A volta dos clubes do livro: como a leitura coletiva conquistou uma nova geração
Mais do que discutir obras, clubes de leitura se consolidam como espaços de socialização, incentivo à leitura e formação de comunidades.
Por Bruna Palharini / Em Pauta

Clubes do livro voltaram a ganhar força no Brasil e no mundo, reforçando a necessidade de conexão entre as gerações mais novas. Foto: Letícia Nogara.
Durante muito tempo, a leitura foi considerada uma atividade solitária. Hoje, no entanto, um movimento crescente tem transformado essa experiência em um momento de troca, pertencimento e construção coletiva de conhecimento. Os clubes do livro voltaram a ganhar força no Brasil e no mundo, impulsionados pelas redes sociais, por influenciadores literários e pelo desejo de criar conexões em um cenário cada vez mais digital.
Mais do que reunir pessoas para discutir um romance, os clubes de leitura têm se consolidado como espaços de convivência, incentivo ao hábito de ler e reflexão sobre temas contemporâneos. Em livrarias, bibliotecas, universidades, cafés e até mesmo em grupos virtuais, leitores de diferentes idades se encontram para compartilhar interpretações, opiniões e experiências despertadas pelos livros.
Das bibliotecas aos algoritmos
Embora os clubes de livro existam há décadas, o formato ganhou novo fôlego nos últimos anos. Durante a pandemia de Covid-19, encontros virtuais permitiram que leitores de diferentes cidades participassem das mesmas discussões. Após o isolamento, muitos desses grupos migraram novamente para o presencial, mas mantiveram a presença nas plataformas digitais.
O crescimento do chamado BookTok, comunidade literária presente no TikTok, e do Bookstagram, no Instagram, também ajudou a popularizar a leitura entre o público jovem. Vídeos de recomendações, resenhas e reações emocionadas a livros transformaram obras pouco conhecidas em best-sellers e despertaram o interesse de milhares de novos leitores.
Segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, apesar da redução no número de leitores nos últimos anos, iniciativas de incentivo à leitura e comunidades literárias têm desempenhado papel importante na formação de novos públicos, especialmente entre jovens adultos.
Mais do que ler, compartilhar
A principal diferença entre ler sozinho e participar de um clube está na experiência coletiva. Ao discutir uma obra, cada participante traz interpretações diferentes, muitas vezes influenciadas por suas vivências pessoais.
Para a estudante de Jornalismo, Sofia Mazza, de 21 anos, criar um clube mudou sua relação com a leitura: “A iniciativa de criar o clube do livro ‘O Mundo de Sofia’ tem vários motivos. O primeiro deles é o senso de comunidade, que sinto ser tão escasso nessa época de redes sociais, foi uma razão para as pessoas saírem de casa, se reunirem, conhecerem pessoas novas e terem trocas sobre leituras e interesses!” comenta a estudante.
Além da troca de ideias, muitos participantes destacam o compromisso criado pelos encontros periódicos. Ter uma data marcada para discutir um livro funciona como incentivo para manter o hábito da leitura, especialmente em meio às distrações das redes sociais. Para Sofia, “Queria incentivar a leitura, não só a das outras pessoas como a minha também, que acaba sendo comprometida com o cotidiano agitado de trabalho e faculdade. Fiquei bem feliz quando vi a quantidade de pessoas que topou o desafio,. Conseguimos 80 membros na primeira semana e teremos nosso primeiro encontro no próximo sábado. Tô bem animada para ver como vai ser!”, conclui.
Quando o leitor cria uma comunidade
Para algumas pessoas, participar de um clube de leitura não é apenas uma forma de compartilhar opiniões sobre livros, mas também de construir um espaço de acolhimento. Foi com esse propósito que a criadora de conteúdo literário Letícia Nogara, fundadora do Clube Utopia, transformou uma comunidade virtual em um grupo de encontros presenciais.
“Sempre sonhei em viver um clube do livro presencial. Crescer em uma cidade pequena me fez sentir, muitas vezes, que eu não pertencia. Hoje, por meio do clube, quero oferecer justamente aquilo que eu mesma buscava: um espaço de acolhimento, pertencimento e descobertas, onde os livros aproximam pessoas e ampliam a forma como enxergamos o mundo”, afirma.
Os encontros acontecem uma vez por mês, no Instituto Sepé Tiaraju, em Ijuí. A escolha das leituras é feita de forma colaborativa. A cada mês, as participantes recebem um tema, indicam obras relacionadas a ele e, posteriormente, votam em uma enquete online para definir qual livro será discutido no encontro seguinte.
Segundo Letícia, esse modelo faz com que todas as integrantes participem ativamente da construção do clube. “O grupo engaja muito. Cada menina pode indicar um livro, depois fazemos uma votação e o mais escolhido se torna a leitura do mês. Isso faz com que todas se sintam parte do processo.”
Um hábito que vai além da moda
Especialistas acreditam que o sucesso dos clubes de livro não se resume a uma tendência passageira. Em uma sociedade marcada pela rapidez da informação, reservar tempo para ler e conversar sobre literatura representa uma forma de desacelerar e aprofundar discussões.
Mais do que aumentar o número de páginas lidas ao longo do ano, os clubes ajudam a transformar a leitura em uma experiência compartilhada. Ao unir pessoas em torno de histórias, eles mostram que, mesmo em tempos dominados pelas telas, ainda há espaço para encontros presenciais, diálogo e construção coletiva de conhecimento. No fim, a retomada dos clubes de livro revela uma mudança no comportamento dos leitores: ler continua sendo um ato individual, mas conversar sobre o que foi lido tornou-se parte essencial da experiência.




