Em 15 de setembro de 2026, os Estados Unidos confirmaram pela primeira vez que possuem armas de controle espacial instaladas em órbita. A informação foi divulgada pelo secretário da Força Aérea norte-americana, Troy Meink, que afirmou que os sistemas têm como objetivo proteger as forças dos Estados Unidos contra possíveis ações de adversários.
Apesar da confirmação, Washington não divulgou quais armas foram instaladas ou quais são suas capacidades específicas.
A declaração ocorre em meio ao aumento da importância estratégica do espaço para as capacidades militares das grandes potências. Satélites são utilizados para comunicação, navegação, vigilância, inteligência e operações militares, fazendo com que a capacidade de proteger ou interferir nesses sistemas se torne parte importante da segurança nacional. Estados Unidos, Rússia e China já desenvolvem diferentes tecnologias de guerra e defesa espacial, incluindo sistemas capazes de interferir em satélites.
A reação russa ocorreu no dia seguinte ao anúncio. O vice-ministro das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov, afirmou que Moscou não havia sido informada previamente sobre a instalação dos sistemas norte-americanos e defendeu a criação de um tratado internacional juridicamente vinculante que proíba a instalação de armas ofensivas no espaço. Segundo Ryabkov, ainda seria possível impedir uma corrida armamentista espacial caso os países estejam dispostos a negociar novas restrições internacionais.
A China também criticou a ampliação das capacidades militares norte-americanas no espaço. Em 16 de setembro, o Ministério das Relações Exteriores chinês pediu que os Estados Unidos interrompessem o aumento de armamentos e os preparativos para operações militares no espaço, defendendo a manutenção de seu uso pacífico. A posição aproxima-se da apresentada por Moscou e demonstra a preocupação dos dois países com uma possível expansão da competição militar para além da atmosfera terrestre.
Apesar da convergência entre Rússia e China, a questão também envolve interesses próprios de cada potência. Para os Estados Unidos, a expansão das capacidades espaciais está relacionada à proteção de sua infraestrutura militar e à manutenção de capacidade de dissuasão diante do desenvolvimento tecnológico de Rússia e China. Para Moscou, a criação de novas restrições internacionais pode limitar a expansão das capacidades norte-americanas e reduzir os riscos de uma corrida armamentista em um domínio cada vez mais estratégico. Para Pequim, por sua vez, a questão está relacionada tanto à segurança de seus próprios sistemas espaciais quanto à crescente competição tecnológica e militar com Washington.
A disputa também evidencia limitações do atual regime internacional sobre o espaço. O Tratado do Espaço Sideral de 1967 proíbe a colocação em órbita de armas nucleares e outras armas de destruição em massa, mas não impede todas as formas de utilização militar do espaço. O desenvolvimento de tecnologias capazes de interferir ou neutralizar satélites criou novas áreas de disputa que não são completamente regulamentadas pelo tratado. A confirmação norte-americana, portanto, ocorre em um contexto no qual as principais potências possuem capacidades militares espaciais crescentes, mas ainda não existe um consenso sobre novas regras para limitar seu uso.
Dessa forma, a confirmação dos Estados Unidos representa mais do que uma mudança na política militar norte-americana: ela evidencia a transformação do espaço em um novo campo de competição estratégica entre as grandes potências. A reação conjunta de Rússia e China demonstra que a questão está inserida em uma disputa mais ampla pela segurança e pela distribuição de poder no sistema internacional. Para Moscou, o episódio também reforça a importância de estabelecer mecanismos internacionais capazes de limitar a expansão militar norte-americana, ao mesmo tempo em que a Rússia busca preservar suas próprias capacidades estratégicas. Assim, a militarização do espaço amplia uma competição que já envolve dimensões militares, tecnológicas e econômicas e acrescenta um novo domínio à rivalidade entre Rússia, China e Estados Unidos.
REFERÊNCIAS:
ASSOCIATED PRESS. US acknowledges for the first time that it has deployed weapons in space. AP News, 15 set. 2026. https://apnews.com/article/5a2a0ada771daaf4fbef0991d8c09259
INTERFAX. Ryabkov заявil, chto SSHA ne uvedomlyali RF o planakh razmeshcheniya oruzhiya v kosmose. Interfax, 16 set. 2026.https://www.interfax.ru/russia/1116399
REUTERS. Russia says there is still time to stop an arms race in space after US orbital weapons admission. Reuters, 16 set. 2026.https://www.reuters.com/business/aerospace-defense/russia-says-there-is-still-time-stop-an-arms-race-space-after-us-orbital-weapons-2026-09-16/
XINHUA. Kitay prizyvaet SSHA prekratit’ narashchivanie vooruzheniy i podgotovku k voennym deystviyam v kosmicheskom prostranstve. People’s Daily, 16 set. 2026.https://russian.people.com.cn/n3/2026/0916/c31521-20500056.html
*Luisa Nunes é pesquisadora do LabGRIMA.
