Entre nostalgia e atualização: o retorno de O Diabo Veste Prada
Vinte anos depois, o filme revisita personagens icônicos e debate o impacto das redes sociais, da moda e da crise do jornalismo.
Bruna Palharini/Em Pauta
A tendência dos últimos dias tem sido o lançamento do longa-metragem O Diabo Veste Prada 2 nos cinemas. A continuação vem depois de vinte anos do lançamento do primeiro filme. O primeiro filme fez muito sucesso em 2006 (ano de seu lançamento), e continua sendo lembrado até hoje como um dos filmes mais famosos da década de 2000. As roupas icônicas, as falas memoráveis e os memes nas redes sociais fizeram com que o longa nunca saísse de moda.
E ainda, o que chama a atenção do público, a sequência continua com o elenco original, Meryl Streep – que é conhecida por não fazer sequências, inclusive – Anne Hathaway, e Stanley Tucci e Emily Blunt. Ou seja, os quatro atores principais do primeiro filme.
O longa retoma a vida dos quatro personagens. Assim como no primeiro filme, a trama se inicia com Andy Sachs (Anne Hathaway) precisando de um emprego. Miranda Priestly (Meryl Streep) e Nigel Kipling (Stanley Tucci), continuam trabalhando na revista Runway, em suas respectivas posições, a Miranda como editora-chefe e o Nigel como diretor de arte. No início do filme, há um mistério sobre o motivo de Emily Charlton (Emily Blunt) ter saído da revista, já que aquele era o seu trabalho dos sonhos, mas, ela está trabalhando na Dior, como uma executiva da marca de luxo.
Nesta história, vemos uma perspectiva muito diferente do primeiro longa. Agora vemos uma narrativa em que a revista está em perigo. Com os avanços tecnológicos e mudanças nos hábitos de consumo, a revista física caiu em desuso. Então, a Runway se transformou em uma revista digital e passou por mudanças para se adaptar às redes sociais e continuar relevante e presente na vida das pessoas.
E, uma das mudanças (ou tentativas) mais notadas pelo público é a da Miranda. No primeiro filme, ela era direta, sarcástica, muitas vezes desrespeitosa e acontecia a cena clássica: chega no escritório e joga o seu casaco em cima da mesa de Andy para que ela guarde. Características que são marcantes na personagem da Miranda, consagrando um dos pontos mais importantes do filme, em que ela é uma péssima chefe. Já, na continuação, ainda há esse tipo de comportamento, mas de maneira mais irônica, pois como ela está sendo cancelada nas redes sociais, então, ela está passando por uma espécie de “reeducação”, em que sua assistente Amari (Simone Ashley) está lhe ensinando quais termos ela pode ou não utilizar.
Mas na realidade, a Miranda mudou? Acho que de modo geral, a resposta é sim, ninguém continua sendo a mesma pessoa após vinte anos. Porém, ela ainda é a pessoa sarcástica e não tão moralmente correta que conhecemos no primeiro filme. Há os seus pequenos acertos em sua relação com o Nigel e também, a sua empatia e respeito por Andy são muito maiores do que anteriormente. Ela está tentando corrigir o seu comportamento, ainda que parcialmente motivada pela pressão midiática e para preservar sua imagem pública, mas está.
Algo muito comum nas produções recentes é a falta de iluminação, luzes frias e cores sem vida. Comparando os dois filmes, é possível perceber rapidamente a diferença de luzes e saturação. O primeiro tem luzes mais quentes e oferece mais vitalidade e aconchego às cenas. E o que aconteceu na continuação, é observado em outras produções também, luzes frias, cenas escuras e pouca intimidade, o que cria uma estética fria e distante, pouco acolhedora para o espectador.
Algo que é muito comentado e debatido ao decorrer da obra é a perspectiva do jornalismo nos dias atuais. A revista que está em risco, a desvalorização dos profissionais, deixando profissionais bons e competentes à deriva. Essa é a realidade de muitos jornalistas atualmente. O avanço da tecnologia abriu espaço para o compartilhamento quase instantâneo de informações, mas também afastou muitos profissionais das redações, além disso, jornais e revistas físicas estão cada vez mais raros, e assim, muitas coisas são deixadas para trás.

A personagem de Anne Hathaway é uma jornalista que está lutando pela sua profissão. Foto: Divulgação/Em Pauta
O final do filme deixou espaço para mais uma continuação. Bem como a primeira obra, a história não precisa ser continuada, a narrativa está completa e sem pontas soltas. Mas há possibilidades, como a Miranda passando a posição de editora-chefe ao Nigel ou para a Andy. Portanto, o filme é uma boa continuação, e complementa muito bem a história do primeiro filme, fazendo conexões e referências sem forçar a simpatia do público por uma narrativa fraca e sem sentido.
Sequências são necessárias?
Nos últimos anos, Hollywood parece cada vez mais dependente de sequências, reboots e live-actions. Live-actions são adaptações com atores reais de obras originalmente animadas e os reboots são refazer filmes antigos.
Há diversos fatores que podem fazer com que sequências sejam necessárias, ainda mais de um filme que estreou há 20 anos. O Diabo Veste Prada não precisava de uma, mas ela foi muito bem-vinda, possui uma história que faz sentido e uma narrativa completa. Entretanto, há o perigo de estar somente utilizando a nostalgia para a produção de filmes com garantia de sucesso de bilheteria. Muitos filmes e séries estão sendo refeitos, sem nenhum motivo além do lucro.
O Diabo Veste Prada 2 propõe os seus objetivos de forma bem clara, e os alcança de forma muito leve e natural. É divertido e engraçado, sem exageros e extravagâncias (mas não no sentido figurino). Então, neste caso, a sequência foi muito bem pensada e executada.
Entretanto, isso muitas vezes não acontece. O uso da nostalgia para lucro tem sido a maior arma das produções cinematográficas dos últimos anos. Histórias com personagens que já são conhecidos pelo público voltam às telas frequentemente, assim, percebemos que o reaproveitamento de narrativas tornou-se frequente e ocupa muito espaço nas salas de cinema. Concorrendo com histórias originais, e muitas vezes dominando as salas de cinema, o que prejudica os longas pouco conhecidos.
Em meio à onda de sequências, reboots e live-actions que dominam o cinema atual, O Diabo Veste Prada 2 se destaca justamente por compreender a importância do legado do primeiro filme sem depender apenas da nostalgia. A continuação atualiza seus personagens e temas para uma nova realidade, discutindo redes sociais, transformação do jornalismo e mudanças no mercado da moda, ao mesmo tempo em que preserva a essência que tornou o original tão marcante.
Assim, o longa demonstra que sequências podem funcionar quando existe uma proposta narrativa consistente e uma intenção que vá além do lucro. Porém, o sucesso desse caso também evidencia um problema da indústria cinematográfica contemporânea: a dificuldade em apostar em histórias inéditas. Entre continuações bem executadas e produções que apenas reutilizam franquias conhecidas, o cinema atual parece dividido entre revisitar o passado e criar algo novo.



