Resenha: Bacurau – Se for, vá na paz

Por Roger Vilela

“Bacurau”, dirigido pelos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, chamou a atenção do mundo e do Brasil ao vencer o Prêmio do Júri do Festival de Cannes. Foi a segundo vez que uma produção brasileira foi premiada na competição principal do festival. Em 1962, “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, conquistou a honra máxima, a Palma de Ouro.

O filme é um western moderno, ambientado no sertão nordestino em um futuro distópico e não muito distante. O personagem principal não é nenhum homem ou mulher, mas sim um pequeno povoado, de praticamente uma rua e de poucas casas, que dá nome ao longa. O povo que lá vive é resistente, mesmo sofrendo com a falta de água e pelo abandono das autoridades. Uma realidade vivida por muitos vilarejos e pequenas cidades Brasil afora.

Conhecemos a pacata Bacurau quando seu povo se despede de Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), mãe do professor Plínio (Wilson Rabelo) e avó de Teresa (Bárbara Colen), que volta ao povoado devido ao falecimento da matriarca da família. Após o enterro, coisas estranhas começam a acontecer no pequeno arraial. Forasteiros aparecem, pessoas são assassinadas, o povoado não é mais encontrado nos mapas, a comunicação é interrompida, o caminhão-pipa – única fonte de água – retorna crivado de balas.

Estão sendo atacados? Quem estaria por trás de tudo isso? Os forasteiros? O prefeito e seus capangas? Com o desenrolar da trama vamos descobrindo o que realmente está acontecendo. No fim, também entendemos o porquê da frase escrita na placa que indica o caminho para o povoado: “Se for, vá na paz”.

Assim como “O Som ao Redor” e “Aquarius”, filmes de Kleber Mendonça, “Bacurau” é repleto de críticas sociais. Tony Júnior, o prefeito que busca a reeleição, representa a classe política desonesta, que só demonstra algum tipo de preocupação com o povo na época de eleição e que é capaz de aceitar qualquer acordo que a beneficie. Em alguns momentos sutis, como uma breve imagem na TV, o longa denuncia o caminho que o país possa estar seguindo, com o crescente autoritarismo do governo. A polarização, seja política, ideológica ou social, também não é esquecida pelos diretores. Bacurau é uma comunidade, que só consegue vencer quem a ataca, unida.

“Bacurau” não é maniqueísta. Os personagens não são simplesmente bons ou ruins, assim como todo ser humano. No vilarejo, não há paladinos, mas sim pessoas dispostas a fazer de tudo para proteger o seu povo e sobreviver. Até entre os invasores, liderados Michael (interpretado pelo alemão Udo Kier), alguns apresentam um cínico limite moral, mas que não os impede de continuar a “missão”. E quando eles continuam, descobrem que as pessoas de Bacurau não são “animais mansos prontos para o abate” como foi prometido. Elas deveriam ter visitado o museu local antes de tudo, assim, teriam evitado cutucar a onça com vara curta. E quando as coisas ganham um desfecho, é impossível não vibrar.

Uma das coisas marcantes no longa, além da ação e dos personagens, é a trilha sonora. Gal Costa nos hipnotiza logo na abertura com “Não Identificado”, e Geraldo Vandré nos emociona com “Réquiem para Matraga” no encerramento do filme. A trilha originária composta pelos irmãos Tomaz e Mateus Alves, que vai do clássico ao experimental, transmite as emoções dos personagens, tanto do vilarejo quanto dos invasores.  

Com atuais ataques ao cinema nacional promovidos pelas autoridades, em seus créditos, o filme acentua a importância da indústria cinematográfica brasileira, que além representar a nossa cultura e apresentá-la ao mundo, também gera dinheiro. As gravações de “Bacurau” geraram mais de 800 empregos diretos e indiretos. A economia dos municípios de Acari e Parelhas, no interior do Rio Grande do Norte, que foram usados como locações para as filmagens foi movimentada. Muitos de seus moradores trabalharam como figurantes, uma experiência que nunca esquecerão. Até o momento em que esse texto foi escrito, mais de 300 mil pessoas assistiram ao longa só no Brasil. No dia 25, a França, agora com seu circuito comercial, será o primeiro mercado estrangeiro a exibir o filme.

“Bacurau” é um filme intenso, violento, com identidade própria, com personagens únicos e que não tem receio de ser político. A compreensão dele e de suas mensagens dependerá da realidade de quem o assiste. Se for assisti-lo, vá na paz!

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