As Convenções de Genebra de 1949 constituem o pilar do Direito Internacional Humanitário (DIH). Formuladas no Pós-Segunda Guerra Mundial, visam regular conflitos armados e mitigar impactos sobre a sociedade civil. Um dos princípios fundamentais estabelecidos é a proibição da destruição de bens indispensáveis à sobrevivência da população civil (ICRC, 2022), ato tipificado como crime de guerra. No cenário geopolítico atual, tal princípio é frequentemente posto em xeque pelas posturas de Estados Unidos e Israel no conflito com o Irã.
O presidente Donald Trump ameaçou diretamente a infraestrutura civil iraniana, incluindo usinas de energia e pontes. Segundo a DW (2026), Trump afirmou que, caso o Estreito de Ormuz não fosse reaberto, a civilização iraniana seria forçada a retornar à “Idade da Pedra”, ironizando as acusações de que tais ataques constituiriam crimes de guerra. Simultaneamente, Israel bombardeou a infraestrutura petroquímica de South Pars, campo de gás natural e emitiu alertas à população para que evitasse o transporte ferroviário, sinalizando a rede de trens como alvo (DW, 2026).
A tensão global intensificou-se após Trump declarar em sua rede social, Truth Social, que “toda uma civilização irá morrer esta noite”, se referindo à civilização iraniana. A afirmação gerou forte repulsa interna nos Estados Unidos – inclusive entre republicanos – e condenação internacional por parte de aliados e organizações (BBC, 2026). O incidente forçou um cessar-fogo frágil de duas semanas, período no qual o Irã comprometeu-se a reabrir o Estreito de Ormuz e garantir a segurança da navegação.
Sob uma perspectiva analítica, a postura de Trump denota uma crescente frustração com os rumos do conflito. Desde o início das hostilidades, os EUA sustentam uma narrativa de êxito, alegando terem neutralizado a capacidade nuclear iraniana, mitigado ameaças a Israel e avançado rumo a um cessar-fogo favorável, com suas exigências aceitas. Contudo, tais afirmações são prontamente rechaçadas por porta-vozes iranianos, o que mina a credibilidade das alegações presidenciais.
Ademais, a indiferença de Trump perante as violações de direitos humanos e supostos crimes de guerra tem desgastado a imagem internacional dos Estados Unidos. A inesperada resiliência iraniana, somada à instabilidade retórica de Washington, questiona não apenas a supremacia militar estadunidense, mas também os supostos “princípios morais” tradicionalmente defendidos pelo país (CNN, 2026). Diante da queda de popularidade interna – impulsionada pela alta dos combustíveis – e da incerteza sobre os ganhos reais da campanha militar iniciada, restam dúvidas sobre a profundidade dos custos políticos e diplomáticos para o governo Trump a longo prazo.
Referências:
“Ao mirar alvos civis, Trump abre porta para crimes de guerra.” DW. 07 de abril de 2026. Disponível em: < https://amp.dw.com/pt-br/ao-amea%C3%A7ar-infraestrutura-civil-do-ir%C3%A3-trump-abre-porta-para-crimes-de-guerra/a-76688541> Acesso em: 09 abr. 2026
“Cessar-fogo com Irã abre porta para Trump sair da guerra — mas custo é alto”. BCC News. 08 de abril de 2026. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cew74np7yp9o> Acesso em: 09 de abr. 2026
“Convenções de Genebra e Comentários”. Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Disponível em: <https://www.icrc.org/pt/direito-e-politicas/convencoes-de-genebra-e-comentarios> Acesso em: 09 abr. 2026
“EUA x Irã: entenda o que levou Trump a um acordo de cessar-fogo.” CNN Brasil. 08 de abril de 2026. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eua-x-ira-entenda-o-que-levou-trump-a-um-acordo-de-cessar-fogo/> Acesso em: 09 abr. 2026
“Trump reitera ameaça de dizimar infraestrutura civil do Irã.” DW. 06 de abril de 2026. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/trump-chama-l%C3%ADderes-iranianos-de-animais-e-reitera-amea%C3%A7a-de-dizimar-infraestrutura-civil/a-76682130> Acesso em: 09 abr. 2026
*Maria Eduarda Motta é pesquisadora do LabGRIMA.
