O projeto “Power of Siberia 2” se tornou um dos principais símbolos da aproximação estratégica entre Rússia e China no contexto posterior ao início da guerra na Ucrânia.
O programa planeja conectar os campos de gás russos da Sibéria ao território chinês através da Mongólia, sendo considerado essencial para a estratégia econômica do Kremlin de redirecionar as exportações energéticas anteriormente destinadas à Europa para o mercado asiático.
Desde a imposição das sanções ocidentais contra Moscou, especialmente no setor energético, a Rússia passou a enfrentar dificuldades para manter o mesmo nível de exportações de gás natural ao mercado europeu, um de seus principais parceiros econômicos. Nesse cenário, a consolidação do Power of Siberia 2 passou a ser tratada pelo governo russo como prioridade estratégica tanto econômica quanto geopolítica.
Portanto, durante a recente visita de Vladimir Putin a Pequim, havia grande expectativa internacional de que os dois governos anunciassem finalmente a assinatura definitiva do acordo energético. Entretanto, apesar das declarações públicas de cooperação e fortalecimento da parceria bilateral, o acordo não foi concluído formalmente. Segundo veículos ocidentais, as negociações continuam travadas principalmente por divergências relacionadas ao preço do gás, às condições comerciais e aos termos de fornecimento de longo prazo.
A ausência de um acordo definitivo revelou um elemento central das atuais relações sino-russas: a crescente assimetria entre os dois países. Embora Moscou apresente publicamente a parceria com Pequim como uma relação de cooperação estratégica entre potências equivalentes, a realidade econômica demonstra uma dependência cada vez maior da Rússia em relação ao mercado chinês. Enquanto o Kremlin necessita encontrar novos compradores para substituir a perda parcial do mercado europeu, a China possui uma maior flexibilidade energética e acesso a diversos fornecedores internacionais.
Pequim tem utilizado essa posição favorável para negociar condições mais vantajosas no projeto, tentando evitar se comprometer rapidamente com os termos defendidos por Moscou. A China continua importando energia de países da Ásia Central, do Catar e do mercado global de gás natural liquefeito (LNG), reduzindo significativamente sua dependência da infraestrutura energética russa. Dessa forma, Pequim consegue manter forte poder de barganha enquanto a Rússia se encontra economicamente pressionada pelas consequências da guerra e das sanções ocidentais.
A própria cobertura da mídia russa demonstrou preocupação indireta com o tema. O The Moscow Times destacou que o projeto continua sendo considerado prioridade estratégica para Moscou e enfatizou os impactos econômicos negativos que um eventual fracasso do acordo poderia gerar para a estatal energética Gazprom. O veículo também ressaltou que autoridades russas passaram a defender o projeto como alternativa mais segura diante das tensões geopolíticas globais e da instabilidade das rotas marítimas internacionais.
Ao mesmo tempo, a postura chinesa permanece extremamente cautelosa. Pequim evitou transformar o Power of Siberia 2 no principal tema político da visita de Putin, concentrando sua comunicação oficial em conceitos mais amplos, como multipolaridade, estabilidade internacional e cooperação estratégica. A ausência de anúncios concretos sobre cronograma, valores ou assinatura definitiva demonstrou que o governo chinês prefere manter flexibilidade nas negociações e preservar sua vantagem estratégica diante da crescente dependência russa.
Nesse contexto, o impasse envolvendo o Power of Siberia 2 ultrapassa a dimensão puramente energética e revela transformações mais profundas no equilíbrio de poder entre Rússia e China. Embora ambos os países compartilhem interesses geopolíticos comuns na oposição à influência dos Estados Unidos e da OTAN, a atual conjuntura indica que Moscou se encontra cada vez mais dependente do apoio econômico chinês. Assim, a parceria sino-russa permanece estrategicamente importante para ambos os lados, porém cada vez mais favorável aos interesses de Pequim.
Referências:
REUTERS. Kremlin says understanding reached on Power of Siberia 2 but no final deal signed. Reuters, 20 maio 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/energy/kremlin-says-understanding-reached-power-siberia-2-gas-link-china-no-details-yet-2026-05-20/. Acesso em: 21 maio 2026.
REUTERS. Xi and Putin meet in Beijing amid ongoing Power of Siberia 2 negotiations. Reuters, 19 maio 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/china/xi-putin-meet-beijing-tea-diplomacy-after-trump-visit-2026-05-19/. Acesso em: 21 maio 2026.
THE WASHINGTON POST. As Putin visits China, distrust simmers beneath an anti-U.S. alliance. Washington, 19 maio 2026. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/world/2026/05/19/putin-visits-beijing-amid-growing-imbalance-russia-china-relations/. Acesso em: 21 maio 2026.
THE MOSCOW TIMES. Has the Iran war sealed the fate of Power of Siberia 2? Moscow, 13 maio 2026. Disponível em: https://www.themoscowtimes.com/2026/05/13/has-the-iran-war-sealed-the-fate-of-power-of-siberia-2-a92672. Acesso em: 21 maio 2026.
*Luisa Nunes é pesquisadora do LabGRIMA.
