Os testamentos – Das filhas de Gilead

Baseada na obra de Margaret Atwood, a série aposta em uma narrativa de resistência, amadurecimento e crítica social para dar continuidade à história de Gilead. 

Por Bruna Palharini

 

Os Testamentos: Das Filhas de Gilead está disponível na plataforma de streaming Disney+. Foto: Disney+

Sombria, intensa e provocadora, Os testamentos – Das filhas de Gilead expande o universo de O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) ao apresentar uma nova geração de jovens vivendo sob o regime opressor de Gilead. Baseada no romance homônimo de Margaret Atwood, a série acompanha as trajetórias de Agnes e Daisy, duas adolescentes cujas vidas acabam se cruzando em meio às contradições e violências do sistema teocrático.

Diferentemente de sua antecessora, que era marcada por cenas de extrema brutalidade e pela perspectiva de June Osborne, Os Testamentos – Das Filhas de Gilead aposta em uma narrativa de amadurecimento, resistência e descoberta. A série mantém o clima de tensão característico de Gilead, mas direciona o foco para as jovens que começam a questionar as estruturas que sustentam o regime.

O grande destaque está na construção das protagonistas. Agnes representa a obediência ensinada desde a infância, enquanto Daisy surge como uma personagem mais questionadora e inquieta. À medida que a trama avança, ambas descobrem segredos sobre suas origens e passam a enxergar a realidade de Gilead sob uma nova perspectiva. Essa transformação é conduzida de maneira envolvente, criando identificação com o público.

A série conta com 10 episódios, todos já disponíveis. Foto: Disney+

Os Testamentos também destaca a importância da amizade como ferramenta de sobrevivência em um ambiente marcado pelo medo e pela repressão. Ao longo da trama, os laços construídos entre as personagens femininas funcionam como espaços de acolhimento, confiança e fortalecimento mútuo. Em uma sociedade que busca isolar as mulheres e colocá-las umas contra as outras, a amizade surge como uma forma de resistência silenciosa, permitindo que as protagonistas compartilhem dúvidas, medos e esperanças. Dessa forma, a série mostra que, mesmo em contextos de extrema opressão, as conexões humanas podem se tornar um elemento fundamental para a busca por liberdade e transformação. 

Visualmente, a série preserva a estética fria e opressora já conhecida pelos fãs da franquia. Os enquadramentos simétricos, a fotografia marcada por tons sóbrios e a trilha sonora discreta reforçam a sensação constante de vigilância e controle. Ao mesmo tempo, a produção introduz novos espaços e personagens que ampliam o universo narrativo.

Outro destaque é a permanência de Tia Lydia, personagem que continua sendo uma das figuras mais complexas do universo criado por Atwood. Sua presença adiciona camadas de ambiguidade moral à narrativa, tornando ainda mais difícil separar claramente os aliados dos inimigos dentro do sistema.

Mais do que uma continuação, Os Testamentos busca construir sua própria identidade. Ao colocar jovens mulheres no centro da história, a série aborda temas como formação política, questionamento de estruturas de poder e a importância das novas gerações na construção de mudanças sociais. O resultado é uma produção que preserva a força crítica de O Conto da Aia enquanto apresenta novos caminhos para a franquia. 

Com uma narrativa consistente, personagens bem desenvolvidas e discussões que dialogam diretamente com questões contemporâneas, Os Testamento – Das Filhas de Gilead se firma como uma sequência relevante e capaz de manter vivo o interesse pelo universo de Gilead. Para os fãs da série original, é uma oportunidade de revisitar esse mundo sob uma nova perspectiva; para novos espectadores, uma porta de entrada para uma história que continua provocando reflexões sobre liberdade, poder e direitos das mulheres. 

Comentários

comments

Você pode gostar...