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Por que não faz sentido separar as línguas na escola bilíngue?

Uma das principais dificuldades ao implementar um projeto bilíngue em uma escola, conforme os pesquisadores Helena Kieling e Rafael Vetromille-Castro (2022), é a própria barreira com a língua adicional, que até então ocupava uma aula semanal. Nessas aulas, não havia qualquer envolvimento ou integração com outros componentes curriculares e professores da língua materna ou de outras línguas.

Na escola bilíngue, é importante adotar uma visão heteroglóssica de língua, que significa reconhecer que, no dia a dia, os estudantes fazem conexões e mobilizam todo o seu repertório linguístico (todo o conhecimento das línguas que os estudantes possuem e utilizam) para entender o mundo, se comunicarem e participarem das situações sociais.

Fonte: Criação pela autora no ChatGPT

A pesquisadora Ofelia García (2009) defende que, em vez de tratar as línguas como caixas separadas, a escola precisa reconhecer que os alunos usam tudo o que sabem de linguagem de maneira integrada. Para ela, não faz sentido imaginar que a criança se torne duas pessoas monolíngues, uma para cada língua. Um exemplo dessa exigência é quando, em uma situação de sala de aula, uma professora diz: “Ah, agora não pode usar o inglês/alemão porque eu não entendo!” Separar as línguas rigidamente não corresponde à forma real como as crianças aprendem e se expressam.

Em projetos de educação bilíngue, é essencial que a escola compreenda que os estudantes trazem experiências linguísticas diversas; assim, cria-se um ambiente mais acolhedor e propício à aprendizagem. A criança não precisa “esquecer” ou “desligar” uma língua para aprender outra; ao contrário, ela pode usar tudo o que já sabe para compreender, se expressar e avançar.

Essa perspectiva torna o currículo mais significativo. Professores podem e devem incentivar os alunos a fazerem conexões entre as línguas, a compararem formas de dizer, a explorarem sentidos e a usarem a comunicação de maneira natural, como acontece fora da escola. Quando valorizamos essa pluralidade, a aprendizagem se torna mais autêntica, e os estudantes desenvolvem maior confiança e competência em ambas as línguas.

Referências
GARCÍA, Ofelia. Bilingual education in the 21st century: A global perspective. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009.
KIELING, Helena dos Santos; VETROMILLE-CASTRO, Rafael. Desafios da Implementação de um Currículo Bilíngue: reflexões sobre a construção desse novo espaço do inglês nas escolas. Revista Papéis, Campo Grande, v. 26, n. 51, p. 39-58, 2022.

Autora: Helena dos Santos Kieling, Doutora em Letras – Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Pelotas e Especialista em Educação Bilíngue e Cognição (IENH).