Menos de 5% dos professores universitários do Rio Grande do Sul são negros
Aumentar a presença de professores negros para 50%, eleva também as chances de conclusão do ensino médio dos alunos em 1,9%

Desigualdade: apenas 4,5% dos professores do ensino superior brasileiro são negros, pardos ou indígenas
Por Lylian Santos / Em Pauta
O acesso da população negra aos bancos universitários tem crescido nos últimos anos, mas ainda não chegou à sala dos professores. No Rio Grande do Sul, apenas 4,5% dos professores do ensino superior são negros, pardos ou indígenas, segundo o último Censo da Educação Superior, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A baixa representatividade, além de evidenciar desigualdades no acesso à carreira acadêmica, também impacta a trajetória educacional dos estudantes e tem mobilizado universidades e profissionais a buscar estratégias para ampliar a presença negra na docência.
De acordo com estudo da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, realizado pelo economista Pedro Lopes, a falta de representatividade na escola também pode influenciar a curto e longo prazo no futuro dos alunos. O estudo demonstrou que aumentar a presença de professores negros para 50%, eleva também as chances de conclusão do ensino médio dos alunos em 1,9%, de ingresso no ensino superior em 5,2%, e de conclusão deste aos 25 anos, sem interferência no desempenho de alunos brancos.
Echylen Fernandes, autodeclarada negra e estudante de jornalismo, recorda-se de somente uma professora preta nas instituições de ensino que frequentou. “Para mim sempre foi difícil ver, ainda mais que na escola, o lugar que te ensina, não ter uma representatividade de pessoas negras. E agora na faculdade eu achei que isso poderia ser diferente, mas eu vejo que não, não tenho um professor retinto igual a mim. Vejo como é difícil ter um espaço até em um lugar de ensino. Então me pega muito, me choca, eu fico muito triste, mas eu acho que a gente tem que continuar lutando e sempre pautando esse assunto. Isso marcou muito a minha infância e também agora a minha juventude”, reflete a universitária.

Para a estudante é necessário continuar lutando e sempre pautando o assunto da falta de professores negros na universidade
Universidade trabalha para acompanhar demanda
De 56 vagas reservadas para docentes negros na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) disponibilizadas entre 2015 e 2021, apenas 16% foram preenchidas, de acordo com o vice-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Eraldo Pinheiro. “Por meio de reuniões com o Conselho Coordenador de Ensino, Pesquisa e Extensão (COCEP), revimos nossas resoluções e isso fez modificarmos a composição das bancas. Além disso, adotamos critérios compensatórios no qual mulheres, mães e pessoas negras têm em torno de 20% a mais na avaliação dos seus currículos diante dos outros candidatos. Isso fez com que nós atingíssemos 100% das vagas dos próximos editais”, explica.
Para Pinheiro, que enfrentou ataques racistas durante eleição à reitoria, esse movimento realizado pela UFPel, não é apenas para “cumprir cota”. “É porque nós realmente acreditamos que a diversidade vai fazer com que nós tenhamos desempenhos melhores dentro da nossa instituição. Hoje dobramos a quantidade de docentes negros dentro da nossa instituição. Ainda estamos na luta para preencher os 20% das vagas de cotas, mas hoje a gente já está no caminho para que isso aconteça. Nós somos a primeira universidade no Brasil a ter 10% a mais de vagas por iniciativa própria, sem ter que ter algum ajuste de conduta com relação a essa temática, e isso fez com que nós também aumentássemos o nosso quantitativo de pessoas que entram na instituição”, aponta. Após mudança na lei de 20 para 30% em cotas, a UFPel conta com 40% das vagas reservadas para as ações afirmativas.

