Asilo de Mendigos de Pelotas completa 144 anos de história

Em uma das cidades mais envelhecidas do país, a instituição combina acolhimento, histórias de vida e a luta contra o abandono na terceira idade

Idosos hospedados no asilo recebem atenção de familiares. Imagens: Arthur Mendes e Emanuelle Vilasbôa ] Em Pauta

Arthur Mendes / Em Pauta

Emanuelle Vilasbôa ] Em Pauta

Entre o vai e vem da movimentada rua Dr. Amarante, por trás das paredes de um dos tantos casarões da antiga Pelotas, escondem-se incontáveis histórias, vivências e afetos. O Asilo de Mendigos, ao longo de 144 anos, tornou-se o lar de pessoas que buscam paz e descanso no ciclo final da vida, ainda que, muitas vezes, passam despercebidas pela sociedade. Ali, não encontram apenas cuidados voltados à terceira idade, mas também uma nova família e um porto seguro para chamar de lar.

Local conta com espaços para orações e cuidados religiosos

Desde a sua fundação, a instituição idealizada pelo jornalista Antônio Joaquim Dias, em 1882, narra a filantropia de Pelotas. O projeto foi realizado pela elite da cidade, com o objetivo de oferecer apoio à região no período pós guerra do Paraguai, e desde então, continua com sua missão de prestar auxílio aos necessitados. Nos dias atuais, o asilo é reconhecido como a maior instituição do gênero no Rio Grande do Sul. Entre os mais de 100 moradores, a grande parte está em situação de vulnerabilidade social e/ou enfrentam problemas de saúde que os deixam debilitados. Mas uma coisa que todos têm em comum, é o desejo de serem ouvidos e de compartilharem suas histórias, experiências e conhecimentos.

O Rio Grande do Sul é o estado que lidera o ranking nacional de maior percentual de idosos e o  censo de 2022 revelou que em Pelotas 21% da população do município tem 60 anos ou mais. Ou seja, são mais de 70 mil idosos. Isso coloca Pelotas como a oitava cidade com maior número de idosos proporcionalmente à população entre os grandes municípios brasileiros. Nesse cenário, o abandono de idosos deixou de ser uma exceção. Entre 2022 e 2023, o número de denúncias no Brasil cresceu 85%. Em 2024, foram registradas mais de 62 mil denúncias. Quando o valor da vida passa a ser medido pela produtividade, envelhecer se torna um risco, e o abandono, uma consequência.

Patricia Dutra Frank, assistente social, mestre em políticas públicas e direitos humanos e atual diretora do Asilo de Mendigos, falou sobre o funcionamento da instituição e algumas de suas experiências.

– Aqui no asilo a gente trabalha com mais de 100 idosos, muitos deles em vulnerabilidade social. A maior parte deles tem várias comorbidades, muitos deles são cadeirantes ou acamados, o que potencializa um pouco mais o trabalho – afirma Patrícia.

Atualmente, todas as 105 vagas da instituição estão ocupadas. Patrícia destaca que são raras as situações em que há vagas disponíveis, pois a procura é muito grande. O processo de entrada é simples: uma entrevista com algum familiar e com o idoso, além do preenchimento de uma ficha socioeconômica.

“Nossa ideia é atender os mais vulneráveis primeiro”, afirma a assistente social.

Patricia Dutra Frank, assistente social é hoje diretora da instituição

O Asilo de Mendigos, instituição historicamente marcada pela filantropia e sustentada, em grande parte, pelo apoio da população pelotense, funciona de maneira semelhante no acolhimento aos idosos. Segundo a diretora da instituição, o custo mensal de cada idoso é de aproximadamente R$4.500, valor que engloba moradia, alimentação, cuidados permanentes e acompanhamento profissional. Quando há familiares com condições financeiras, cerca de 70% desse valor é custeado por eles, enquanto o restante é obtido por meio de doações da comunidade, emendas parlamentares, parcerias institucionais e eventos de arrecadação. No asilo, os idosos contam com médicos disponíveis 24 horas por dia, além do trabalho de fisioterapeutas, nutricionistas e cuidadores, somando-se a isso os gastos com refeições, medicamentos, materiais e outros custos operacionais necessários para garantir um atendimento digno.

Entretanto, os cuidados oferecidos pelo asilo vão muito além das necessidades básicas. A instituição mantém uma rotina que inclui a realização de eventos, sessões de filmes, bailes, missas e outros momentos de convivência, que se tornam parte do cotidiano daqueles que passam seus dias no local. Patrícia relata que um dos principais cuidados com os idosos é justamente a preocupação em transformar a instituição em um espaço que se aproxime de um lar, fazendo com que os moradores se sintam acolhidos, respeitados e em casa.

– É muito importante eles terem esse lugar como uma casa. Tem um cheiro de uma casa, um jeito de uma casa, o mais parecido possível com uma casa. Não com um hospital. Não é um hospital, eles moram aqui, eles não vão sair daqui mais.

A diretora também relata que nenhum idoso é obrigado a permanecer na instituição e conta uma história que emociona:

– Teve um senhor cuja esposa estava com Alzheimer, já em fase terminal. Ele sofria muito ao vê-la sempre na cama e não entendia completamente a situação dela; já tinha mais de 80 anos. Ele decidiu vir para o asilo meio no susto. Ficou uma semana e, na segunda, começou a chorar de saudade dela, porque disse que eles eram casados havia mais de 60 anos e que nunca tinha dormido tanto tempo longe da esposa. Então, isso não tem a ver com a casa em si, tem a ver com o pertencimento. É pensar: eu tenho a minha casa, minha esposa, meus filhos, e agora todo mundo está lá e só eu estou aqui. E isso é o mais complicado – relata

Asilo te pátio e locais ao ar livre

Felizmente, a diretora afirma que, no Asilo de Mendigos, a maioria das famílias mantém o hábito de visitar os idosos. Ela também destaca que essas visitas são necessárias e ativamente incentivadas pela instituição, especialmente em datas festivas, como aniversários e o Natal, para que os moradores preservem o senso de pertencimento. Entre as histórias vividas dentro da instituição, é possível perceber que os vínculos criados vão além do cuidado formal, e muitos idosos passam a se reconhecer como parte de uma grande família.

Entre as histórias silenciosas e marcantes que se acumulam ao longo dos anos dentro do Asilo de Mendigos, Patrícia é hoje a responsável por assegurar que o fim da vida dos moradores seja vivido com dignidade, cuidado e respeito. Ao exercer esse papel, ela dá continuidade a uma história que não se sustenta apenas em paredes ou recursos, mas sobretudo na solidariedade e na participação constante da população pelotense, que mantém a instituição viva.

Asilo de Mendigos de Pelotas

Endereço: Parque Dom Antônio Zattera, 338
Telefone: (53) 3222-4762
Doações: Na sede do Asilo ou via Pix: 92.239.383/0001-73
Visitas: De segunda a sábado, das 8h às 17h30. 

Capela do Asilo atende os idosos que vivem na casa

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