Carolina Maria de Jesus: a vida por trás de “Quarto de despejo” vai parar nas telonas
Cinebiografia estrelada por Maria Gal chega aos cinemas em 2027 e conta a trajetória da escritora que virou best-seller escrevendo sobre a sua vida na favela do Canindé
Por Franciele Vargas / EmPauta
O filme “Carolina Maria de Jesus” teve seu primeiro trailer divulgado neste mês de setembro. Dirigido por Jeferson De e estrelado por Maria Gal, que também assina a produção, o filme é inspirado em Quarto de despejo: diário de uma favelada e chega aos cinemas em 2027. O elenco reúne nomes como Fábio Assunção, Caio Manhente, Liza Del Dala e Raphael Logam. Vera Eunice, filha de Carolina, e a escritora Conceição Evaristo também participam do longa.
Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, em Sacramento, Minas Gerais. Estudou só até a segunda série do ensino fundamental, mas, mesmo com pouco tempo de escola, criou um gosto forte pela leitura e pela escrita, um hábito que ela descreveria assim, anos depois, em seu diário: “Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.”
Em 1927, trabalhou como lavradora em uma fazenda no interior de São Paulo e, na cidade, como empregada doméstica. Voltou para sua cidade natal em 1932 e, no ano seguinte, foi presa injustamente em Sacramento, junto com a mãe, depois de ser vista lendo um dicionário: os soldados, quase todos analfabetos, pensaram que o livro era um manual de feitiçaria. As duas passaram dias na cadeia e foram chicoteadas. Depois de soltas, voltaram para Franca, no interior de São Paulo. Hoje, o prédio onde funcionava a antiga cadeia abriga a Secretaria de Cultura de Sacramento, que guarda os manuscritos de Carolina.
Foi em Franca, em 1936, que ela escreveu seu primeiro verso, como despedida a uma freira de quem gostava, na Santa Casa onde trabalhava. Só em 1940 seu nome apareceu pela primeira vez no jornal, a Folha da Manhã publicou uma reportagem com uma foto dela ao lado do jornalista Willy Aureli, sob o título “Carolina Maria, poetiza preta”.
Em 1948, mudou-se para a favela do Canindé, em São Paulo. Foi lá que teve seus três filhos: João José de Jesus, nascido em 1949; José Carlos de Jesus, nascido em 1950; e Vera Eunice de Jesus, a caçula, nascida em 1953. Trabalhava catando papel e, ao voltar para casa, escrevia sobre o dia a dia em um diário.
Em 1958, o jornalista Audálio Dantas publicou trechos desse diário no jornal Folha da Noite. Dois anos depois, saiu o livro Quarto de despejo: diário de uma favelada, que se tornou rapidamente um dos maiores sucessos do país. Ainda em 1960, Carolina foi homenageada pela Academia Paulista de Letras. No final de agosto daquele ano, ela deixou a favela do Canindé e se mudou para Osasco.
O sucesso repentino de Quarto de despejo mudou em parte a vida de Carolina. Com o dinheiro das vendas, ela comprou uma casa de alvenaria no bairro Santana, na Zona Norte de São Paulo, e viajou pelo Brasil e pela América Latina para o lançamento do livro.
Em 1961, o livro chegou à Dinamarca, à Holanda e à Argentina. Em abril daquele ano, estreou uma peça baseada na obra, dirigida por Amir Haddad e com Ruth de Souza no papel de Carolina. No ano seguinte, Quarto de despejo chegou também à França, à Alemanha Ocidental, à Suécia, à Itália, à Checoslováquia, à Romênia, à Inglaterra, aos Estados Unidos e ao Japão. Em 1963, Carolina lançou o romance Pedaços da fome e o livro Provérbios, este último com edição da própria autora.
Em 1969, mudou-se para um sítio em Parelheiros, onde escreveu seus últimos textos. Em 1971, foi tema de um documentário da diretora alemã Christa Gottmann-Elter sobre sua vida, Favela: a vida na pobreza, mas a censura da ditadura militar proibiu de exibir no Brasil.
Carolina Maria de Jesus morreu em fevereiro de 1977, aos 63 anos, vítima de insuficiência respiratória.
O reconhecimento veio devagar, e boa parte dele só chegou depois da morte. Em 1978, um ano após seu falecimento, o nome de Carolina batizou os Cadernos Negros, uma publicação coletiva que ajudou a formar gerações de escritores negros. Em 2017, Quarto de despejo entrou na lista de leituras obrigatórias do vestibular da Unicamp; dois anos depois, o Google estampou seu rosto em um doodle pelos seus 105 anos. Já 2021 reuniu os gestos mais simbólicos: a UFRJ deu a ela o título de doutora honoris causa, uma estátua foi inaugurada em Parelheiros e Quarto de despejo finalmente chegou às livrarias portuguesas, 60 anos depois de ter sido barrado pela censura do Estado Novo português. Em 2023, o Ministério da Cultura criou o Prêmio Carolina Maria de Jesus, voltado à literatura escrita por mulheres.
O interesse por Carolina Maria de Jesus continua crescendo. Em maio de 2026, a cinebiografia, que chega aos cinemas em 2027, foi premiada no Festival de Cannes, no programa Goes to Cannes. Ainda assim, seu nome segue pouco conhecido fora dos círculos de literatura e cultura negra. Maria Gal, que também produz o filme, disse em entrevista ao G1 que “é urgente que o país conheça muito mais a Carolina”.
“O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”, escreveu Carolina em Quarto de despejo. Mais de sessenta anos depois, essa frase segue nos lembrando o legado de uma mulher que usou a literatura para contar sobre a fome, a desigualdade e a pobreza presentes no nosso país, a partir da própria experiência. Em 2027, o cinema será mais uma oportunidade de levar essa história a novos públicos.




