As violações dos Direitos Humanos no Brasil em “Holocausto Brasileiro”
Daniela Arbex denuncia os maus-tratos ocorridos no Hospital Colônia de Barbacena a partir de depoimentos de sobreviventes, ex-funcionários e pessoas diretamente envolvidas na rotina do maior hospício do Brasil
Por Pâmela Beiersdorf / Em Pauta
No livro “Holocausto Brasileiro”, a autora Daniela Arbex retrata as violações de direitos humanos ocorridas no “Colônia”, o maior hospício do Brasil, localizado na cidade de Barbacena, em Minas Gerais. O local foi palco de grandes atrocidades contra pessoas das mais diversas condições: pessoas com deficiência, trabalhadoras sexuais, alcoolistas, pessoas com epilepsia, pessoas LGBTQIAPN+, meninas cuja gravidez era indesejada, mulheres violentadas por seus patrões, homens e mulheres com documentos extraviados, ou pessoas que eram um incômodo para quem tinha mais poder. Cerca de 70% dos pacientes não tinham diagnóstico de doença mental. Ao menos trinta e três eram crianças.
Sessenta mil pacientes foram mortos, vítimas de todo tipo de violência, como maus-tratos e estupro. Morriam de frio, de fome, de choque e de espancamento. Muitas vezes, as pessoas comiam ratos; a sede era saciada com água de esgoto ou com urina. As pessoas ficavam nuas, viam-se jogados ao relento e, por vezes, não sobreviviam. Além disso, os corpos dos pacientes mortos eram vendidos para faculdades de medicina. Quando o mercado de cadáveres ficou saturado, os corpos foram derretidos em ácido para se comercializar os ossos.
A jornalista faz um levantamento dos horrores cometidos no Colônia, mas a impressão que passa é que podem ter acontecido mais coisas que não foram documentadas, que foram silenciadas. E milhares de pessoas morreram antes da oportunidade de contarem suas histórias. As violações aos direitos humanos são tantas, que é difícil saber por onde começar: desde crianças em berços apertados para seus tamanhos, pacientes que foram abusadas sexualmente, engravidaram e tiveram filhos, profissionais que não eram da área de saúde e torturavam e/ou matavam acidentalmente os pacientes com eletrochoque, as centenas de corpos que eram vendidos, pacientes usados como mão de obra gratuita, até o escândalo do hospital ser usado como depósito.
Holocausto Brasileiro é um lembrete de que o sistema não é perfeito, mas que os ambientes sem fiscalizações e condutas apropriadas podem causar danos que atravessam gerações, além da tentativa intencional de parte dos envolvidos em apagar essas identidades. As histórias que Daniela Arbex conta no livro-reportagem servem uma dose de afeto e esperança de memórias que vieram de um espaço insalubre, mergulhadas na escuridão e sofrimento.



