Quando os oprimidos se tornam os opressores: a atualidade de “A Revolução dos Bichos”
Em uma fazenda dominada pela desigualdade, George Orwell escreve um livro que revela como o poder pode corromper ideais de liberdade, igualdade e justiça

“A Revolução dos Bichos” é uma leitura curta, simples e necessária. Foto: Amazon/ reprodução Em Pauta
Pâmela Beiersdorf da Silva / Em Pauta
“A Revolução dos Bichos” é uma ficção distópica que foi escrita em 1945 por George Orwell. A obra retrata uma sátira da ditadura soviética, com exemplos reais de poder, política e relações humanas. A história conta a rotina dos animais que vivem insatisfeitos com a exploração praticada na Granja Solar, praticada pelo dono da propriedade, o Sr. Jones, um homem difícil e viciado em álcool. Levando em consideração essa insatisfação, um porco chamado Major conta para todos os outros animais da fazenda que teve um sonho no qual todos eles viveriam uma vida feliz, sem serem explorados, com muita comida e longe dos humanos. Desse modo, Major Porco propõe uma revolução para expulsar o Sr. Jones da fazenda, o que acabaria com submissão dos bichos aos seres humanos. Os animais discutem e desejam a construção de uma sociedade ideal. Para isso, eles criam um conjunto de regras e começam a pensar na revolta contra o Sr. Jones. Porém, Major Porco morre, mas a ideia transmitida por ele é seguida por seus amigos e resulta em uma revolução. Após a morte de Major, quem assume o poder de influenciar a Revolução dos Bichos são outros dois porcos – Napoleão e Bola de Neve. No livro, os porcos são os animais mais inteligentes e que lideram o local. Eles foram mais instruídos e sabem ler e escrever. Com os ideais do Major em mente e com a adesão de todos os animais da fazenda, o Sr. Jones é expulso da granja, junto de todos os humanos que lá viviam e o local passa a se chamar Fazenda dos Bichos.
Assumindo o poder e longe da influência humana, os porcos decidem criar os sete mandamentos, que serviriam de regras para todos os animais, sendo algumas delas: “Tudo que tem duas pernas é inimigo”; “Ter asas ou quatro patas significa amigo”; “Igualdade entre todos os animais”. Inicialmente, tudo parece funcionar bem. Os animais trabalham juntos e acreditam estar construindo uma sociedade mais justa. Além disso, os animais passam a considerar os porcos os mais inteligentes e, por isso, eles assumem naturalmente as posições de liderança.
Todavia, Napoleão prova ser um líder sedento de poder. Ele rouba o leite das vacas e várias maçãs para alimentar não apenas a si próprio, mas também outros porcos, além de começar a distorcer os ideais da revolução para servir aos seus próprios interesses. As promessas de liberdade e igualdade são substituídas por um regime mais opressor e corrupto. As regras estavam sendo seguidas, mas divergências de opiniões entre Napoleão e Bola de Neve começaram a colocar em risco a harmonia da fazenda. Os porcos alteram discretamente os mandamentos, desencorajam os questionamentos sobre determinadas decisões e permitem que eles concentrem cada vez mais poder. Enquanto isso, os outros animais continuam trabalhando intensamente, sendo submetidos à escassez e à obediência e aceitando explicações cada vez mais absurdas para justificar aquilo que acontece ao seu redor. Napoleão decide expulsar Bola de Neve da fazenda, levantando contra ele uma série de acusações. Napoleão acaba por convencer todos os outros animais a se rebelarem contra o ex-líder. Por fim, Bola-de-neve é considerado traidor e expulso da granja.
Com o passar do tempo, os porcos decidem habitar a casa em que vivia o Sr. Jones. Indignados por estarem tendo uma qualidade de vida péssima, os animais explorados começam a discutir sobre uma revolução. Os animais acabam mortos por serem cúmplices do porco Bola-de-neve. O comportamento dos animais que não tinham conhecimento e não eram alfabetizados comprometia a capacidade de lutar pelos seus ideais. É nesse ponto que George Orwell frisa a importância da falta de conhecimento que os animais tinham, pois, se o tivesse, não ficariam à mercê das falsas promessas do líder. No final do livro, os porcos se misturam aos seres humanos proprietários das outras fazendas, inclusive andando sob duas patas. Já os sete mandamentos tornam-se apenas um: “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”.
“A Revolução dos Bichos” aborda temas como as fraquezas humanas, o poder, a revolução, o totalitarismo e a manipulação política. Com uma linguagem simples e utilização de discursos diretos, a obra traz reflexões sobre organizações políticas e econômicas. As teorias conspiratórias, informações falsas, discursos políticos simplistas e a necessidade constante de encontrar culpados mostram como até hoje líderes e grupos podem manipular uma população quando ela deixa de analisar criticamente as informações que recebe. Orwell também sugere que a falta de educação e de pensamento crítico pode tornar indivíduos e grupos mais vulneráveis à manipulação política. A principal advertência de Orwell é que mudar os ocupantes do poder não é suficiente para transformar uma sociedade. Sem igualdade efetiva, acesso à informação e mecanismos de controle, a promessa de libertação pode se converter em uma nova forma de opressão.

George Orwell foi um escritor, jornalista e político inglês. Suas principais obras foram “A Revolução dos Bichos” e “1984”. Foto: Aventuras na História/ Em Pauta

