“entre a linha da vista” nasce do encontro entre presença e fuga, entre aquilo que se revela e aquilo que ainda insiste em escapar. A exposição reúne trabalhos que atravessam percepção, memória e experiência, habitando esse espaço instável do olhar, onde ver deixa de ser certeza e se transforma em permanência, atenção e aproximação.
🗓️ Abertura: 14/05 às 17h
📍 Galeria A Sala / UFPel
🗓️ Visitação: 14/05 — 30/05
Texto curatorial:
“(…) foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!”. A frase que encerra A Função da Arte/1, de Eduardo Galeano, não descreve apenas o encontro de uma criança com o mar; ela enuncia uma experiência primordial: a de se colocar diante daquilo que nos excede. Frente ao incomensurável, ver não constitui um gesto imediato, mas um aprendizado. Antes de reconhecer ou nomear, é preciso sustentar a presença do que emerge diante de nós. É nesse limiar, entre aquilo que se revela e aquilo que ainda resiste à compreensão, que a arte pode inscrever-se, não como explicação, mas como espaço de mediação.
Ver não se dá sem resistência. O que irrompe diante dos olhos não se oferece em plenitude; há no visível uma espessura que retém, desloca e adia. Diante do mundo, o olhar é convocado à demora. Perceber não consiste em reconhecer de imediato, mas em atravessar um campo tecido por atenção, permanência e aproximação. Entre presença e desaparecimento, algo persiste em suspensão, preservando uma zona de indeterminação em que o sentido jamais se encerra por completo. A superfície deixa então de operar como evidência para tornar-se passagem: uma fronteira instável entre aquilo que se manifesta e aquilo que ainda escapa. Nesse intervalo, o sentido não se fixa como certeza, mas se constitui continuamente na relação entre tempo, memória e experiência.
Diante do que excede a medida, seja pela vastidão, seja pela quase imperceptibilidade, a vista, ancorada em seu “nível do mar”, emerge como um horizonte sensível e provisório, a partir do qual distâncias, aproximações e presenças se tornam mais legíveis. Não se trata de alcançar uma imagem definitiva do mundo, mas de habitar o intervalo instável entre aquilo que se revela e aquilo que permanece em fuga. Longe de estabilizar o real, esse campo do visível oferece uma orientação frágil, porém significativa, diante do que continuamente se desloca, se desfaz e reaparece. Habitar essa linha tênue da percepção é reconhecer que ver dificilmente equivale a possuir plenamente o mundo, mas a permanecer aberto à sua instabilidade, à incompletude e às variações contínuas do visível.
Artistas:
Allende Decásperi
Aryane Barbado
Ícaro Silveira
Mainô Caetano
Patrezi Silva
Curadoria: Érica Pilger e Patrezi Silva
Expografia: Ícaro Silveira e Isabella Verissimo
Design: Allende Perini e Ryan Ribeiro
Colaboradores: Pedro Ivo, Marcelo Tadielo e Daniela Assis
