Ao longo dos últimos dias, o cenário conflituoso envolvendo o Oriente Médio ganhou mais um capítulo. Após uma trégua de quatro anos, rebeldes houthis no Iêmen e o governo da Arábia Saudita voltaram a trocar ataques, ampliando as incertezas regionais após o fracasso do último cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos.
O possível recomeço de um conflito que remonta as complexidades da Primavera Árabe em território iemenita ocorreu a partir de uma acusação feita pelos houthis acerca de um bombardeio saudita contra uma delegação que retornava ao país em avião de origem iraniana. Em resposta, o grupo realizou ataques ao território saudita e anunciou o início de um bloqueio às embarcações do reino que transitam pelo estreito de Bab el – Mandeb, considerado vital no circuito comercial entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico.
Em meio à continuidade das ações militares que já atingiram refinarias sauditas, a possibilidade de agravamento da crise energética global se soma a uma série de questões envolvendo o presente e o futuro geopolítico da região. Um dos aspectos mais importantes diz respeito às relações entre Arábia Saudita e o Irã. Um dos atores não-estatais do chamado eixo da resistência, os houthis tem em Teerã o seu maior aliado internacionalmente, com um longo histórico de apoio estratégico durante os conflitos iniciados na década passada.
Considerado um dos principais pontos de atrito entre sauditas e iranianos durante o auge das rivalidades contemporâneas entre os dois países, a situação política no Iêmen volta a testar diretamente a posição desses atores, em um contexto regional mais complexo. É verdade que a trégua entre a Casa Saud e os rebeldes iemenitas não culminou necessariamente com a assinatura de um acordo mais abrangente. Visto historicamente como parte das suas fronteiras de segurança, o governo de Mohammed Bin Salman demonstra não abrir mão da atuação em favor dos seus aliados no território vizinho, haja vista o mais recente episódio que culminou com um princípio de crise com os Emirados Árabes Unidos. No entanto, os custos econômicos e políticos da liderança da coalizão militar que interviu no país desde 2015 fizeram da alternativa de um novo conflito algo distante das pretensões de Riad.
Diante dos rumores de apoio iraniano as ações recentes dos houthis, uma importante questão a se levantar diz respeito aos impactos dessa escalada para as relações entre Teerã e Riad. Desde a retomada de relações diplomáticas entre os dois Estados (2023), a trajetória até então foi marcada por um princípio de preservação do novo status quo. Combinando um permanente diálogo diplomático e estratégico com movimentos cautelosos em meio ao agravamento da instabilidade regional, sauditas e iranianos conseguiram, em maior ou menor medida, atravessar os graves momentos de crise desde outubro de 2023 sem reconsiderar significativamente suas posições recíprocas. Mesmo com a estratégia iraniana de extensão horizontal dos custos da guerra contra Israel e Estados Unidos, tanto as ações do Estado persa contra a Arábia Saudita foram muito mais tímidas em relação a outros países do Golfo quanto o próprio governo de MBS se recusou a aderir ou endossar formalmente as agressões de Washington e Tel-Aviv.
Autoridades iranianas se pronunciaram sobre os eventos atuais no Oeste da Península Arábica. Afirmando não existir solução militar para os conflitos envolvendo o Iêmen, Teerã apelou para a abertura de um novo diálogo entre as partes beligerantes. Nos Estados Unidos, Donald Trump responsabilizou diretamente o governo iraniano pelas ações dos houthis, ameaçando retaliar tanto o país persa quanto o grupo. Tais declarações ocorrem no mesmo momento em que Washington busca ampliar laços estratégicos com Riad, incluindo a retomada das discussões sobre a normalização de relações com o Estado de Israel.
É nesse contexto que o governo saudita vive mais um importante teste para a inserção regional do país e sua própria capacidade de interlocução diante do cenário global. Ainda que seja de interesse do Reino ampliar um arco de alianças que seja capaz de conter as ações dos houthis no Iêmen, o que credenciaria o apoio ofertado por Trump, a intersecção entre a retomada dos conflitos nessa região e a dinâmica regional envolvendo a atuação estadunidense contra o Irã representaria um revés diante dos esforços de contenção da instabilidade política vivenciada pelo Oriente Médio nos últimos anos. Riad não dá sinais (pelo menos até o momento) de promover uma regressão substancial em sua posição diante de Teerã, mesmo diante de um tema considerado prioritário em sua agenda regional.
Por outro lado, não parece ser do interesse do próprio Irã uma nova deterioração de relações com o principal país árabe do Golfo. No jogo de forças envolvendo a posição de Teerã no Oriente Médio, a demonstração de força militar de resistência aos agressores se combinou com certa eficiência diplomática em manter canais de diálogo com diferentes atores da região, incluindo a própria Arábia Saudita. Se um dos resultados da extensa mudança de conjuntura regional desde outubro de 2023 foi a reafirmação do poder regional do Irã, este não necessariamente se traduz em abandonar a exitosa estratégia de neutralização do nível de influência dos EUA e de Israel em relação aos Estados de seu entorno regional.
Desse ponto de vista, a retomada das ações armadas no Iêmen desafia as dinâmicas da própria conjuntura política regional. Diante dos riscos de um maior entrelace entre essa crise e o conflito no Golfo Pérsico, caberá ao Irã um papel decisivo envolvendo duas alternativas: a contenção de um aliado regional ou a aposta em um cenário ainda mais instável, capaz de promover uma nova configuração das relações com as principais potências do Oriente Médio. Do lado houthi, esse também é um teste decisivo, que impacta na capacidade de elevação de barganha diante do próprio cenário político iemenita, marcado por um quadro real de fragmentação.
Nesse quadro, só o tempo dirá se estamos diante de mais uma expansão de fronteira de uma guerra que se recusa a acabar ou se estamos diante de uma crise que paradoxalmente poderá reforçar o quadro existente.
Referências
NEW front in US-Iran war escalates as Houthis fire at Saudi oil facilities. Al-Jazeera. Jul. 26, 2026. https://www.aljazeera.com/news/2026/7/26/new-front-in-us-iran-war-escalates-as-houthis-fire-at-saudi-oil-facilities.
ELSEBAI, Farida; DAHMAN, Ibrahim; LISTER, Tim. Houthis atingem instalações da Arábia Saudita em ataques com mísseis. CNN Brasil. 25 jul. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/houthis-atingem-instalacoes-da-arabia-saudita-em-ataque-com-misseis/.
GOLDSCHMIDT JR, Arthur; AL-MARASCHI, Ibrahim. Uma História Concisa do Oriente Médio. Petrópolis: Vozes, 2021.
Mateus Santos
Doutor em História pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Pesquisador do Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA)
