), quando as partes deverão se reunir na Suíça, para a assinatura presencial do documento. No entanto, algumas questões já se tornaram conhecidas por meio da imprensa estatal do Irã e de apurações de outros veículos internacionais junto aos governos envolvidos em tal empreitada. Em um olhar mais genérico, o reconhecimento dos limites envolvendo o acordo atual, tendo em vista a previsão de abertura de novas negociações ao longo das próximas semanas sobre temas polêmicos como o programa nuclear iraniano, leva-nos a crer que estamos diante de uma espécie de retomada do status quo do início do ano.
Em grande medida, isso é verdade. Iranianos e estadunidenses continuam a divergir sobre formas de controle e mesmo existência do programa nuclear, delegando novamente ao futuro a possibilidade de um arranjo político-diplomático mais abrangente. Também não se deve desconsiderar as incertezas sobre o fator Israel nesse cálculo sobre novos acordos. Ainda que o Irã afirme que as tratativas mantidas junto aos EUA também abarcaram a saída israelense do território libanês, o que se vê, de fato, é a insistência de Tel-Aviv em garantir certo autonomismo visando à sobrevivência política de seu primeiro-ministro.
A história recente demonstrou que todo e qualquer acordo assume um sinal de provisoriedade que vai muito além do reconhecimento de seus próprios atores. No caso atual, os dois pontos acima, somados à própria imprevisibilidade de Trump, são motivos suficientes para se colocar em xeque as possibilidades de algum tipo de paz ou estabilidade gradual. No entanto, a extensão desse jogo se mostrou, até então, uma sucessão de triunfos do Irã diante das forças beligerantes. Para quem acreditou em um Irã isolado após as ofensivas contra o Eixo da Resistência e a queda de Assad, o que se vê é um país consolidado no xadrez geopolítico do Oriente Médio, inclusive com potencial em adquirir novas formas de convivência com outras potências regionais.
Para os olhares mais pessimistas acerca do futuro do regime iraniano diante dos protestos do início do ano e dos efeitos da ofensiva israelo-estadunidense, o quadro atual reforçou a resiliência do Estado persa. E aqueles que viam na pressão econômica algum tipo de alternativa para conter Teerã? O Irã fez do Estreito de Ormuz e da possibilidade de extensão dos custos regionais da Guerra o seu maior triunfo. Explorando a vulnerabilidade geoeconômica de diferentes atores envolvidos direta ou indiretamente nos conflitos, o governo iraniano adquiriu certa primazia na condução da Guerra, fazendo da sua extensão temporal um fardo para um desesperado governo Trump.
Do que se sabe até agora, alguns pontos negociados favorecem ao atendimento das aspirações iranianas, lançadas desde o início das conversas. Fontes de Teerã afirmam que os EUA acenaram com uma flexibilização das sanções econômicas e até mesmo com algum tipo de reparação envolvendo os danos provocados pela guerra. Ao menos em relação ao primeiro aspecto, interlocutores estadunidenses sugerem que tal medida estaria condicionada a garantias concretas envolvendo a negociação sobre o programa nuclear. Contudo, o que já se admite é a liberação de uma série de recursos iranianos que se encontravam congelados em diferentes instituições financeiras, o que representa um importante passo para a recuperação econômica do país.
Também tem origem no Irã às sugestões sobre um pacto de não agressão e o fim do bloqueio do Estreito de Ormuz. O primeiro parece ser um horizonte ainda mais distante, tendo em vista a série de variáveis a serem negociadas entre as partes, bem como a necessidade de um ambiente de confiança recíproca inédito. No entanto, a existência dessa agenda em específico já é uma vitória do Irã. Rejeitar uma nova alternativa bélica diante do histórico de conflitos entre iranianos e estadunidenses representaria um passo que nem mesmo o Acordo Nuclear de 2015 conseguiu dar. Já em relação à circulação marítima, o fim do bloqueio é uma boa notícia para os mercados globais. Apesar de não reverter os impactos já dados pela crise energética desse semestre em diversos setores, a retomada da circulação em Ormuz sinaliza com a existência de um futuro ponto de estabilidade para as cadeias globais que dependem dessa via.
Somente o tempo dirá qual a exata natureza desses acordos. Não se deve subestimar a capacidade dos atores envolvidos em transformarem possíveis pontos de virada em marcos para o aprofundamento de tensões já existentes. No entanto, na copa da geopolítica, as partidas que se sucederam continuam a dar vitórias importantes para o Irã, transformando cenários de pressões em diferentes dimensões em fatores de elevação de seu próprio poder em nível doméstico e regional. Se a boicotada seleção iraniana não deve ter dificuldades para dar saltos longos na Copa do Mundo de Futebol, no cenário da política internacional o país está muito longe de se curvar aos seus adversários.
Mateus Santos
Doutor em História pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel)
Membro-Pesquisador do Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA)
