Apesar de o conflito envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã encontrar-se atualmente em uma fase de cessar-fogo — o qual, segundo a declaração do presidente estadunidense Donald Trump em 21 de abril, teria duração indeterminada —, as negociações permanecem tensionadas na razão dos bloqueios comerciais vigentes no Estreito de Ormuz.
Esse canal, além de constituir rota marítima estratégica, abriga uma parcela significativa (cerca de 90%) da rede global de cabos submarinos, responsável pela transmissão de dados, transações financeiras e tráfego de internet.
Em resposta à prorrogação do cessar-fogo imposto por Washington, as Forças Revolucionárias iranianas manifestaram a necessidade de um acontecimento. O presidente do Parlamento e chefe da delegação iraniana em Islamabad, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o exército representa “orgulho e honra” para o país, sendo uma “muralha de ferro” contra os inimigos. Considerando a possibilidade de retomada do conflito, o Estado iraniano sinaliza que uma resposta plausível seria a danificação dos cabos submarinos localizados no Estreito de Ormuz.
Um ataque a essas estruturas teria consequências significativas. De acordo com o relatório da agência iraniana Tasnim, baseado no estudo detalhado da rede de cabos submarinos e da infraestrutura de computação em nuvem no Golfo Pérsico, o Estreito de Ormuz é altamente estratégico por abrigar sistemas como:
- FALCON , que conecta 14 países do Oriente Médio, África e Sul da Ásia;
- AAE-1 , cabo de 25.000 km ligando Ásia, África e Europa;
- Gulf Bridge International , primeiro cabo privado a interligar todos os países do Golfo em 2008;
- Tata TGN-Gulf , sistema de 4.031 km inaugurado em 2012, conectando Omã, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Arábia Saudita, com extensão até Mumbai e Europa;
- SEA-ME-WE 5 , projeto de 20.000 km que liga Singapura ao Oriente Médio e à Europa Ocidental, com capacidade inicial de 24 Tbps;
- 2África , maior cabo do mundo (45.000 km), com capacidade de 180 Tbps e previsão de plena operação até 2026.
A análise indica que qualquer dano a essa rede poderia gerar impactos diretos em outros continentes. O controle temporário do Estreito de Ormuz pelo poder militar iraniano, em um cenário de guerra, teria repercussões não apenas sobre o comércio internacional de petróleo — principal commodity da economia global —, mas também sobre a infraestrutura digital mundial. Tal evidência a ausência de governança global e o desrespeito ao Direito Internacional, uma vez que os cabos submarinos são tutelados por consórcios de Estados, operadoras e empresas privadas, cujos interesses não se restringem a agendas estatais.
Diante disso, resta aguardar os desdobramentos das próximas rodadas de negociações entre Estados Unidos, Israel e Irã. Caso o ataque se concretizasse, seria interpretado como resposta às declarações da soberania nacional iraniana e como reafirmação de seu poder, possivelmente consolidando sua posição como principal potência regional no Oriente Médio.
REFERÊNCIAS:
TRIBUNA DO SERTÃO. Debaixo do mar, o risco é global: a geopolíticSertãoa dos cabos submarinos. Tribuna do Sertão, 20 abr. 2026. Disponível em:https://www.tribunadosertao.com.br/geral/2026/04/20/890206-debaixo-do-mar-o-risco-e-global-a-geopolitica-dos-cabos-submarinos . Acesso em: 22 de abril de 2026.
CBN GLOBO. Irã defende Guarda Revolucionária em ataques em Ormuz após relatos de desentendimentos entre autoridades. CBN Globo, 22 abr. 2026. Disponível em: https://cbn.globo.com/mundo/noticia/2026/04/22/ira-defende-guarda-revolucionaria-em-ataques-de-ormuz-apos-relatos-de-desentendimentos-entre-autoridades.ghtml . Acesso em: 22 de abril de 2026.
O CAFEZINHO. Irã mapea vulnerabilidade estratégica de cabos submarinos no Estreito de Ormuz. O Cafezinho, 22 abr. 2026. Disponível em: https://www.ocafezinho.com/2026/04/22/ira-mapeia-vulnerabilidade-estrategica-de-cabos-submarinos-no-estreito-de-ormuz/ . Acesso em: 22 de abril de 2026.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS TASNIM. “IRGC pronto para revelar surpresas além dos cálculos do inimigo” . Agência de Notícias Tasnim, Teerão, 22 abr. 2026. Disponível em: https://www.tasnimnews.ir/en/news/2026/04/22/3572114/irgc-ready-to-unveil-surprises-beyond-enemy-calculations . Acesso em: 22 de abril de 2026.
IRAN INTERNATIONAL. Guerra híbrida do Irã: drones e a ameaça dos cabos submarinos. Iran International, 22 abr. 2026. Disponível em:Acesso em: https://www.iranintl.com/en/202604225913 . 22 de abril de 2026.
DIÁRIO DA GUANABARA. Mundo: Cabos submarinos viram alvo estratégico global e ameaçam impactar internet, bancos e economia digital . Diário de Justiça do Rio de Janeiro (DGRJ), Rio de Janeiro, 22 abr. 2026. Disponível em: https://dgrj.com.br/mundo/cabos-submarinos-viram-alvo-estrategico-global-e-ameaca-pode-impactar-internet-bancos-e-economia-digital . Acesso em: 22 de abril de 2026.
*João Leonardo S. Campos é pesquisador do LabGRIMA.