Vice-reitor da UFPEL, Eraldo Pinheiro afirma que a UFPEL tem 40% de vagas reservadas para ações afirmativas
A universidade também conta com 50% das bolsas de extensão são direcionadas para estudantes negros. Das bolsas de iniciação científica, 100% das bolsas da UFPel são direcionadas para as ações afirmativas. Além de processos seletivos especiais para estudantes indígenas e quilombolas. “Por que eu misturo aqui e falo sobre os estudantes, nesse pacote de ações? Porque esses serão os nossos professores daqui a algum tempo ou daqui a 30/40 anos a gente não precisa mais ter essas reservas de vaga, mas enquanto isso precisamos preparar as pessoas para esse movimento”, explica o vice-reitor.
“Na minha formação eu não tive a possibilidade de ter cotas, isso não existia. Por vezes as pessoas acreditam que só o esforço resolve quando a gente sabe que as coisas não são assim, a gente precisa ter uma oportunidade, a gente precisa que as pessoas que estão nas posições de liderança tenham intenção de envolver as pessoas que estão nessa posição de vulnerabilidade em determinados momentos”, relata Pinheiro.
Em 2025, foi criado a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade da UFPel, sendo uma das primeiras do Rio Grande do Sul e uma das poucas no Brasil. Cláudia Molet, pró-reitora da pasta destaca entre as várias ações, a construção coletiva a partir de estudantes, pessoas técnicas, docentes, movimentos sociais, de cinco grupos de trabalho na frente de combate e prevenção das violências, são elas: o anti capacitismo, anti-racismo, anti-LGBTfobia, anti-violência contra mulheres e anti-etarismo, para a elaboração da política institucional de bem-viver.
Ampliar a presença de pessoas negras dentro da instituição é fundamental, afirma a professora Cláudia Molet
“Ampliar a presença de pessoas negras dentro da instituição é fundamental. Quando estamos falando de formação, falamos de formar profissionais e pessoas cidadãs, de consciência do seu lugar e de seu papel. Quando nós temos docentes negros, trazemos uma série de outros conhecimentos, maneiras de fazer, de saberes, de pontos de vistas que fazem com que a formação de todas as pessoas possa ter outras possibilidades de ser. É muito importante que o corpo docente seja diverso, composto por pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas brancas, pessoas trans, para que façam sentido na formação dos estudantes”, afirma Cláudia.
“Trabalhar aqui tem um grande significado
de legado de mulheres negras fortes na família”
Professora dos Programas de Pós-Graduação Lato Sensu e de Artes Visuais nos cursos Técnicos integrados, Tereza Cristina dos Santos leciona no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) – Campus Pelotas. Autodeclarada negra e criada na periferia, Tereza Cristina sempre estudou em escolas públicas. Muitos dos homens da sua família estudaram na antiga escola técnica e conseguiram ascender na vida. “O que mais marca é a história da minha bisavó, ela era servidora da limpeza do Campus Pelotas, ela muito limpou este chão onde hoje eu ocupo, um cargo de gestão”, diz.
“A gente precisa lutar muito para existir de fato e ser ouvida em vários espaços. Então, essa sou eu, uma mulher de 51 anos, que gosta de música, de arte e de viver em paz, que ainda tem sonhos e questões para resolver. Tento contribuir um pouco também para essa sociedade, uma sociedade mais plural, menos racista, menos machista, menos homofóbica, enfim, menos capacitista, entre outras questões”, expressa Tereza.
A professora relata que muitas vezes foi questionada se tinha feito universidade pública, se sabia o que estava fazendo e às vezes até contestada pelos estudantes pelo fato de uma mulher negra estar à frente da classe. “Sempre ouvi em casa que nunca seria menos que ninguém, que qualquer lugar era para mim e que só através do estudo é que eu ia chegar onde eu queria. Então, esses enfrentamentos são naturais, nunca achei que determinado lugar não era para mim, sempre me desafiei”, conta Tereza.

Tereza Cristina afirma que a política de cotas raciais é inquestionável pois trouxe diversidade para dentro das instituições
Durante a graduação e pós-graduação, Tereza não teve professores negros. “Essa referência é muito importante para a nossa continuidade, para a gente entender que não estamos sozinhos, e eu noto isso pelos meus alunos negros. Atualmente, todos os alunos definiram que, muitas das vezes, eu fui a primeira professora negra que eles tiveram”, narra.
Para a docente, o fortalecimento de cotas raciais é inquestionável pois trouxe diversidade para dentro das instituições. “Não é um benefício, é uma reparação histórica mais do que justa, que pelo menos mostra e faz a sociedade refletir que o nosso ponto de partida foi diferente, que essa população que foi tão invisibilizada e massacrada na nossa sociedade, tenha o direito de ter uma vida digna através da educação. A gente precisa ver que existem outros corpos, mentalidades, formas de existir e pensar. Temos que ver mais pessoas dentro desses espaços e para entender que isso não está reservado a uma parcela da população”, conclui.
FURG aposta em ações afirmativas, mas reconhece desafios na docência
Na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), a baixa representatividade de pessoas negras na docência também é reconhecida como um desafio institucional. De acordo com Elina Oliveira, coordenadora da Comissão de Assuntos Afro-brasileiros da Secretaria de Ações Afirmativas, Inclusão e Diversidades (SECAID), a universidade tem buscado articular medidas para ampliar a presença de docentes negros, mas admite que ainda há um longo caminho a percorrer.
Atualmente, a instituição trabalha na atualização de dados sobre o perfil étnico-racial de seus servidores. A proposta é realizar, ainda em 2026, um censo interno que permita mapear com mais precisão a composição do corpo docente e, a partir disso, orientar políticas mais efetivas.
Entre as iniciativas já em vigor, está a política de ações afirmativas, que prevê reserva de vagas para pessoas negras, indígenas, quilombolas e outros grupos em processos seletivos, além de ações voltadas à permanência estudantil e formação continuada. A aplicação da legislação que garante cotas em concursos públicos também é apontada como um avanço.
Apesar disso, a pasta avalia que apenas a existência das leis não tem sido suficiente para alterar significativamente o cenário. “A lei por si só não tem conseguido fazer com que se alcancem os objetivos por ela pretendidos. Existem estudos como os do Observatório das políticas afirmativas raciais da Univasf (OPARÁ) e um estudo realizado por duas servidoras da FURG que demonstram que apenas a letra da lei, quando aplicada, não consegue alcançar os resultados necessários para a promoção de uma maior representatividade docente, e sugerem uma série de ações que podem ser implementadas com a finalidade de melhoria dos resultados da política”, diz Elina.

Estudantes negros frequentemente enfrentam desigualdades que vão desde o acesso à educação até a permanência na universidade, o que reduz as chances de chegarem à carreira docente.
Outro ponto destacado é o impacto do racismo estrutural ao longo da trajetória acadêmica. Segundo a secretaria, estudantes negros frequentemente enfrentam desigualdades que vão desde o acesso à educação até a permanência na universidade, o que reduz as chances de chegarem à carreira docente.
Para a instituição, ampliar a presença de professores negros não é apenas uma questão de inclusão, mas também de qualidade acadêmica. A diversidade no corpo docente contribui para a construção de diferentes perspectivas e fortalece a identificação dos estudantes com o ambiente universitário.


