A disputa global pelas terras raras consolidou-se como um dos eixos centrais do sistema-mundo contemporâneo, impulsionada pela competição estratégica entre China e Estados Unidos pelo domínio das tecnologias de ponta. Esses minerais, essenciais para semicondutores, base da Inteligência Artificial, turbinas eólicas de alta eficiência, motores elétricos e baterias avançadas, tornaram-se pilares da transição energética e da reorganização contemporânea do poder material. Nesse contexto, o Brasil surge como um ator estratégico, ainda que avance em ritmo inferior ao seu potencial geológico e industrial.
A República Popular da China mantém um domínio quase absoluto no setor, com as maiores reservas globais, estimadas em 44 milhões de toneladas, e controle integral dos bens de capital necessários para o processamento desses minerais. Os Estados Unidos, por outro lado, enfrentam uma vulnerabilidade estrutural: possuem apenas 1,9 milhão de toneladas em reservas. A assimetria também aparece na produção anual: a China registrou 270 mil toneladas, enquanto os EUA produziram apenas 51 mil (U.S. Geological Survey, 2026, p. 153). A maior potência tecnológica do sistema, portanto, depende de uma cadeia produtiva altamente concentrada na Ásia, dependência que, em conjunto às questões econômicas e políticas internas dos EUA, pressiona sua posição hegemônica.
O Brasil, por sua vez, aparece como detentor da segunda maior reserva mundial, com 21 milhões de toneladas. Apesar da produção ainda modesta, houve crescimento significativo de 560 toneladas (2024) para 2.000 toneladas (2025) (U.S. Geological Survey, 2026, p. 153). Trata-se de um movimento ascendente, porém insuficiente para alterar a posição histórica do país nas cadeias globais de valor, ainda marcada por exportações primárias e baixa capacidade industrial.
Esse movimento global encontra ressonância direta na política doméstica brasileira. À medida que as eleições de 2026 se aproximam, o debate sobre terras raras passa a ser organizado, sobretudo, pelas posições de três figuras do cenário eleitoral: o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição; o senador Flávio Bolsonaro (PL); e o governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD).
São esses três atores que hoje vocalizam as narrativas mais visíveis sobre o tema, e, simultaneamente, representam os principais polos das expectativas eleitorais deste ano. Suas leituras sobre soberania mineral, alinhamento geopolítico e desenvolvimento econômico não apenas estruturam o debate público, mas funcionam como indicadores da disputa política mais ampla que atravessa o país em 2026.
Em entrevista ao Instituto Conhecimento Liberta, Lula criticou Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado, classificando suas posições como tentativas de “vender o Brasil” aos Estados Unidos. Defendeu “cautela” para evitar a entrega de “ativos estratégicos” e “recursos naturais”, e afirmou que o contexto internacional exige maior atenção aos temas de segurança e defesa diante das pressões externas (Estadão Conteúdo, 2026). Para Lula, as terras raras integram diretamente a agenda de soberania nacional.
No Conservative Political Action Conference (CPAC), principal evento anual do conservadorismo global, Flávio Bolsonaro apresentou uma narrativa distinta. Destacou os recursos naturais brasileiros, definindo o país como “campo de batalha” para reduzir a dependência norte-americana da China e sugeriu que os EUA observassem atentamente as eleições brasileiras, exercendo pressão diplomática para que as instituições “funcionassem adequadamente” (Metrópoles, 2026). Seu discurso revela não apenas um alinhamento geopolítico orientado pelas expectativas estratégicas de Washington, mas também a abertura para formas de ingerência externa sobre o processo político brasileiro, movimento que se articula a dinâmicas internas de “desdemocratização” e tensiona ainda mais o cenário eleitoral de 2026.
A presença de Ronaldo Caiado no debate se relaciona ao fato de Goiás abrigar a primeira mineradora de terras raras do país, Serra Verde, em Minaçu. Em 18 de março, assinou um memorando de entendimento com o governo de Donald Trump para tratar da exploração de minerais críticos no estado. A iniciativa foi criticada pelo governo federal, que apontou possível violação do artigo 20 da Constituição, responsável por assegurar que concessões de mineração são competência exclusiva da União. O governo goiano, contudo, alegou que o memorando não possui caráter vinculativo e está dentro das prerrogativas estaduais (Lambranho, 2026).
A análise do Observatório da Mineração amplia a questão para além da disputa federativa. Para Gonçalves (2026), o caso revela a continuidade do modelo extrativo dependente, que mantém Goiás e os territórios do Cerrado como periferias minerais globais, aprofundando processos de desterritorialização e impactos socioambientais sobre comunidades locais. Assim, a ação parece não se tratar apenas de um conflito jurídico, mas da reprodução histórica da vulnerabilidade territorial diante de interesses externos.
Dado o exposto, percebe-se que a disputa pelas terras raras sintetiza o entrelaçamento entre geopolítica, tecnologia e território no capitalismo contemporâneo. O desafio brasileiro não reside na posse dos recursos, mas na capacidade de romper padrões históricos de dependência, reorganizar sua base produtiva e disputar posições mais elevadas nas cadeias de valor. As eleições de 2026 revelam que o tema já ultrapassou o campo técnico, tornando-se parte central do debate sobre modelos de desenvolvimento, soberania e inserção internacional.
O futuro da inserção brasileira no sistema-mundo dependerá de sua habilidade em articular soberania mineral, proteção territorial e avanço industrial, sem repetir o ciclo histórico em que abundância natural convive com vulnerabilidade estrutural.
As terras raras, nesse sentido, não são apenas minerais estratégicos: constituem um espelho do lugar que o Brasil ocupa e do lugar que pode vir a ocupar na hierarquia global do poder.
Referências
ESTADÃO CONTEÚDO. Lula critica Flávio e Caiado sobre posicionamento diante de terras do Brasil. São Paulo: InfoMoney, 8 abr. 2026. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/mercados/lula-critica-flavio-e-caiado-sobre-posicionamento-diante-de-terras-raras-do-brasil/. Acesso em: 9 abr. 2026.
LAMBRANHO, Lucio. Briga entre governo Lula e Caiado acirra disputa por controle de terras raras em Goiás enquanto impactos ambientais são esquecidos. Belo Horizonte: Observatório da Mineração, 9 abr. 2026. Disponível em: https://observatoriodamineracao.com.br/briga-entre-governo-lula-e-caiado-acirra-disputa-por-controle-de-terras-raras-em-goias-enquanto-impactos-ambientais-sao-esquecidos/. Acesso em: 9 abr. 2026.
METRÓPOLES. Íntegra: veja o discurso de Flávio Bolsonaro em conferência do CPAC nos EUA. Brasília: Metrópoles, 28 mar. 2026. https://www.youtube.com/watch?v=CqtrIucb70w. Acesso em: 9 abr. 2026.
U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral commodity summaries 2026. Reston: U.S. Geological Survey, 2026. Disponível em: https://pubs.usgs.gov/periodicals/mcs2026/mcs2026.pdf. Acesso em: 25 mar. 2026.
Glauco Winkel é pesquisador no Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA) e pesquisador associado no Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI).
