Julho das Pretas

Pelotas dedica um mês inteiro à luta e à voz das mulheres negras

Kailaine Quevedo / Em Pauta

Todo dia 25 de julho é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, uma data que existe em vários países da América Latina. A ideia é lembrar e valorizar a força das mulheres negras, que estão à frente de muitas lutas contra o racismo. Mas, para quem organiza e participa dessas ações em Pelotas, um único dia não dá conta de tudo o que precisa ser dito. Por isso, desde 2025, a cidade transformou a data em um mês inteiro de atividades: o Julho das Pretas.
Em 2026, o projeto chega à sua segunda edição, com 35 atividades espalhadas pela cidade, entre rodas de conversa, palestras, premiações, almoços e jantares. A programação é resultado de um trabalho conjunto entre a Secretaria de Igualdade Racial, a Secretaria de Políticas para as Mulheres, universidades, coletivos e militantes do movimento negro. Pelotas tem uma presença histórica e expressiva da população negra, e é justamente por esse motivo que iniciativas como essa fazem tanta diferença, segundo Marisa Campos, assessora da Casa da Igualdade Racial. O intuito do julho das pretas é dar visibilidade às histórias e vivências da comunidade negra, em especial das mulheres negras pelotenses, que resistem diariamente, esse é um dos objetivos centrais do calendário.
Os organizadores, ainda comentam que os detalhes que fazem diferença no dia a dia é o fortalecimento da autoestima das mulheres que participam, o reconhecimento dos projetos que elas mesmas criam e lideram, e algo simples, mas essencial, a escuta. Ouvir essas mulheres e dar espaço para que falem é uma forma de fortalecer a autoestima de toda a comunidade.

Por que falar sobre mulheres negras?
A advogada Isadora da Casa da Igualdade Racial, que participa das atividades do Julho das Pretas, explica por que as mulheres negras enfrentam desafios que não podem ser tratados da mesma forma que os de outros grupos. Segundo ela, essas mulheres vivem uma sobreposição de dificuldades: o racismo, em suas várias formas estrutural, institucional e explícita, tudo isso somado ao machismo.
“São duas problemáticas que nos atingem de forma mais forte”, afirma Isadora, ao explicar ao sobre a interseccionalidade que vivem as mulheres negras que convivem com a desigualdade e que pesa ainda mais sobre a vida dessas mulheres. Ela lembra ainda que as mulheres negras estão na base da pirâmide social, o que torna o acesso a direitos básicos ainda mais difícil.
Os números reforçam essa realidade. Isadora chama atenção para o momento atual do país, marcado por um aumento nos casos de feminicídio, no qual as mulheres negras são as principais vítimas, tanto da violência doméstica quanto do feminicídio em si.”Entre outros diversos dados negativos, é onde nós estamos no topo”, comenta a advogada.
Para Isadora, é justamente aí que atividades como as do Julho das Pretas fazem diferença, elas funcionam como uma forma de levar informação a quem mais precisa. Segundo a advogada, quando uma mulher conta sua própria experiência em uma roda de conversa ou palestra, outras mulheres presentes podem se reconhecer naquela história.
“Uma outra mulher pode ouvir, se identificar e ver: quando isso acontecer, eu sei que eu posso fazer isso aqui também”, explica.
Para ela, mesmo que algumas pessoas vejam esses encontros como repetitivos, basta que uma única pessoa saia de cada atividade com uma informação nova para que o efeito se multiplique, porque essa pessoa pode repassar o que aprendeu para outras mulheres.

Conhecer os direitos para poder buscá-los

Um dos pontos mais destacados por Isadora é o acesso à Justiça. Mas, antes de acessar a Justiça, ela explica, é preciso saber que aquele direito existe, e essa é uma informação que ainda não chega a todas as mulheres negras. Ela cita exemplos concretos do que muitas mulheres desconhecem que é possível pedir uma medida protetiva em casos de violência doméstica, que a cidade conta com um local de
acolhimento para mulheres que não podem permanecer em casa, que existe a Patrulha Maria da Penha, e que há canais específicos para denunciar casos de racismo. Isadora lembra também que, quando uma mulher não tem condições de pagar um advogado, ela pode recorrer à Defensoria Pública, tanto da União quanto do Estado, ou aos serviços de assistência jurídica gratuita oferecidos por praticamente todas as universidades com curso de Direito.

“Só procura o serviço, só procura o acesso à Justiça, quem sabe que precisa dele, que tem aquele direito”, resume.

Um mês para não deixar a luta esfriar

Com uma programação construída coletivamente entre poder público, universidades e movimento negro o Julho das Pretas se firma em Pelotas como um espaço de escuta, informação e fortalecimento. Mais do que marcar uma data no calendário, a proposta é garantir que as pautas das mulheres negras continuem sendo discutidas, debatidas e, principalmente, ouvidas, muito além de um único dia de julho. O dia 25, data que dá origem a todo o mês de mobilização, concentra o maior número de atividades, prova de que a data segue sendo o coração simbólico do Julho das Pretas, mesmo com a programação estendida por 30 dias.

A programação segue firme até o fim do mês, com atividades espalhadas por diferentes
pontos de Pelotas. Confira o que ainda vai acontecer:
21/07 — Roda de Conversa "Mulheres Negras e Autocuidado", na Casa da Igualdade Racial
(Rua Tiradentes, 2963, Centro), das 18h às 20h.
22/07 — Salão de Jogos Antirracistas e oficina de fanzine das intelectuais negras, na Casa
da Igualdade Racial, das 17h às 20h.
24/07 — Femini: Feira Preta, de ganhadeiras a empreendedoras do Sul, no Mercado
Público, das 9h às 18h30min.
24/07 — Exposição dialogada com fotos "Racismo no cotidiano", produzida por alunas de
Pedagogia, no Museu do Doce, das 13h30min às 16h.
25/07 — II Marcha Regional das Mulheres Negras, saindo do Mercado Público em direção à
Praça Coronel Pedro Osório, das 11h às 13h.
25/07 — Almoço especial do Dia da Mulher Negra, no Kilombo Urbano (Rua Benjamin
Constant, 1327), ao meio-dia.
25/07 — Tenda Lilás, na Praça Coronel Pedro Osório, durante todo o dia.
25/07 — Troféu Dandara, no Clube Fica Ahí (Rua Marechal Deodoro, 368), a partir das 20h.

26/07 — Almoço das Qbabinrin: vivências de mulheres negras em espaços de mobilização
social, na Áfrika Brazil (Rua Vidal de Negreiros, 342, Fragata), das 12h às 16h.
28/07 — Sankofa: Nossas Raízes, Nossas Regras — rodadas pretas por direitos sexuais,
justiça reprodutiva e bem viver, na Casa da Igualdade Racial,

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