A maternidade na era da Geração Z
Mães e especialistas refletem sobre os desafios de criar filhos hiperconectados na era digital

Em um mundo cada vez mais conectado, famílias buscam equilíbrio entre tecnologia, diálogo e convivência. Foto: Magnific Images / Em Pauta
Ser mãe nunca foi uma tarefa fácil. Mas, em uma era em que as telas se tornaram parte da rotina, onde o digital e o real muitas vezes se confundem e o diálogo parece cada vez mais distante, criar um filho ganhou novos desafios. Com o surgimento de novas gerações, também surgem novas formas de compreender a maternidade e de lidar com crianças e adolescentes que vivem uma realidade completamente diferente daquela das gerações passadas.
O mundo digital talvez seja a maior transformação que torna a Geração Z tão singular. Crescer em meio às vozes da “Alexa”, assistindo a conteúdos produzidos com inteligência artificial e aprendendo a manusear celulares antes mesmo de falar são situações cada vez mais comuns entre os jovens atuais. Eles vivem em um mundo acelerado, hiperconectado e marcado pelo excesso de informações.
Para Giovana Bertoldi, mãe de Guilherme, de 16 anos, proteger os filhos das armadilhas digitais é um dos maiores desafios da maternidade moderna. Segundo ela, muitos pais ainda enfrentam dificuldades para compreender os perigos que surgiram junto com as redes sociais. “Os perigos das redes sociais transformaram a vida das crianças e adolescentes. A vulnerabilidade ficou exposta a predadores digitais, e a falta de preparo dos pais para enfrentar esse novo inimigo, que está dentro do próprio lar, trouxe consequências desastrosas para algumas famílias”, afirma.
Ela destaca ainda que a exposição excessiva, os vícios digitais, a manipulação e a pressão psicológica exercida pelas redes sociais intensificaram problemas emocionais entre os jovens. “Nossos filhos têm acesso a conteúdos grandiosos e conhecimentos incríveis, mas, sem orientação e acompanhamento, tudo isso pode acabar se perdendo”, observa.
Giovana acredita que a responsabilidade dos pais aumentou significativamente nos últimos anos. “Precisamos acompanhar nossos filhos muito de perto, dando autonomia com responsabilidade, mas sem deixá-los sozinhos, porque eles ainda não estão preparados emocionalmente para o mundo virtual”, completa.
Mãe de uma adolescente de 14 anos, Renata Chapuis acredita que a internet mudou profundamente a forma de educar e acompanhar os filhos. Segundo ela, apesar das facilidades proporcionadas pela tecnologia, o acesso rápido a tudo também trouxe consequências negativas para as novas gerações. “A internet, apesar de ser útil, por muitas vezes se apresenta como um desserviço, pois traz facilidade demais à geração atual”, afirma.

