Após meses de negociações entre os Estados Unidos e o Irã sobre o programa nuclear e o enriquecimento de urânio — que pareciam positivas para ambas as partes —, um ataque inesperado americano, em 28 de fevereiro de 2026, desestabilizou o regime iraniano.
O país, contudo, revidou rapidamente contra bases militares dos EUA situadas no Oriente Médio. O ataque inicial ao Irã resultou na morte do Líder Supremo, Ali Khamenei, e desencadeou uma onda de ofensivas militares envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel. Na ocasião, o presidente Donald Trump afirmou que os bombardeios continuariam ininterruptamente até que a paz fosse atingida em toda a região, alegando que a capacidade militar e de coordenação de Teerã estaria severamente prejudicada (CNN, 2026). Entretanto, após cerca de um mês de hostilidades, analistas afirmam que o oposto se provou verdadeiro.
Além de contra-atacar Israel continuamente, superando o sistema de defesa “Domo de Ferro” em Tel Aviv e prejudicando sua credibilidade, o Irã atingiu Dimona, cidade ligada ao programa nuclear israelense. Tal ofensiva foi orquestrada em resposta ao ataque de Israel contra a infraestrutura energética iraniana de Bushehr. A ação demonstrou que o país responderia à altura e que locais estratégicos adversários estavam ao seu alcance, sugerindo que o regime iraniano e sua capacidade militar estão tudo, menos desestabilizados (BBC News, 2026).
Assim, a estratégia do presidente americano precisou ser recalculada. Trump deu diversas declarações à mídia de que o governo iraniano estaria “ansioso” para negociar; porém, analisando os recentes acontecimentos, levanta-se a questão: qual motivo o Irã teria para confiar no governo americano? Visto que, nas últimas rodadas de negociação que pareciam levar a um acordo, o país sofreu ataques imprevistos — tanto em junho de 2025 quanto agora, em 2026 —, geraram-se desconfianças legítimas em relação a qualquer diálogo diplomático com os Estados Unidos e sua credibilidade.
Não obstante, o regime iraniano tem afetado a economia internacional ao interditar o acesso à navegação no Estreito de Ormuz, declarando que qualquer embarcação que tente furar o bloqueio será atacada (BBC News, 2026). O Estreito de Ormuz é um ponto estratégico por onde passa 1/5 do petróleo mundial, e seu fechamento causou um aumento considerável nos preços da commodity, gerando pressão sobre Washington devido à insatisfação de aliados.
Logo, os fatores citados contradizem a afirmação inicial de Washington de que a coordenação e o poderio militar de Teerã estariam severamente prejudicados, visto que as recentes movimentações do país apresentam uma lógica estratégica clara. Além disso, a extensão do conflito afeta nações aliadas, gerando uma insatisfação contínua, especialmente em relação aos Estados Unidos — responsáveis por iniciar os ataques que, no momento, não têm perspectiva de encerramento, o que mina os argumentos de Trump.
Referências
“Por que as opções dos EUA e do Irã para encerrarem a guerra diminuem conforme o tempo passa.” BBC News. 24 de março de 2026. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1krnd03pdvo> . Acesso em: 25 mar. 2026.
“Saiba os motivos que levaram os EUA e Israel a atacar o Irã ” CNN Brasil. 01 de março de 2026. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/saiba-os-motivos-que-levaram-os-eua-e-israel-a-atacar-o-ira/>. Acesso em 25 mar. 2026
“Trump diz que Irã ‘tem medo’ de admitir que está negociando; Teerã volta a negar conversas com EUA.” BBC News. 25 de março de 2026. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/crk10llg5r3o>. Acesso em: 26 mar. 2026
*Maria Eduarda Motta é pesquisadora de Oriente Médio pelo LabGRIMA.
