Margaridas-de-praia revelam espécie ameaçada e levantam debate sobre conservação no litoral de Pelotas
A presença da Grindelia atlântica, espécie criticamente ameaçada de extinção, expõe os impactos da urbanização e das mudanças ambientais sobre as dunas e a vegetação costeira do Laranjal.
Por Lidiane Lopes e Emilly Alves / Especial Em Pauta
A presença de margaridas nas praias de Pelotas tem chamado a atenção de moradores e pesquisadores. A vegetação aparece principalmente na faixa de areia e nas áreas próximas às dunas, alterando a paisagem e levantando dúvidas sobre seus impactos no ecossistema costeiro. Parte das plantas é identificada como Grindelia atlântica, espécie nativa do litoral gaúcho e classificada como criticamente ameaçada de extinção em estudos recentes com participação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e Embrapa Clima Temperado. Ao mesmo tempo, especialistas alertam que a expansão de determinadas espécies pode estar ligada a alterações ambientais, ocupação humana e mudanças na dinâmica das dunas da região de Pelotas.

Margarida-de-praia (Grindelia atlântica) na faixa de areia do Laranjal, espécie ameaçada de extinção. Foto: Fernando Fernandes / Especial Em Pauta
Pesquisadores explicam que a vegetação costeira tem papel na fixação da areia e na estabilidade das dunas. Alterações no solo, circulação de veículos, pisoteio e intervenções urbanas podem modificar esse equilíbrio. Moradores do Laranjal relatam que a presença das margaridas aumentou nos últimos anos. Alguns veem a planta como parte da paisagem; outros questionam se há impacto na vegetação nativa ou na circulação pela praia.A Embrapa contribui nas pesquisas sobre margaridas-de-praia ao confirmar a ocorrência de espécies raras de Grindelia no litoral sul do RS, avaliando riscos de desaparecimento ligados à urbanização e fornecer base científica para universidades e órgãos ambientais. Seus estudos envolvem taxonomia, comparação com registros históricos e análises de herbários e coletas de campo. A unidade Embrapa Clima Temperado, em Pelotas, também apoia levantamentos ecológicos de restingas e campos litorâneos, orientando pesquisas acadêmicas. Além disso, mantém coleções e bancos de dados da flora regional, permitindo comparar populações ao longo do tempo e embasar ações de conservação.
Segundo o pesquisador da Embrapa, Gustavo Heiden, os estudos sobre a espécie começaram ainda em 1967, quando exemplares da planta foram coletados e depositados em herbários científicos. No entanto, apenas em 2010 foi confirmado que se tratava de uma nova espécie para a ciência: a Grindelia atlantica.
Desde então, novas pesquisas passaram a mapear a ocorrência da planta ao longo do litoral sul do Rio Grande do Sul. De acordo com Heiden, a expansão das atividades humanas e as mudanças ambientais reduziram significativamente as áreas naturais da espécie.
“Atualmente, os principais remanescentes da Grindelia atlantica estão concentrados entre o Laranjal, em Pelotas, e a Barra Falsa, em Rio Grande”, explica o pesquisador.
A pesquisa também resultou na classificação da margarida-da-praia como espécie “criticamente ameaçada”, categoria considerada o estágio mais alto de risco de extinção. Para o pesquisador, a situação exige medidas urgentes de preservação por parte do poder público, incluindo proteção das áreas naturais e conservação em bancos genéticos.
Além da ameaça ambiental, os pesquisadores enfrentam dificuldades no acesso a dados sobre a vegetação costeira. Segundo Heiden, grande parte das áreas nativas foi modificada antes mesmo de receber investigação científica adequada. O pesquisador destaca ainda que a produção científica tem papel fundamental na qualificação do debate público sobre manejo costeiro e preservação das dunas. Entre as ações apontadas estão o monitoramento das populações da espécie, o mapeamento das áreas remanescentes e a divulgação científica. Heiden também alerta para os impactos provocados pela remoção da vegetação nativa nas áreas de praia. Segundo ele, a margarida-da-praia auxilia na estabilização das dunas e na proteção da faixa costeira contra erosões.