Entre telas e novas realidades, o vínculo entre mãe e filho continua sendo essencial. Foto: Divulgação/Giovana Bertoldi / Em Pauta
Para Renata, os adolescentes de hoje vivem sob uma pressão maior do que as gerações anteriores. “É muito fácil o acesso à informação de forma rápida. Muita dopamina rápida e pouca tolerância à frustração. Não são apenas os adolescentes, mas crianças cada vez menores vivendo isso. Chegam a perguntar quanto tempo tem o vídeo que irão assistir. Tudo precisa ser rápido, porque, caso contrário, se torna monótono”, relata.
Ela também destaca que uma das maiores dificuldades da maternidade atualmente é a perda da convivência e do tempo de qualidade dentro de casa. “A falta de interação, de diálogo e de tempo de qualidade é o que mais pesa”, pontua.
Apesar dos desafios, Renata acredita que a nova geração possui grande potencial. “Essa geração tem uma ferramenta poderosa nas mãos, que pode ser usada para o bem ou para o mal. Com discernimento e bons exemplos dos pais, acredito que seja possível despertar nesses jovens a importância do contato real e sincero entre as pessoas”, ressalta.
Do ponto de vista científico, especialistas explicam que a adolescência é uma das fases de maior transformação cerebral e emocional do ser humano, o que ajuda a entender por que os jovens tendem a ser mais influenciados por grupos, tendências e opiniões externas. Estudos da neurociência apontam que o cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas responsáveis pelo controle de impulsos, pensamento crítico e tomada de decisões.
Enquanto regiões ligadas às emoções e à sensação de recompensa amadurecem mais rapidamente, o córtex pré-frontal — associado ao autocontrole e à avaliação de consequências — continua em formação até o início da vida adulta. Esse desequilíbrio faz com que adolescentes sejam mais sensíveis à aprovação social, à busca por pertencimento e às experiências consideradas estimulantes ou novas.
Pesquisadores também destacam que, durante a adolescência, ocorre um aumento da sensibilidade à dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa. Na prática, isso significa que curtidas nas redes sociais, reconhecimento de amigos e aceitação em determinados grupos podem ter impacto significativo no comportamento dos jovens.
Outro fator apontado por especialistas é o papel das redes sociais na formação da identidade adolescente. Em uma fase marcada pela construção da personalidade e dos valores, o contato constante com influenciadores, padrões estéticos e opiniões compartilhadas online pode ampliar a influência externa sobre decisões, hábitos e comportamentos.
A ansiedade e os impactos na saúde mental dos jovens também passaram a ocupar um espaço central dentro das famílias. O excesso de informações, a necessidade constante de aprovação nas redes sociais e a comparação permanente com padrões muitas vezes irreais têm contribuído para o aumento de casos de ansiedade, insegurança e sofrimento emocional entre adolescentes.
Especialistas alertam que a hiperconectividade faz com que muitos jovens permaneçam em estado constante de alerta. A pressão para estar sempre atualizado, bonito, produtivo ou aceito pode gerar sentimentos de inadequação e frustração. Além disso, o consumo acelerado de conteúdos reduz a tolerância ao tédio, ao silêncio e até mesmo às frustrações do cotidiano.
Outro fator preocupante é o impacto do isolamento social causado pelo uso excessivo das telas. Embora os adolescentes estejam cada vez mais conectados virtualmente, muitos acabam enfrentando dificuldades nos relacionamentos presenciais, no diálogo familiar e na construção de vínculos emocionais mais profundos. Em alguns casos, a dificuldade de comunicação, a baixa autoestima e o medo do julgamento acabam afetando diretamente a saúde mental.
O psicólogo Ramão Freitas explica que os desafios enfrentados pela Geração Z estão diretamente ligados à convivência social, à tecnologia e às transformações nas relações humanas. “Essa geração é completamente digital e enfrenta dificuldades em áreas como relacionamentos, convivência e adaptação a ambientes que ainda não estão totalmente preparados para essa nova realidade. Eles possuem uma forma diferente de enxergar o mundo e de se relacionar”, afirma.
Segundo o psicólogo, o excesso de tempo diante das telas impacta diretamente a saúde mental dos adolescentes. “Os jovens acabam trocando o diálogo e a convivência familiar pelo tempo em redes sociais, jogos e conteúdos digitais. Isso pode gerar isolamento social, dificuldades de comunicação e até insegurança em situações simples, como uma entrevista de emprego”, explica.
Ramão também destaca que houve uma mudança significativa na relação entre pais e filhos nos últimos 20 anos. Para ele, muitos conflitos surgem da dificuldade dos adultos em compreender uma geração que já nasceu conectada. “A gente costuma ouvir que os jovens são rebeldes ou difíceis, mas é preciso entender que eles pensam de forma diferente. Os pais precisam se atualizar para conseguir acompanhar essa realidade”, pontua.
Para o psicólogo, a palavra mais importante na relação entre pais e filhos atualmente é “negociação”. “Se não houver diálogo e escuta, alguém vai oferecer acolhimento ao jovem fora de casa, e muitas vezes os pais nem sabem quem é. O jovem precisa ser ouvido de uma maneira diferente daquela de antigamente”, ressalta.
Nesse cenário, o papel das mães se torna ainda mais essencial. Em meio às mudanças da sociedade, às transformações tecnológicas e aos desafios emocionais enfrentados pelos filhos, são elas que muitas vezes assumem a função de acolher, orientar, observar sinais de sofrimento e manter o diálogo aberto dentro de casa.

Ser mãe é aprender diariamente enquanto acompanha o crescimento e as descobertas dos filhos. Foto: Divulgação/Giovana Bertoldi / Em Pauta
Mais do que impor limites, a maternidade atual exige presença, escuta e adaptação constante. Ser mãe da Geração Z significa aprender diariamente sobre um universo que muda rápido, tentando equilibrar proteção e liberdade em uma realidade totalmente diferente daquela vivida pelas gerações anteriores.
Apesar das dificuldades, da preocupação constante e da responsabilidade cada vez maior, muitas mães afirmam que acompanhar o crescimento dos filhos continua sendo uma experiência profundamente recompensadora. Ver o amadurecimento, participar das descobertas e construir vínculos de confiança transforma os desafios em aprendizado e fortalece ainda mais os laços familiares.
Para Giovana, apesar de todos os obstáculos trazidos pela tecnologia e pelas mudanças sociais, a essência da juventude permanece a mesma. “A parte boa de ser mãe de adolescente é que a gente se mantém jovem e atualizada. Estamos sempre aprendendo com eles. Os tempos mudaram, mas a essência dos jovens continua a mesma: são curiosos, cheios de ideias, ávidos por novidades e têm um mundo inteiro para descobrir”, conclui.
Em um mundo cada vez mais acelerado e digital, o amor, a presença e o cuidado das mães seguem sendo fundamentais para ajudar crianças e adolescentes a enfrentarem inseguranças, desenvolverem equilíbrio emocional e construírem relações mais saudáveis consigo mesmos e com os outros.

