Como o Marketing digital está transformando a gestão dos pequenos negócios de Pelotas
Sete em cada 10 pequenos negócios têm um perfil na rede de compartilhamento de fotos e vídeos para divulgar seus produtos e atrair novos clientes
Adilson Pereira / Em Pauta

Jurgina analisa com atenção o número de curtidas e comentários da conta no instagram da loja de eletrônicos. Foto: Adilson Pereira/Em Pauta
Com o advento da internet, mudaram várias formas comerciais de se vender, abrindo possibilidades para uma audiência digital, com perfis, gostos e vontades distintas. De fato, a web está presente em grande parte dos comércios brasileiros e entre a população. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua(PNAD), de 2025, 9 em cada dez pessoas com 10 anos ou mais utilizam a internet para os mais diversos fins. É nesse leque que os pequenos empreendimentos estão inseridos, vendendo online e ultrapassando fronteiras, que antes eram limitadas sem essa extensão.
Ariane Jurgina é sócia-proprietária da M2 SHOP, uma loja de produtos eletrônicos, junto com seu marido Marlon, em Pelotas. Presente há cinco anos, sendo o primeiro ano em ambiente online, logo abriram um espaço físico no bairro Guabiroba.
Ela conta que, inicialmente, as vendas dos produtos se concentravam bastante pelo Facebook, através do marketplace. Hoje, grande parte delas são pelo Instagram. Por meio de vídeos e posts, promoções e novidades do estabelecimento são divulgadas para o público online, produzidos com ajuda de ferramentas de design e edição, como o Canva e o Capcut, respectivamente.
Depois de cada conteúdo ser publicado, Jurgina analisa com atenção o número de curtidas e comentários, a fim de ter um engajamento para o objetivo final: a conversão em vendas. As chamadas métricas são uma forma de medir a audiência da clientela. Mas nem sempre cada vídeo ou post tem um aumento no movimento de clientes como resultado esperado. Muitas vezes o público é um parâmetro para a empresária, quando entram na loja relatando ter assistido alguma publicação. Os conteúdos são impulsionados pelo tráfego pago, segundo Ariane:
“Investimos um dinheiro no anúncio, mas o retorno é muito maior”, afirma.
Estar nas redes sociais exige observar tendências e inspirações na produção de novos conteúdos e na forma como são apresentados ao consumidor. Como a disputa por atenção é acirrada, cada segundo importa. Na loja, Ariane e Marlon vendem também roupas e esquematizam campanhas, como as de inverno ou final da estação, onde há promoções ou novas roupas na vitrine. É esses períodos que eles investem com mais intensidade no tráfego pago.
“As redes sociais mudam muito. Às vezes, tu faz um modelo(reels) que daqui a pouco já não é mais o que as pessoas querem ver”, diz Ariane.
A proprietária afirma ter uma percepção de público em relação ao Facebook e ao Instagram. Por ser precursora, o Facebook tem mais público maduro e com menos informações sobre o produto que quer comprar, solicitando apenas de forma genérica alguma coisa. Pelo contrário, o instagram apresenta uma faixa etária mais jovem, que especifica o produto anunciado pela loja. Ariane acredita que se tenha barreiras tecnológicas para o público de mais idade com o Instagram. Já o WhatsApp é visto como um canal de fluxo dos clientes assíduos do local. O que mais vende na loja são os eletrônicos, como capinhas de celular, carregadores, cabos, caixas de som e produtos térmicos. Por meio da internet, a loja envia alguns produtos para além do bairro e da cidade, como Porto Alegre, segundo a proprietária.
“Um cliente puxa o outro”, afirma a proprietária de pet shop
Há poucos metros da loja de Ariane Jurgina, encontra-se o Becco pet shop, presente no bairro há 28 anos. A proprietária, Sandra Oliveira, utiliza com frequência as redes sociais na divulgação do negócio. Mas não se considera dominar tanto, pois seu filho ajudava antes nas publicações, com maior domínio no Instagram. Atualmente, Sandra utiliza muito a inteligência artificial para ideias de posts e reels, além do Capcut e do Canva.
“Muitas vezes não sei mexer no computador. Então, vou direto para a IA, que fórmula uma propaganda”, diz Sandra.
