Setembro Amarelo reforça a importância da prevenção ao suicídio
A campanha realizada durante o mês de setembro busca ampliar o diálogo sobre saúde mental, combater o estigma e incentivar a busca por ajuda.
Por Pâmela Beiersdorf/ EmPauta
A campanha realizada durante o mês de setembro busca ampliar o diálogo sobre saúde mental, combater o estigma e incentivar a busca por ajuda.
Durante o mês de setembro, a campanha “Setembro Amarelo” promove ações de conscientização e prevenção do suicídio no Brasil. A iniciativa mobiliza órgãos públicos, instituições de saúde, escolas e organizações da sociedade civil para incentivar o diálogo sobre saúde mental e orientar a população sobre a importância de procurar ajuda diante de situações de sofrimento emocional. O “Setembro Amarelo” nos convida, antes de tudo, a falar. E falar, muitas vezes, é justamente o que alguém em sofrimento sente que não pode fazer. A campanha ajuda a romper o silêncio e a lembrar que a saúde mental também precisa de cuidado, escuta e espaço. Na perspectiva da psicanálise, não se trata apenas de eliminar a dor, mas de poder dar palavras àquilo que, muitas vezes, ainda não conseguiu ser dito. Quando existe alguém disposto a escutar, o sofrimento pode deixar de ser vivido de forma tão solitária. Ainda é muito importante falar sobre saúde mental porque o silêncio não faz o sofrimento desaparecer. Muitas pessoas continuam acreditando que precisam dar conta de tudo sozinhas, que pedir ajuda é sinal de fraqueza ou que precisam esconder aquilo que sentem. Falar sobre suicídio de maneira responsável não significa incentivar o ato. Significa criar possibilidades de cuidado. Às vezes, uma conversa pode ser o primeiro lugar onde alguém percebe que sua dor foi reconhecida.

Isabelle Alam é formada em Psicologia pela Universidade Católica de Pelotas e utiliza a abordagem psicanalítica. (Fonte da foto: Instagram da profissional)
Segundo a psicóloga Isabelle Alam, não existe um único comportamento que determine que alguém está em risco. Mas mudanças importantes podem chamar atenção, como a desesperança, o isolamento, a perda de interesse pelas coisas, as alterações no sono ou no apetite, as falas sobre morte, à inutilidade ou sobre não querer mais estar aqui. Também precisamos olhar para aquilo que não é dito. Às vezes, a pessoa continua trabalhando, sorrindo e cumprindo suas responsabilidades, mas internamente está atravessando uma dor enorme. “Uma mudança significativa em relação ao jeito habitual daquela pessoa merece atenção. Deixar de fazer coisas que antes proporcionavam prazer, afastar-se das pessoas, abandonar atividades, apresentar alterações bruscas de humor ou começar a organizar despedidas e assuntos pessoais podem ser sinais importantes. Às vezes, o cuidado começa justamente nessa percepção.”, afirma a psicóloga.
Quando o sofrimento psíquico se prolonga, ele pode estreitar a percepção que a pessoa tem de si mesma e do mundo. A ansiedade pode fazer o futuro parecer ameaçador; já a depressão pode fazer com que o futuro sequer pareça existir. E o isolamento pode intensificar tudo isso, porque quando se sofre sozinho, a dor pode parecer maior e as possibilidades, menores. Por isso, precisamos compreender o sofrimento não como uma fraqueza individual, mas como algo que precisa ser escutado e cuidado. A família e os amigos devem estar presentes sem tentar imediatamente consertar o outro. Nem sempre precisa ter a resposta certa. Muitas vezes, precisamos simplesmente conseguir permanecer diante da dor do outro sem fugir dela. Perguntar diretamente como a pessoa está, escutar sem julgamento, levar a sério falas sobre morte ou desesperança e incentivar a busca por ajuda profissional são atitudes importantes.
Os jovens, principalmente, vivem em uma época marcada por muitas exigências: precisam performar, escolher uma profissão, construir uma identidade, estabelecer relações e, muitas vezes, fazer tudo isso sob o olhar constante das redes sociais. Existe uma cobrança para estar bem, produzir, ser bonito, interessante, bem-sucedido e feliz. E quando a vida real não corresponde a essa imagem idealizada, pode surgir a sensação de inadequação. A adolescência e a juventude já são períodos de construção subjetiva. Quando essa construção acontece em um ambiente de comparação permanente, o sofrimento pode ganhar novas formas. Já as redes sociais não são, por si só, boas ou ruins. Elas podem aproximar, criar vínculos e oferecer espaços de pertencimento. Mas também podem produzir uma espécie de vitrine permanente da vida. O problema é que as pessoas acabam comparando o nosso cotidiano, cheio de contradições, com recortes cuidadosamente apresentados da vida dos outros. E começamos a acreditar que estamos sempre ficando para trás. Isabelle afirma que na psicanálise, sabe-se que o olhar do outro tem um peso importante na constituição do sujeito. E hoje esse olhar pode parecer estar o tempo inteiro presente. “É preciso construir espaços onde falar sobre sofrimento não seja motivo de vergonha. Isso significa oferecer escuta, acolhimento, informação sobre saúde mental, canais seguros para pedir ajuda e políticas que realmente considerem os limites humanos. Não basta falar sobre saúde mental em uma campanha uma vez por ano. É preciso construir uma cultura cotidiana de cuidado.”, diz a entrevistada.
A profissional Isabelle Alam nos conta que um dos maiores desafios enfrentados pelos profissionais de psicologia na prevenção ao suicídio é conseguir escutar a pessoa para além do comportamento aparente. O sofrimento nem sempre chega dizendo seu nome. Às vezes ele aparece como irritabilidade, silêncio, afastamento, excesso de trabalho ou até mesmo como uma tentativa desesperada de parecer bem. Também existe o desafio de trabalhar em rede, reconhecer situações de risco, respeitar os limites éticos da profissão e, ao mesmo tempo, não perder de vista a singularidade daquele sujeito. Na psicanálise, confirma a psicóloga, cada pessoa tem uma história e uma maneira própria de se relacionar com sua dor. Por isso, prevenir também é escutar aquilo que é singular.
Pensamentos e sentimentos de querer acabar com a própria vida podem ser insuportáveis e pode ser muito difícil saber o que fazer e como superar esses sentimentos, mas existe ajuda disponível. É muito importante conversar com alguém que você confie. Não hesite em pedir ajuda, você pode precisar de alguém que te acompanhe e te auxilie a entrar em contato com os serviços de suporte. Busque ajuda no CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde), em UPA 24H, SAMU 192, Pronto Socorro, hospitais e para o Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita).