As ações de manejo em áreas de restinga e dunas dependem de estudos técnicos e seguem critérios previstos na legislação ambiental brasileira. Essas áreas são consideradas Áreas de Preservação Permanente (APPs), e intervenções só podem ocorrer em casos específicos, mediante autorização ambiental e apresentação de estudos técnicos. Órgãos como IBAMA e FEPAM podem exigir licenciamento e medidas compensatórias. Em áreas de conservação, também se aplicam as regras do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
O biólogo Fernando Fernandes, pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), afirmou que a espécie Grindelia atlântica, conhecida como margarida-de-praia, é nativa do litoral sul do Rio Grande do Sul e está restrita a poucas áreas com ocorrência confirmada em Pelotas, Rio Grande e Jaguarão. A declaração foi feita em entrevista sobre a pesquisa iniciada na graduação e atualmente desenvolvida no doutorado, que avalia o estado de conservação da planta, seus impactos ambientais e estratégias de preservação. Segundo o pesquisador, hoje existem pouco mais de 600 indivíduos no planeta, com a maior concentração no Laranjal, em Pelotas.

Margarida-de-praia (Grindelia atlântica) na faixa de areia do Laranjal, espécie ameaçada de extinção. Reprodução/Instagram: Fernando Fernandes / Especial Em Pauta
De acordo com Fernando Fernandes, a espécie ocorre na praia do Laranjal, do Pontal da Barra até a Colônia Z3, também na Barra Falsa, em Rio Grande, e em paleodunas às margens da estrada rural em Jaguarão. Registros históricos indicam presença anterior em Tapes e Tramandaí, mas buscas recentes não localizaram mais essas populações. A pesquisa realizou levantamentos de campo nas três cidades para confirmar as ocorrências atuais. A espécie foi descrita cientificamente em 2010 e passou a ser estudada de forma contínua a partir de 2017, quando o pesquisador identificou seu risco de extinção durante levantamento florístico da família Asteraceae no Pontal da Barra.
O estudo aponta que a planta sofreu forte impacto com eventos recentes de inundação, especialmente em 2023 e 2024, que eliminaram indivíduos em diversas áreas. Parte das populações voltou a surgir a partir de banco de sementes existente no solo. No entanto, o pesquisador afirma que não há estudos suficientes para medir a capacidade de regeneração desse banco diante de eventos cada vez mais frequentes. Além disso, espécies invasoras, como capim-elefante e outras exóticas, avançaram após as enchentes e competem diretamente com a vegetação nativa.
A pesquisa também relaciona a redução da espécie à urbanização da faixa de areia, à construção de estradas e à pressão imobiliária no Laranjal e no Pontal da Barra. Segundo o pesquisador, a planta depende de uma faixa específica de areia mais grossa e sofre com pisoteio, circulação de veículos e ocupações irregulares. Ele afirma que as ameaças à Grindelia atlântica atingem também outras espécies de restinga, além de peixes anuais, banhados e áreas que funcionam como proteção natural contra inundações.
Do ponto de vista ecológico, a margarida-de-praia contribui para a fixação das dunas, ajudando a manter a estrutura da areia e reduzir o impacto das ondas e do vento. O pesquisador afirma que a vegetação de restinga funciona como barreira natural e que sua remoção aumenta a vulnerabilidade da orla e das áreas urbanizadas. Atualmente, o doutorado investiga a diversidade genética da espécie para orientar estratégias de conservação, incluindo preservação em bancos de germoplasma e ações de manejo. Segundo Felipe Fernando, a situação da planta indica necessidade de medidas urgentes para proteção do litoral do Laranjal e do Pontal da Barra.

Exemplares crescem em áreas de restinga e dunas no litoral de Pelotas. Foto: Fernando Fernandes / Especial Em Pauta
A moradora de Pelotas Natali Peres, 24 anos, afirmou que passou a perceber as margaridas-de-praia com mais atenção após ler uma reportagem da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) sobre o risco de extinção da espécie no litoral local. Frequentadora assídua da praia do Laranjal, onde vai quase todos os fins de semana, ela relatou que a descoberta mudou sua forma de observar a paisagem e despertou preocupação com a preservação ambiental.
Segundo Natali, antes da notícia as flores eram apenas um elemento visual da praia, mas a informação de que a espécie é rara e exclusiva da região gerou surpresa. Ela conta que passou a observar as margaridas com mais cuidado e perceber possíveis variações na quantidade ao longo dos anos. Em alguns períodos, lembra de ver muitas flores espalhadas pelas dunas; em outros, tem a impressão de que há menos exemplares, embora reconheça que a percepção não seja baseada em dados técnicos.