Ela tem vontade de aprender um curso voltado para as redes sociais para se especializar, por saber que as redes estão mudando a todo momento. Diferente da loja de eletrônicos que utilizam tráfego pago nos conteúdos, o petshop usufrui do material orgânico nas publicações. Sandra observa o que outros estabelecimentos estão produzindo, e vê o que pode ser adaptado para lançar na internet. Pacotes de banho Pacotes de banhos e promoção de roupas para os pets são alguns exemplos de conteúdo do pet shop. Figurinhas e emojis com os clientes exemplos de onde humaniza o cliente fortalecem a comunicação do negócio com o público, de acordo com Sandra.
Depois de estar nas mídias sociais, Sandra afirma que se tem mais visualizações, como consequência um movimento de clientes que pode ser potencializado através dos compartilhamentos. Segundo a proprietária, 60% da clientela vem da internet.
“Um cliente puxa o outro”, salienta.
Perguntada sobre o fim das redes sociais e o impacto no negócio, ela afirmou que afetaria tudo e muito nas vendas.
“Dificultaria bastante, pois as pessoas já se acostumaram. Tudo é voltado na internet. Ficaríamos perdidos.”
REDE SOCIAL QUASE ONIPRESENTE
De acordo com a pesquisa “Transformação Digital nos Pequenos Negócios” , feita pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas(Sebrae), em 2023, 7 em cada 10 pequenos negócios têm um perfil na rede de compartilhamento de fotos e vídeos para divulgar seus produtos e atrair novos clientes, com 64% das empresas presente no Instagram, seguido de 41% no Facebook. O restante, acompanha outras redes.
O Whatsapp, por sua vez, se consolida nas vendas on-line. Oito em cada dez empreendedores de pequenos negócios apontam como o principal canal de comunicação e vendas, presente em 82% dos microempreendedores individuais(MEIs) e micro e pequenas empresas, de acordo com os dados da 12ª edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, também realizada pelo Sebrae em abril deste ano.
“Os pequenos negócios fizeram da necessidade de novos meios de comércio uma oportunidade para aumentar as vendas, o que gera renda e cidadania”, afirmou Rodrigo Soares, presidente do Sebrae Nacional, em entrevista ao ASN.
“Eu olho para textos e sei que eles foram feitos com inteligência artificial”, relata Fernanda Fersula
Fernanda Fersula é especialista em marketing e co-fundadora do Instituto Sigales. Ela observa que a análise de métricas nas redes sociais acontece de forma lenta para muitos microempreendedores, mas enxerga como algo a se evoluir. Para isso, é fundamental entender o perfil do cliente para não errar e acabar entregando um serviço diferente que pode prejudicar as vendas.
“Já temos diversas possibilidades de uso de dados, mas são poucas empresas que olham as métricas na rede social. As pessoas sabem ver mas não estão sendo utilizadas de forma estratégica”, salienta.
Quanto ao uso de inteligência artificial, ela analisa como uma forma de conseguir referências e nunca usar o que está propriamente dito pela IA, pois rouba a autenticidade da empresa. Deve ter um olhar humano.Mas ela chama a atenção da utilização da ferramenta sem planejamento pode abrir a possibilidade de pasteurizar toda a comunicação, perdendo a essência da marca e misturando informações com vários nichos diferentes.
“Eu olho para textos e sei que eles foram feitos com inteligência artificial. Tem palavras, tem sequência, tem estrutura textual que é muito característica da IA”, observa Fernanda.
MARKETING INTEGRADO A ADMINISTRAÇÃO
Para o administrador e professor dos cursos de Administração e Marketing da Escola Senac de Pelotas, Paulo Ávila, o marketing é integrado na administração como ferramenta de gestão em decisões estratégicas, através de dados, tecnologia e análise do comportamento do consumidor. E afeta ainda mais o futuro da administração.
“A administração tende a se tornar mais analítica, ágil e centrada no cliente. Quem não se adaptar a essa lógica digital corre o risco de gerir empresas com ferramentas de um mundo que não existe mais”, esclarece.
Paulo afirma que dados como os canais e mídias onde o consumidor se encontra orientam o empreendedor a tomar decisões baseadas em evidência, e não no achismo, e que pequenas empresas podem profissionalizar a gestão, com pequenos passos, como separar finanças pessoais com as da empresa.
Mas, assim como Fernanda Fersula, ele alerta que se basear em apenas métricas digitais pode trazer riscos para a gestão, como as métricas de vaidade – as curtidas, um número expressivo de seguidores ou grandes comentários – que não fidelizam vendas, necessariamente.
“Métricas digitais são essenciais, mas devem ser combinadas com dados offline, pesquisa qualitativa e visão de longo prazo. Decisão boa usa o número como bússola, não como único mapa”, diz o professor.




