Economia solidária e cultura afro brasileira impulsionam protagonismo feminino em Pelotas
Iniciativa realizada ao longo de 2025 promoveu oficinas de economia solidária e valorização dos saberes afro-brasileiros em comunidades tradicionais
No Quilombo da Vó Elvira e em outras comunidades tradicionais da região de Pelotas, linhas, tecidos e técnicas artesanais se transformaram, ao longo de 2025, em instrumentos de geração de renda, fortalecimento cultural e autonomia feminina. O projeto “Oficinas de Economia Solidária e Artesanatos Afro-Brasileiros”, coordenado pela professora e artesã Aline Maria Rodrigues Machado, foi desenvolvido ao longo de 2025 no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), Campus Pelotas Visconde da Graça (CAVG), e encerrou suas atividades em dezembro do mesmo ano. A iniciativa integrou ações de ensino, pesquisa e extensão voltadas à promoção da igualdade racial.

professora e artesã Aline Maria Rodrigues Machado coordena o projeto. Imagem acervo pessoal/ Em Pauta
A proposta foi contemplada por um edital do Ministério da Igualdade Racial e atuou diretamente em comunidades como o Quilombo da Vó Elvira, o Quilombo de Cerrito Alegre e espaços de matriz africana. Durante o período, mulheres participaram de oficinas que ensinaram técnicas de produção artesanal com temática afro-brasileira, conectando tradição e possibilidade de renda.
Caminho coletivo
Ao longo do projeto, a economia solidária foi trabalhada como alternativa aos modelos tradicionais de mercado. A proposta priorizou a participação coletiva, em que todas as envolvidas no processo produtivo tiveram voz nas decisões e acesso mais justo aos resultados. As oficinas também abordaram princípios como autogestão, democracia, solidariedade e cuidado com o meio ambiente. Segundo as participantes, o contato com os saberes tradicionais e com a ancestralidade afro-brasileira contribuiu diretamente para o resgate da identidade e o fortalecimento da autoestima.
Da aprendizagem à geração de renda
As atividades foram desenvolvidas de forma prática e colaborativa. Cada oficina começou com a apresentação das técnicas e de uma peça piloto, seguida da produção individual das artesãs com apoio de bolsistas e da coordenação do projeto.
Ao final de cada encontro, as participantes produziram peças que puderam ser replicadas posteriormente para comercialização. Parte dessa produção foi apresentada em feiras de empreendedorismo étnico organizadas durante o projeto, ampliando as oportunidades de geração de renda.
O impacto na vida das bolsistas
Para além dos números, o projeto também transformou a trajetória das estudantes envolvidas diretamente na sua execução. Os relatos mostram que a experiência ultrapassou o aprendizado técnico e se tornou um processo de crescimento pessoal, profissional e social. A bolsista Silvana de Araujo Alves destaca que o projeto foi sua primeira experiência nesse tipo de iniciativa e teve impacto significativo na sua vida.
“É o primeiro projeto que eu entrei e está sendo de extrema importância em todos os sentidos. […] Hoje eu consigo interagir, mostrar meu trabalho e ser reconhecida. Através do estudo eu estou tendo oportunidades que antes eu não tinha.”
Além do aperfeiçoamento no crochê, Silvana ressalta a importância da convivência com outras mulheres e da possibilidade de ensinar, ampliando sua visão sobre carreira e futuro. Já para a bolsista Analu Dias dos Santos, a experiência representou uma mudança de lugar: de participante para protagonista.
“Há uns anos atrás eu era a pessoa que era assistida […] hoje eu estou do outro lado. Isso pra mim é de muita importância.”
Ela também destaca o vínculo criado com as comunidades e o impacto emocional da troca vivida durante as oficinas.
“A gente acaba acolhendo e sendo acolhida pelas artesãs […] é uma troca, um carinho, uma energia que faz tudo valer a pena.”

Artesanatos afro brasileiros desenvolvidos pelas bolsistas do projeto. Foto acervo pessoal / Em Pauta
Importância social: acesso, renda e identidade
Os depoimentos reforçam que projetos como esse cumprem um papel fundamental ao ampliar o acesso a conhecimentos que, muitas vezes, não estão disponíveis de forma gratuita. A iniciativa levou materiais, estrutura e formação diretamente às comunidades, com apoio do IFSul CAVG, possibilitando que mulheres aprendessem um ofício e gerassem renda, especialmente aquelas que enfrentam dificuldades de inserção no mercado de trabalho formal.
“Tem muitas mães que não podem sair para trabalhar […] e o artesanato ajuda na renda de casa”, relata Analu.
Além da renda, o projeto também promoveu o fortalecimento da identidade cultural. Cada peça produzida carrega significados ligados à ancestralidade afro-brasileira, agregando valor simbólico e cultural ao trabalho das artesãs.
Resultados e legado
Durante sua execução, o projeto realizou 13 oficinas e capacitou cerca de 30 mulheres artesãs. Também promoveu feiras, participou de eventos científicos e ampliou o debate sobre economia solidária e cultura afro-brasileira.
Encerrado em dezembro de 2025, o projeto deixou como principal legado a valorização dos saberes tradicionais e a inserção de mulheres na economia solidária, fortalecendo sua autonomia e protagonismo.
Mesmo após o fim das atividades oficiais, a intenção de continuidade permanece entre as participantes, ainda que de forma voluntária, mostrando que o impacto do projeto vai além do seu tempo de duração.
Resgatar o passado para construir o futuro
A iniciativa mostrou que valorizar a cultura afro-brasileira também é uma forma concreta de enfrentar desigualdades e criar novas possibilidades. Entre tecidos, turbantes e fios, o que se construiu foi mais do que artesanato, foi um caminho de transformação social, onde mulheres quilombolas e estudantes passaram a ocupar, com mais força, o lugar de protagonistas de suas próprias histórias.