A entrevistada afirma que as flores contribuem para a identidade visual do Laranjal e alteram a experiência de quem frequenta a orla. Para ela, quando estão floridas, as margaridas mudam o cenário e dão destaque à paisagem, criando um vínculo afetivo com o lugar. Após saber que a espécie existe apenas no litoral local, Natali diz que passou a enxergar a praia como um espaço que abriga algo único, o que reforçou a sensação de responsabilidade em relação à preservação.
Sem formação na área ambiental, Natali relata que nunca havia associado a presença das flores ao equilíbrio ecológico das dunas. Depois de buscar mais informações, afirma ter entendido que a vegetação não tem apenas valor estético, mas também função ambiental, como a fixação da areia e a manutenção do ecossistema costeiro. A entrevistada avalia que a experiência mostra como informações científicas divulgadas ao público podem mudar a percepção de frequentadores sobre o litoral e incentivar maior atenção à conservação.
A planta Grindelia atlântica, espécie nativa das praias de Pelotas, no litoral sul do Rio Grande do Sul, está ameaçada de extinção devido a eventos climáticos recentes e à presença de espécies exóticas invasoras, segundo o professor João Iganci, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A espécie, endêmica da região, ocorre apenas nesse trecho do litoral e tem papel importante na fixação das dunas e no equilíbrio ambiental local.
De acordo com o professor João Iganci, a Grindelia atlântica possui distribuição muito restrita, sendo encontrada basicamente nas praias de Pelotas. Diferente de outras espécies do gênero Grindelia, ela apresenta crescimento rente ao solo e capacidade de enraizar nas ramificações novas, característica que contribui para a fixação das dunas.
Apesar da percepção de aumento da vegetação em algumas áreas litorâneas, não houve crescimento significativo da espécie. Pelo contrário, a Grindelia atlântica está ameaçada. O que tem aumentado é a presença de plantas não nativas, como capim-elefante, mamona e capim-anoni, especialmente na faixa entre o Barro Duro e a Colônia Z3. Essas espécies invasoras competem com a vegetação nativa e alteram a dinâmica do ecossistema.
Eventos climáticos recentes, como enchentes, também impactaram diretamente a população da planta. Segundo o pesquisador, houve redução significativa no número de indivíduos após esses episódios. A presença de espécies exóticas agrava o cenário, dificultando a recuperação da população natural.
Além de contribuir para a estabilidade das dunas e reduzir danos provocados por eventos climáticos, a Grindelia atlântica também desempenha papel ecológico ao atrair insetos polinizadores, incluindo abelhas. Esses organismos utilizam a planta como fonte de alimento e ajudam a manter o equilíbrio ambiental da região.
A planta Grindelia atlântica, espécie nativa das praias de Pelotas, no litoral sul do Rio Grande do Sul, está ameaçada de extinção devido a eventos climáticos recentes e à presença de espécies exóticas invasoras, segundo o professor João Iganci, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A espécie, endêmica da região, ocorre apenas nesse trecho do litoral e tem papel importante na fixação das dunas e no equilíbrio ambiental local.
De acordo com o pesquisador, a Grindelia atlântica possui distribuição muito restrita, sendo encontrada basicamente nas praias de Pelotas. Diferente de outras espécies do gênero Grindelia, ela apresenta crescimento rente ao solo e capacidade de enraizar nas ramificações novas, característica que contribui para a fixação das dunas.

Concentração da espécie na vegetação costeira do Laranjal, ambiente sensível à urbanização. Foto: Emily Alves / Especial Em Pauta
“Apesar da percepção de aumento da vegetação em algumas áreas litorâneas, não houve crescimento significativo da espécie. Pelo contrário, a Grindelia atlântica está ameaçada. O que tem aumentado é a presença de plantas não nativas, como capim-elefante, mamona e capim-anoni, especialmente na faixa entre o Barro Duro e a Colônia Z3.” diz, João.
Essas espécies invasoras competem com a vegetação nativa e alteram a dinâmica do ecossistema. Eventos climáticos recentes, como enchentes, também impactaram diretamente a população da planta. Segundo o professor, houve redução significativa no número de indivíduos após esses episódios. A presença de espécies exóticas agrava o cenário, dificultando a recuperação da população natural.
Além de contribuir para a estabilidade das dunas e reduzir danos provocados por eventos climáticos, a Grindelia atlântica também desempenha papel ecológico ao atrair insetos polinizadores, incluindo abelhas. Esses organismos utilizam a planta como fonte de alimento e ajudam a manter o equilíbrio ambiental da região.

