Como o conflito com o Irã expõe a vulnerabilidade energética da África por Giancarlo Gouveia

Ao atingir o Golfo Pérsico, coração energético do sistema internacional, o conflito envolvendo o Irã projeta seus efeitos de forma assimétrica sobre o mundo, particularmente sobre a África.

Mais do que um choque conjuntural, trata-se de um teste estrutural à vulnerabilidade energética do continente, cuja dependência de derivados de petróleo revela uma inserção periférica e sensível às turbulências geopolíticas globais. O elemento central dessa crise reside na disrupção do Estreito de Ormuz, responsável por cerca de um quinto do fluxo global de petróleo e gás; a instabilidade na região reduziu drasticamente o transporte marítimo de derivados do petróleo, como combustíveis, e elevou os preços internacionais, com o barril ultrapassando a marca de US$ 120 em março de 2026.

Para a África, o impacto é imediato e profundo. Embora alguns países sejam produtores de petróleo, o continente, como um todo, permanece estruturalmente dependente da importação de combustíveis refinados, o que aumentou exponencialmente os índices de importação desde 2010; das importações no continente, 75% vêm do Oriente Médio (Energy Connects, 2026).

Essa característica o torna altamente exposto a choques externos na oferta e no preço. Com a guerra restringindo os fluxos energéticos e elevando os custos logísticos, diversos países africanos passaram a operar com estoques críticos de combustível, enquanto governos buscam fornecedores alternativos em um mercado global tensionado. Essa dependência não é apenas energética, mas também produtiva.

O aumento dos preços do petróleo encarece diretamente o transporte e, consequentemente, eleva o custo dos alimentos e bens essenciais, o que afeta populações sensíveis no centro do continente. Soma-se a isso a dependência de fertilizantes importados do Golfo, cuja oferta também foi afetada pela guerra, criando um efeito em cascata sobre a segurança alimentar.

A consequência macroeconômica é igualmente significativa. A elevação dos preços do petróleo, aliada à fuga de capitais para ativos considerados seguros, pressiona as moedas africanas e amplia os déficits comerciais. Países como Quênia e Gana já enfrentam inflação crescente e deterioração do poder de compra, em um padrão que remete às consequências da guerra na Ucrânia em 2022. 

Ao mesmo tempo, bancos centrais africanos enfrentam o dilema de conter a inflação e estimular economias ainda fragilizadas pelas crises anteriores. Paradoxalmente, alguns exportadores africanos de petróleo, como Nigéria e Angola, poderiam obter ganhos conjunturais com a alta dos preços, no entanto, esses benefícios são limitados pela própria estrutura econômica desses países, que também dependem da importação de combustíveis refinados, estima-se que apenas 25% do petróleo extraído na África é refinado no continente (Anadolu Agency, 2026). Assim, mesmo os potenciais “ganhadores” da crise permanecem presos a um modelo de dependência externa que restringe sua autonomia energética.

Nesse contexto, a guerra no Irã evidencia uma contradição estrutural do sistema internacional: regiões periféricas, como a África, são desproporcionalmente afetadas pelas instabilidades dos mercados energéticos globais. Ainda, a intensificação da crise energética reacende debates sobre a diversificação da matriz energética, os investimentos no refino doméstico e a transição para fontes renováveis no continente, movimento que vem ganhando força com investimentos externos da China e da Rússia. Sem essas transformações, o continente continuará exposto a choques exógenos, reproduzindo ciclos de vulnerabilidade que comprometem seu desenvolvimento.

Em última instância, a guerra no Irã não apenas encarece o combustível na África, mas também evidencia, com clareza inédita, os limites de um modelo energético dependente e a urgência de uma reconfiguração estratégica. A questão que se impõe não é apenas como reagir à crise atual, mas também se o continente será capaz de convertê-la em um catalisador de autonomia e resiliência no sistema internacional.

Referências:

BLOOMBERG. Iran war triggers hunt to secure new fuel supplies in Africa. 2026. Disponível em: https://www.energyconnects.com/news/oil/2026/march/iran-war-triggers-hunt-to-secure-new-fuel-supplies-in-africa/. Acesso em: 25 mar. 2026.

REUTERS. Charting the widening impact of Iran crisis on energy markets. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/markets/commodities/charting-widening-impact-iran-crisis-energy-markets-2026-03-05/. Acesso em: 25 mar. 2026.

AP NEWS. Iran war sends shockwaves through African fuel market and economies. 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/7decf5392c32718ae05a3d9d0b3906c0. Acesso em: 25 mar. 2026.

AEC WEEK. Africa & the Iran War: What the Oil Price Shock Means. 2026. Disponível em: https://aecweek.com/africa-the-iran-war-what-the-oil-price-shock-and-shipping-disruptions-mean-for-economies/. Acesso em: 25 mar. 2026.

ENERGY CONNECTS. Iran war triggers hunt to secure new fuel supplies in Africa. 2026. Disponível em: https://www.energyconnects.com/news/oil/2026/march/iran-war-triggers-hunt-to-secure-new-fuel-supplies-in-africa/. Acesso em: 26 mar. 2026.

AL JAZEERA. Iran, Nigeria and Africa’s oil dependency. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/video/africa-now/2026/3/25/iran-nigeria-and-africas-oil-dependency. Acesso em: 25 mar. 2026.

ANADOLU AGENCY. Threat to sovereign stability: Iran war spillover felt across Africa. 2026. Disponível em: https://www.aa.com.tr/en/africa/-threat-to-sovereign-stability-iran-war-spillover-felt-across-africa/3877388. Acesso em: 25 mar. 2026.

Giancarlo Gouveia é bacharel em Relações Internacionais pela UFPEL e pesquisador do LabGRIMA.

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