IX edição da reunião da Zopacas e lições do conflito no Oriente Médio para a defesa naval brasileira por Júlia Cardoso Pires

Nos dias 8 e 9 de abril a cidade do Rio de Janeiro foi sede da IX reunião ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), cúpula formada por 24 países que mantém comunicação direta com a região sul do Oceano Atlântico, e no dia 10 contou com a realização 3º Simpósio Marítimo da ZOPACAS com o tema Fortalecendo a Cooperação Marítima e a Segurança no Atlântico Sul. Nesta edição, além de celebrar os 40 anos de fundação, foi homologada a posse do Brasil como líder da cúpula – a cumprir um mandato de 3 anos. 

Merece atenção a adoção do primeiro documento de Estratégia de Cooperação da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico (ZOPACAS), o qual prevê medidas de cooperação que visam fortalecer a governança e o desenvolvimento sustentável da porção sul do Oceano Atlântico (AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO, 2026).  Apesar do documento se concentrar na incumbência de compromissos políticos e não na execução de medidas práticas, como operações de monitoramento e treinamento conjuntas, a iniciativa representa um passo rumo ao fortalecimento das relações Sul-Sul e consequentemente uma tentativa de ampliação de protagonismo na região.

A realização do evento na atual conjuntura geopolítica internacional, com vistas ao acirramento das disputas por recursos naturais e ao impacto comercial gerado pela interrupção do fluxo de embarcações no Estreito de Ormuz, ressalta a importância da proteção das rotas marítimas e da projeção estratégica dos países sobre a sua zona de influência marítima, como destacado pelo Ministro da Defesa, José Mucio Monteiro em fala durante a sessão de abertura do simpósio, no dia 10 deste mês (MILENA, 2026). Para o Brasil, a soberania nacional e a defesa das rotas marítimas são objetos de importância estratégica para a segurança do País, tendo em vista que cerca de 95% do comércio exterior brasileiro passa pelo Atlântico Sul e 95% da produção de petróleo e gás se concentram em regiões costeiras (AGÊNCIA MARINHA DE NOTÍCIAS, 2026), ademais, é por onde passam os cabos submarinos de internet que conectam o território. 

Ainda em paralelo aos acontecimentos no Oriente Médio e considerando a prioridade estratégica que a porção sul do Atlântico representa para o Brasil, quando questionado pela Agência Marinha de Notícias, o Contra-Almirante Sandro Baptista Monteiro que atua como Subchefe de Estratégia do Estado-Maior da Armada (EMA), ressalta que apesar da urgência da região, ela ainda é exemplo de um dos gargalos estratégicos do País e para que o de deixe de ser, identifica como requisito base  a constituição de um plano de investimentos em Defesa que seja previsível e de longo prazo. Para o Contra-Almirante os cenários operacionais atuais são marcados por maior complexidade e exigência tecnológica, e para que consiga sobreviver em tais cenários, é determinante que o País gerencie os projetos de segurança com seriedade, garantindo a continuidade orçamentária, em prol da constituição de uma Defesa capaz de estabelecer capacidades de monitoramento, presença, dissuasão e pronta resposta.

Outra inferência feita pelo Contra-Almirante a partir do contexto atual, diz respeito à valorização de recursos de baixo custo relativo e alto impacto operacional, como por exemplo o uso de sistemas não tripulados, ataques eletrônicos e cibernéticos e uma integrada rede de comunicação e sensoriamento. Ressaltou-se também a lição lesionada pelo Irã, dos efeitos oriundos da instrumentalização da coerção ao invés de decisões mais ofensivas em meio naval (AGÊNCIA MARINHA DE NOTÍCIAS, 2026).

Referências:

AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO. Estratégia de Cooperação adotada durante reunião ministerial da ZOPACAS no Rio de Janeiro. 9 abr. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/abc/pt-br/assuntos/noticias/estrategia-de-cooperacao-adotada-durante-reuniao-ministerial-da-zopacas-no-rio-de-janeiro. Acesso em: 22 abr. 2026.

MILENA, Primeiro-Tenente (RM2-T). A revitalização da ZOPACAS é prioridade para a política externa brasileira”, afirma o Ministro da Defesa durante o 3º Simpósio Marítimo no Rio de Janeiro. 10 abr. 2026. Disponível em: https://www.agencia.marinha.mil.br/defesa-naval/revitalizacao-da-zopacas-e-prioridade-para-politica-externa-brasileira-afirma-o. Acesso em: 21 abr. 2026. 

AGÊNCIA MARINHA DE NOTÍCIAS. Conflito no Oriente Médio expõe fragilidade das rotas marítimas e reforça papel estratégico do Poder Naval. 11 abr. 2026. Disponível em: https://www.agencia.marinha.mil.br/defesa-naval/conflito-no-oriente-medio-expoe-fragilidade-das-rotas-maritimas-e-reforca-papel. Acesso em: 21 abr. 2026.

*Júlia Cardoso Pires é pesquisadora do LabGRIMA.

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