A diplomacia russa confirmou, na última quarta (19), a definição de uma nova rodada de contatos bilaterais com Washington para mitigar atritos e buscar a normalização das relações, conduzida sob um “acordo de cavalheiros” em regime de silêncio.
Segundo a porta-voz Maria Zakharova, a ideia é sair das discussões apenas técnicas e avançar em “questões prioritárias”, como reabrir consulados e embaixadas, recuperar propriedades diplomáticas russas que foram confiscadas nos EUA, retomar voos diretos e “reconstruir a confiança perdida”.
Esse canal de diálogo direto foi aberto por ordem dos presidentes dos dois países, Vladimir Putin e Donald Trump, e vem acontecendo por meio de reuniões periódicas entre o Ministério das Relações Exteriores da Rússia e o Departamento de Estado americano. As negociações ganharam mais força após conversas entre as lideranças das chancelarias de ambos os lados, focando em destravar problemas diplomáticos entre Moscou e Washington. A pauta principal da reunião envolve a liberação do patrimônio imobiliário diplomático russo retido nos EUA e normalizar o envio e a atuação de diplomatas em ambos os territórios. Além disso, o retorno dos voos comerciais diretos é visto por Moscou como um ponto central para restabelecer uma normalidade logística e facilitar a circulação oficial e civil.
Apesar das rodadas de diálogo, as tratativas enfrentam entraves substanciais devido a divergências de abordagem e à complexidade dos temas pendentes. As autoridades russas apontam que o processo negociador tem sido prolongado e que, embora haja avanços parciais na operação cotidiana das delegações, ainda não foi possível restabelecer o funcionamento pleno das representações consulares, mantendo as missões operando sob limitações impostas pela deterioração prévia dos vínculos diplomáticos. Ademais, destaca-se o prolongamento das tensões em meio à guerra na Ucrânia, dificultando um entendimento duradouro entre as partes.
Na entrevista concedida por Zakharova, foi informado que a Rússia está disposta a ouvir novas propostas construtivas dos Estados Unidos para solucionar o conflito na Ucrânia. Ao comentar uma possível visita à Rússia do enviado especial de Washington, Steve Wittkoff, a porta-voz oficial afirmou que Moscou está disposta a organizar a viagem “no menor prazo possível”. Segundo ela, no entanto, até o momento não houve nenhuma solicitação oficial nesse sentido.
Sendo assim, no plano bilateral, a reaproximação funciona como uma tentativa das duas potências de regular a própria rivalidade e administrar o desgaste mútuo em meio ao conflito na Ucrânia. No início do mês, o presidente Trump chegou a rejeitar o novo pedido de Zelensky por novos mísseis interceptadores para os sistemas Patriot e afirmou que Washington precisa priorizar a reposição de seus próprios estoques. Apesar disso, embora Moscou afirme estar aberta a ouvir iniciativas da Casa Branca para a resolução da crise ucraniana, desde que seus interesses nacionais sejam assegurados, a imposição mútua de condições e a manutenção das sanções econômicas indicam o prolongamento da guerra, sem oferecer qualquer perspectiva imediata para o conflito.
Referências
Próximo contato entre Rússia e EUA para eliminar atritos está sendo definido, diz Zakharova. (2026, 19 de agosto). Sputnik Brasil. Disponível em: https://noticiabrasil.net.br/20260819/proximo-contato-entre-russia-e-eua-para-eliminar-atritos-esta-sendo-definido-diz-zakharova-53352260.html
Date for new Russia-US contacts on removing ‘irritants’ being agreed upon – diplomat. (2026, 20 de agosto). TASS. Disponível em: https://tass.com/politics/2175361
*Lisa Marie B. Bastos é pesquisadora do LabGRIMA.
