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O que é intercompreensão?

Ao pensarmos em Brasil, temos a ideia de que a língua portuguesa é a única falada em todo território nacional. Entretanto, excluímos as realidades imigratórias, indígenas e fronteiriças que moldam nosso país linguisticamente.

Em um minicurso do professor Francisco del Olmo, dois conceitos de comunicação são abordados e estão relacionados às realidades expostas acima. Segundo ele, o cenário onde somente uma língua circula é nomeado comunicação endolíngue (com muitos dialetos). Já situações fronteiriças e turísticas configuram uma comunicação exolíngue, pois existe mais de uma língua em uso. Aplicando esses conceitos em nosso âmbito nacional, constata-se que há uma comunicação exolíngue, visto que há também situações imigratórias, indígenas, fronteiriças e turísticas que demandam o uso de outras línguas.

Dentro dessa comunicação exolíngue, se encontra o cenário da intercompreensão, que segundo Möller e Zeevaert (2015), é um processo motivado pelas relações entre as famílias linguísticas que pode ser ocasionado pelas palavras cognatas, similaridades na estrutura frasal e na ortografia. Línguas derivadas do latim, como por exemplo, português, espanhol, francês, italiano têm maior possibilidade de intercompreensão, dado que fazem parte da mesma família linguística. Dessa forma, um brasileiro que lê ou escuta esses outros idiomas pode compreendê-los mesmo sem ter conhecimentos sobre eles. Além disso, para Francisco del Olmo, a intercompreensão pode ocorrer de forma que nenhum falante precise ceder sua língua para que a comunicação aconteça. Logo, cada falante escolhe sua forma de falar e ambos tentam o processo de intercompreensão. Segundo o professor, esse processo se torna democrático e eficaz. O portunhol falado na fronteira entre Brasil e Uruguai, por exemplo, é fruto do processo da intercompreensão, o qual evidencia a democratização linguística. No vídeo da Coopération Educative France au Brésil, é possível conhecer outras línguas da mesma família linguística do nosso português.

 

 

REFERÊNCIAS: 

MÖLLER, R.; ZEEVAERT, L. Investigating word recognition in intercomprehension: Methods and findings. Linguistics, v. 53, n. 2, p. 314-315, 2015.

MINICURSO – INTERCOMPREENSÃO: Minicurso – Intercompreensão: A chave para as línguas – Aula 1. Vídeo apresentado por Francisco del Olmo. [Curitiba: Parábola Editorial], 2020. Publicado pelo canal Parábola Editorial.

O QUE É INTERCOMPREENSÃO? Vídeo disponibilizado no YouTube pela Coopération Educative France au Brésil.

 

Autora: Larissa Caroline Ferreira
Graduanda de Letras – Português e Alemão e voluntária no Laboratório de Psicolinguística, Línguas Minoritárias e Multilinguismo da Universidade Federal de Pelotas.

Por que estudar pronúncia na aula de língua estrangeira?

Boa pergunta, né? A resposta é muito simples e tem relação com o funcionamento e o uso da língua estrangeira. Eliane Rosa nos responde à pergunta de uma forma acessível.

Falar é uma atividade complexa e dinâmica que precisa ser encarada como algo que os seres humanos fazem, não como algo que possuem. Essa atividade envolve, pelo menos, três facetas: a motora (movimentos dos órgãos fonadores), a perceptual (interpretação e compreensão dos sons pelo aparelho auditivo) e a mental (processamento neural). Além de ser considerada uma atividade cognitiva, ela também pode ser vista como uma atividade sociocultural em função da linguagem ser adquirida e utilizada por meio da interação com outros indivíduos.

A língua é um mecanismo que permite exprimir pensamentos em sons. Isto é, pode-se dizer que a língua é um mecanismo que possibilita emitir uma sequência de sons carregada de uma intenção linguística (ou significado). Por exemplo, quando um bebê olha para sua mãe e diz “mama” o que ele faz é produzir oralmente uma sequência de sons (/m/-/a/-/m/-/a/), enquanto a mãe compreende que ele está se referindo a ela. Isso demonstra que som está ligado a um significado armazenado na mente do falante e do ouvinte. Em virtude disso, verifica-se que o som não pode ser aprendido independentemente do significado.

Já que a comunicação se trata da emissão de uma sequência de sons que carregam uma mensagem a ser transmitida e captada pelo ouvinte, é fundamental estudar pronúncia na aula de língua estrangeira. O estudo dos sons faz parte da aprendizagem da gramática de uma língua. Aprender como articular de forma apropriada os sons da língua-alvo possibilita evitar mal-entendidos durante a interação comunicativa com falantes nativos e não nativos dessa língua. Por exemplo, em inglês, se o falante-aprendiz X pretende dizer a frase “The boy is thinking at the beach” (O menino está pensando na praia), mas produz o som “TH” do verbo “thinking” como se fosse um “S”, o que o falante-aprendiz Y vai compreender é a seguinte mensagem: “The boy is sinking at the beach” (O menino está afundando na praia). Em outros termos, esse ouvinte irá pensar que está ocorrendo uma tragédia com um menino em razão de ter entendido que ele está afundando na praia.  No vídeo We are sinking, podemos ver um exemplo de como a pronúncia inadequada (também do do th) pode trazer consequências negativas para a nossa interação social, inclusive provocar acidentes. Diante disso, percebe-se que a produção imprecisa de um som pode provocar uma interpretação falha da mensagem transmitida.

Nesse sentido, os exercícios de pronúncia na aula de língua estrangeira podem trazer contribuições positivas para uma interação comunicativa eficiente e compreensível.

 

Autora: Eliane Nowinski da Rosa
Doutoranda em Linguística Aplicada (UNISINOS), mestre em Fonologia e Morfologia (UFRGS), especialista em Ensino-aprendizagem da Língua Inglesa (Uniritter), graduada em Letras-Licenciatura Plena em Língua Inglesa (ULBRA). Atua como professora de língua inglesa há 17 anos.