CLT ou PJ? Mercado de trabalho está em mudança

Trabalhadores priorizam flexibilidade e equilíbrio diante das novas jornadas

Economia digital e trabalho por projetos impulsionam mudanças no mercado profissional. Divulgação/Imagine/ Em Pauta

 

Carolina Mattos / Em Pauta 

A forma de trabalhar tem mudado no Brasil. Cada vez mais profissionais estão deixando o regime de carteira assinada para atuar como Pessoa Jurídica (PJ), em busca de maior flexibilidade, autonomia e possibilidade de ampliar os ganhos. Dados recentes mostram que o número de vagas para contratação via PJ cresceu nos primeiros meses de 2026, refletindo uma nova dinâmica nas relações de trabalho.

Um levantamento da plataforma de empregos Catho apontou aumento de 19% nas vagas para profissionais PJ no primeiro trimestre deste ano. O número de oportunidades passou de 11.531 para 13.751 em comparação com o mesmo período de 2025. Já as vagas no modelo CLT seguiram estáveis, ainda liderando o mercado de trabalho formal.

A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garante vínculo empregatício e direitos como férias remuneradas, 13º salário, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e contribuição previdenciária. Em contrapartida, o modelo PJ caracteriza uma relação comercial entre empresas, sem benefícios trabalhistas garantidos, mas com maior liberdade de negociação e, muitas vezes, maior rendimento líquido.

Entre estabilidade e flexibilidade, os trabalhadores avaliam diferentes caminhos profissionais. Marcelo Camargo/Agência Brasil/ Em Pauta

 

No regime PJ, o profissional precisa administrar os próprios tributos, aposentadoria, férias e benefícios como plano de saúde. Ainda assim, muitos trabalhadores enxergam vantagens na possibilidade de escolher projetos, negociar valores e atuar para diferentes clientes ao mesmo tempo.

O jornalista Rodrigo de Aguiar, que trabalhou durante 10 anos no modelo CLT, decidiu migrar para o regime PJ justamente em busca de mais liberdade profissional. Segundo ele, a possibilidade de prestar serviços para diferentes segmentos e ter maior autonomia pesou na decisão. Hoje, afirma não se imaginar retornando ao modelo de carteira assinada, embora reconheça que mudanças podem acontecer no futuro.

Em meio às discussões sobre o fim da escala 6×1 e a valorização da saúde mental no ambiente profissional, cresce também o interesse por modelos de trabalho mais flexíveis. Para muitos trabalhadores, atuar como PJ representa a possibilidade de ter maior controle da própria rotina e fugir das jornadas consideradas excessivas.

Para o empresário César Machado, que atua há mais de 20 anos no setor empresarial, tanto o modelo CLT quanto o PJ possuem vantagens e desafios dentro do mercado de trabalho atual. “Hoje eu vejo que tanto o CLT quanto o PJ têm seu espaço dentro das empresas e dependem muito do perfil do profissional e da necessidade da função. O CLT traz mais estabilidade, segurança e continuidade, algo importante para cargos estratégicos e equipes fixas. Já o PJ oferece mais flexibilidade, agilidade na contratação e, muitas vezes, profissionais com experiência diversificada, que atuam focados em resultados”, afirma.

César também observa que o comportamento dos trabalhadores mudou nos últimos anos, especialmente entre os mais jovens. “Percebo que a nova geração busca mais autonomia, flexibilidade e qualidade de vida, principalmente diante das discussões atuais sobre jornadas de trabalho, como a escala 6×1. Isso ajuda a explicar o crescimento do modelo PJ. Mas acredito que o mais importante é existir equilíbrio e uma relação justa para os dois lados”, completa.

A jovem recém-formada em Tecnologia da Informação, Eduarda Brião, conta que não se imagina trabalhando no modelo CLT. Para ela, o regime PJ representa mais liberdade profissional e possibilidades de crescimento.“Eu prefiro ter autonomia sobre a minha rotina e poder escolher os projetos com os quais quero trabalhar. Mesmo sem alguns benefícios da CLT, acredito que o modelo PJ combina mais com o que eu busco para a minha carreira”, afirma.

Jovens lideram movimento de migração do regime CLT para o PJ. Divulgação/ capstone editing/ Em PAut

Para o economista Marcelo Silva, o crescimento das contratações PJ acompanha mudanças estruturais no mercado de trabalho e no comportamento das novas gerações.“O avanço da tecnologia, do trabalho remoto e da economia digital contribuiu para um mercado mais flexível. Ao mesmo tempo em que o modelo PJ pode aumentar a renda e a autonomia de muitos profissionais, ele também exige educação financeira e planejamento, já que não há a proteção trabalhista tradicional da CLT”, explica.

Além do crescimento nas vagas, o aumento no número de CNPJs abertos nos últimos meses também reforça a mudança no comportamento dos trabalhadores. Especialistas apontam que muitos profissionais têm buscado mais flexibilidade nos horários e maior controle sobre a própria carreira.

Outro fator que impulsiona esse movimento é o avanço da economia digital e da cultura freelancer, principalmente em áreas ligadas à tecnologia, comunicação, consultoria e serviços especializados. Nesses setores, a contratação por projeto e a valorização por performance têm se tornado cada vez mais comuns.

A facilidade para abrir um CNPJ e o crescimento de plataformas de contabilidade online também contribuíram para tornar o modelo mais acessível. Com isso, profissionais conseguem formalizar a atuação, emitir notas fiscais e ampliar as possibilidades de negociação no mercado.

Entre as áreas que mais concentram profissionais PJ estão Tecnologia da Informação, Marketing e Vendas, Finanças e Contabilidade, Engenharia e Sustentabilidade, além da Indústria Criativa, que inclui produção audiovisual, fotografia, design e criação de conteúdo.

Apesar das vantagens apontadas por quem escolhe atuar como PJ, especialistas destacam que a decisão depende do perfil e dos objetivos de cada profissional. Enquanto a CLT oferece maior estabilidade e proteção trabalhista, o modelo PJ exige organização financeira e planejamento, mas pode proporcionar mais autonomia e liberdade profissional.

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