Às vezes, as pessoas querem saber como é viver em uma família surda; é uma pergunta curiosa para todos. Para nós, famílias surdas, não vemos grande diferença entre famílias surdas e ouvintes. É claro que cada família é única, mas a vida das famílias surdas é normal, assim como a vida de uma família que fala, por exemplo, espanhol ou francês em casa. Confira o texto já publicado aqui sobre família surda:
Não há muita diferença entre uma família ouvinte e uma família surda em termos de crescer em um ambiente com pleno acesso à língua e cultura. Nós, famílias surdas, nos comunicamos em língua de sinais e temos orgulho de nossa cultura surda. Somos uma minoria, representando menos de 10% da população mundial.
Muito além do “deixa pra lá”
Uma criança surda de uma família ouvinte fica, muitas vezes, impressionada com o acesso total às conversas durante as refeições em uma família surda. É um ambiente cheio de vida, com conversas animadas, risadas e piadas. Fala-se sobre tudo, desde política até escola. Não existe a famosa frase “depois eu te explico” ou “deixa pra lá”, que muitas crianças surdas de famílias ouvintes escutam regularmente.
Sim, as crianças surdas consideram que ser surdo em uma família surda é uma bênção. Infelizmente, a maioria dos pais ouvintes de crianças surdas não sabe ou não aprende a língua de sinais. Mas uma pequena parcela de pais ouvintes que aprendem Libras proporciona verdadeiros benefícios para seus filhos surdos.
Algumas situações que acontecem nas famílias surdas
- Na casa de uma família surda, sempre tem duas lâmpadas em cada cômodo: uma delas é para iluminar, a outra é para a campainha, que pisca toda vez que alguém toca. Sim, isso significa que a luz de todos os cômodos pisca por toda a casa! Se você vir isso, sabe que é uma casa de surdos.
- Algumas famílias comemoram anualmente o dia da descoberta da surdez, como se fosse um aniversário, mas para celebrar o dia em que receberam o diagnóstico. Isso faz parte do orgulho surdo.
- Quando uma criança surda, que cresceu em uma família surda e usa a língua de sinais, visita algum vizinho ouvinte, ela pode ficar perplexa ao ver todos mexendo os lábios e não sabendo língua de sinais. Ela coça a cabeça e pensa: “O que é isso?” Então, sua família surda lhe explica que há pessoas que não sabem língua de sinais. Muitas vezes, as famílias surdas pensam que é uma pena que ouvintes não saibam língua de sinais.
- Para chamar a atenção de um familiar surdo, podemos ligar e desligar a luz (se estivermos perto da porta), bater no chão, acenar com a mão, tocar no ombro ou usar um intermediário. Se nenhum desses métodos comuns funcionar, o que é raro, alguém pode jogar algo leve, como uma pequena almofada.
- Em alguns casos, quando um estranho ouvinte percebe que um adulto é surdo, ele se volta para o cônjuge do surdo, apenas para descobrir que o cônjuge também é surdo. Então, ele se volta para o filho e, antes de falar, o pai surdo intervém, dizendo que a criança também é surda. Se houver um irmão, ele faz um gesto, aponta para o ouvido e pergunta: “Surdo também?” A reação pode ser: “Todos vocês são surdos?” Ele ou ela pode pensar que isso é lamentável. Na verdade, a família surda é tão normal quanto – e não menos afortunada – que uma família ouvinte.
- Se adolescentes ouvintes chegam tarde em casa, podem andar na ponta dos pés para seus quartos o mais silenciosamente possível, certo? Da mesma forma, jovens surdos entram silenciosamente na casa dos pais surdos e mantêm tudo o mais escuro possível, sem acender nenhuma luz.
Somos uma família surda, somos humanos como todo mundo e temos histórias! A surdez realmente não faz muita diferença além da língua e da cultura. Se quiserem conhecer mais sobre famílias surdas, no YouTube, há uma entrevista gravada superinteressante sobre quatro famílias surdas:
Além disso, no YouTube há uma live sobre Literatura Doda com as famílias surdas:
Referências
COLÉGIO RIO BRANCO. Compartilhando experiências pais surdos e filhos surdos. Como acontece a estimulação? Acesso em: 26 set. 2024.
DAIGLE, Matt. Deaf Bourne Identity. Acesso em: 26 set. 2024.
LAPIAK, Jolanta. DODA / Deaf children of Deaf parents / Deaf family. Acesso em: 26 set. 2024.
MARTINS, Fiorella Souto Rosa Cantarelli. O diário da Fiorella. Acesso em: 26 set. 2024.
Autora: Francielle Cantarelli Martins. Professora de Libras da Universidade Federal de Pelotas.