A importância do cuidado da saúde mental na adolescência 

A recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar mostra um cenário preocupante de vulnerabilidade emocional entre os jovens brasileiros

 

Por Vanessa Ferro/ Em Pauta 

Período da adolescência é marcado por mudanças que podem originar problemas de saúde mental. Foto: Freepik/ Em Pauta

Cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física, especialmente, na adolescência. Os desafios e as mudanças enfrentados pelos jovens podem desencadear problemas como depressão e ansiedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o bem-estar de uma pessoa não depende apenas do ponto de vista psicológico e emocional, mas também de contextos fundamentais como condições de vida, aspectos sociais, econômicos e ambientais.

A mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), feita em parceria com o Ministério da Saúde e com apoio do Ministério da Educação, divulgada em março deste ano, mostrou um cenário de vulnerabilidade emocional entre os adolescentes brasileiros. O estudo ouviu mais de 118 mil  jovens de 13 a 17 anos em 4.167 escolas públicas e privadas do país. Três em cada dez estudantes afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Além disso, 42,9% das pessoas que responderam a pesquisa, disseram que se sentem irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa e 18,5% pensam sempre, ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena ser vivida.

Com isso, entende-se a importância da atenção e do cuidado em torno da saúde mental desta parcela da população. De acordo com a psicóloga Laura Bálsamo Espinosa (CRP-07/25216) especialista em terapia cognitivo comportamental na infância e adolescência, o período é uma fase marcada por muitas mudanças emocionais, comportamentais, cognitivas e físicas. Sendo assim, é natural que o adolescente fique confuso ou se sinta perdido, sem entender direito o que está acontecendo. “Em razão dos hormônios e até mesmo pelo cérebro em desenvolvimento, há uma dificuldade de se regular emocionalmente e os adolescentes acabam sentindo com uma maior intensidade, muitas vezes sem saber como lidar com as emoções que surgem e com todas essas transformações que estão acontecendo”, destaca.

A Psicóloga Laura Espinosa comenta sobre os desafios emocionais da adolescência. Foto: Arquivo Pessoal /Em Pauta

Dessa forma, a psicóloga realça como pais e responsáveis podem identificar sintomas de algum problema. Segundo ela, existem questões que são esperadas e típicas da adolescência, como por exemplo: oscilações de humor, a busca por independência, questionamento a regras, um certo afastamento dos responsáveis e maior valorização dos amigos, entre outros pontos.“Mas três palavras podem nos ajudar a identificar possíveis problemas: prejuízo, intensidade e frequência desses sintomas. Muitas vezes, o adolescente não vai verbalizar que não está se sentindo bem, ele vai demonstrar através do comportamento que precisa de ajuda. Alterações intensas no humor, isolamento persistente, prejuízo do desempenho escolar, comportamentos autodestrutivos, são alguns dos sinais de alerta e indicadores da necessidade de um profissional”, enfatiza. Além disso, Laura comenta que, identificado algum problema, é recomendado que os responsáveis busquem ajuda de um atendimento especializado para que o adolescente tenha um espaço seguro para compartilhar as suas emoções e pensamentos.

Tendo isso em vista, a profissional salienta como pais, amigos e pessoas próximas podem ser uma rede de apoio para o adolescente. “Para os adultos, vale a lembrança de que um dia já fomos adolescentes e já passamos por essa fase. É possível a reflexão: como eu gostaria de ser tratado na adolescência? Encorajar e permitir que o jovem expresse o que está sentindo, sem julgar. Às vezes, os responsáveis têm a preocupação ou a ansiedade de tentar resolver o que os adolescentes trazem, mas em muitos casos, eles só querem uma escuta com atenção”, sublinha. Ainda, de acordo com a psicóloga, práticas parentais positivas, como comunicação aberta, escuta ativa, limites consistentes e incentivo a autonomia, contribuem para um desenvolvimento mais saudável. “Se não encontrarem nos cuidadores abertura, acolhimento e validação, eles podem se sentir sozinhos e isso influencia na busca de ajuda em lugares inadequados, por exemplo, para lidar com questões que são esperadas nesse período”, conta.

Visto que o período da adolescência é marcado por transformações, a escola possui uma influência muito forte na vida dos jovens. Segundo o psicólogo e professor Iuri Pizetta Moschen, supervisor dos atendimentos de psicologia escolar do Campus Pelotas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-grandense (IFSul), a escola possui um papel fundamental na manutenção da saúde mental dos alunos, pois não é apenas um espaço de aprendizagem acadêmica, mas também de formação humana e social. “Como os estudantes passam grande parte do tempo no ambiente escolar, a instituição se torna um espaço importante para promover bem-estar emocional, acolhimento e desenvolvimento saudável. Nesse sentido, a escola deve proporcionar um ambiente seguro, inclusivo e respeitoso, incentivando as relações saudáveis entre alunos, professores e funcionários da instituição.  Dessa forma, o desenvolvimento de ações de combate ao bullying, incentivo ao diálogo, valorização da diversidade e fortalecimento do sentimento de pertencimento são fundamentais para a promoção da saúde mental dos alunos”, frisa.

O professor Iuri Pizetta comenta sobre o papel da escola na vida dos alunos. Foto: Arquivo pessoal / Em Pauta

Dar atenção à saúde mental é um ato de cuidado. Em Pelotas, a rede pública de saúde oferece atendimentos de saúde mental por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) e dos ambulatórios da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

 

Comentários

comments

Você pode gostar...