Como a ‘Sala das Pretas’ constrói redes de acolhimento e permanência na UFPEL
Ação do Projeto Círculo de Estudos das Práticas Anti Racistas (CEPRANTI), iniciativa alia o estudo de pessoas negras a apoio pedagógico
Maria Antônia Avila/ EmPauta
Garantir a permanência no ensino superior não é apenas sobre viabilizar moradia, alimentação ou auxílios financeiros. No ambiente acadêmico, o sentimento de pertencimento, a saúde mental e o fortalecimento da autoimagem são pilares decisivos no combate à evasão. Com essa premissa, a pedagoga e técnica administrativa da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Josy Dias Anacleto, desenvolve a “Sala das Pretas”, uma ação pedagógica e de acolhimento voltada ao suporte subjetivo, intelectual e afeto de alunas negras na universidade.
Com suas primeiras edições em 2022, a Sala das Pretas surgiu a partir da escuta ativa em atendimentos e da percepção de demandas trazidas pelas próprias estudantes. Josy Dias Anacleto, pedagoga da PRAE e idealizadora da iniciativa, relata que o espaço foi concebido como uma modalidade de apoio pedagógico para responder aos relatos recorrentes de racismo e isolamento enfrentados no cotidiano acadêmico e para que as alunas possam ter uma melhor qualidade de aproveitamento no período em que estão na universidade.
– Nessa sala vinham muitas meninas e me perguntavam. — Tu não percebe essa cidade como ela é racista? Tu não acha que aqui na UFPEL tem muito racismo? — Eu não percebia o quanto a universidade podia ser racista. Como eu era a primeira pessoa preta da equipe, era comigo que elas se sentiam à vontade para dizer que estavam sofrendo racismo e que não eram ouvidas. Percebi que precisávamos de algo para que essas estudantes, principalmente as mulheres, se sentissem acolhidas- explica Josy Anacleto.
Nas primeiras edições, a ação realizava encontros quinzenais com pequenos grupos. Com o aumento da procura, divulgação e a necessidade de criar um espaço constante de trocas, os encontros passaram a ocorrer semanalmente, em horários de entreturnos (das 17h30 às 19h30), viabilizando a participação tanto de quem encerra o turno da tarde quanto de quem inicia as aulas à noite.
Leitura e formação intelectual
A dinâmica dos encontros une compartilhar vivências aos estudos e vida de grandes pensadoras e intelectuais negras. Nomes como Lélia Gonzalez, Neusa Santos, Beatriz Nascimento, Cida Bento, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e Grada Kilomba estruturam os debates do grupo. A Sala combina a troca de experiências pessoais com o aprofundamento teórico. Consiste em uma roda de experiências e vivências dentro da universidade onde as alunas compartilhar seus relatos, depois entram as leituras, uma autora é escolhida e sua vida e obra é trabalhada em grupo, assim aproximando essa realidade a das participantes da Sala. Para Josy, a escolha por focar a formação em intelectuais negras tem um caráter político e emancipatório, suprindo uma lacuna histórica da formação acadêmica tradicional: “Eu sou formada em Pedagogia e não tive no meu currículo nenhuma dessas autoras. Politicamente, optei por falar sobre mulheres negras para incentivar o conceito de intelectualidade negra ainda na graduação.” afirma a mesma.
O impacto na vivência estudantil e na permanência
Natural de Pelotas, a estudante do curso de Enfermagem Christiele Luz, de 24 anos, relata que buscou a Sala das Pretas atraída pelo desejo de estudar autoras negras e encontrar um espaço de identificação. Para ela, o acolhimento oferecido pelo grupo foi construído coletivamente.
– A Sala trouxe para mim um espaço verdadeiramente de afeto, porque não foi uma coisa dada, a gente construiu a Sala, as ideias e o afeto entre nós. Ter esse espaço significa muito porque escuta e acolhimento são coisas bem difíceis dentro da UFPel. O projeto me fez conhecer autoras que eu não conhecia e ver a universidade sob outro olhar. A gente realmente vira amiga e nós ajudamos a combater as dificuldades e a se fortalecer – relata Christiele.
Na mesma linha, Camille Silveira, de 21 anos, também pelotense e aluna de Administração, ingressou na UFPel em 2023 e conheceu a Sala por meio de amigas da Geografia e da História. Ela relata que o primeiro contato foi decisivo para lidar com a ansiedade e a fobia social: “Apesar do nervosismo, me senti bem pois a sala trazia um ar de acolhimento e cuidado. Me sentia valorizada.”
As leituras e debates realizados nos encontros fornecem ferramentas críticas para encarar as dinâmicas de exclusão dentro dos cursos. As participantes destacam o impacto de discutir a universalidade branca e o “pacto da branquitude” a partir do estudo de autoras como Cida Bento e Lélia Gonzalez. Estar em cursos elitistas e predominantemente branco, onde as visões são pensadas a partir da pessoa branca, heterossexual e cisgênera, mostra como é preciso discutir a universidade nessa perspectiva e debater a partir da visão de autoras e pensadoras negras é um passo em direção a mudanças dentro da universidade. Vivenciadas pelas estudantes, elas complementam que essas leituras as ajudaram a dar nome às suas próprias experiências. Relatam que era como ler sobre suas próprias vivências nas palavras de outra pessoa, compartilham seus pensamentos em grupo e se identificam umas com as outras nesse espaço, o que mostra o impacto de mecanismos voltados ao pertencimento dentro da academia.
Permanência e o contexto regional
A atuação da Sala das Pretas ganha contornos ainda mais relevantes diante da realidade geográfica e social em que a UFPel está inserida. Logo, a promoção desses debates exige coragem e apoio institucional em uma região marcada por estruturas conservadoras.
– A universidade deveria valorizar este tipo de projeto, pois ele trabalha assuntos polêmicos em uma região tão branca e conservadora como o Sul do Rio Grande do Sul. Pessoas negras se sentirem acolhidas e vistas neste extremo do país faz toda a diferença academicamente, socialmente e psicologicamente. Faz com que a solidão em meio às dificuldades seja mais amena, a violência mais enfrentável e o caminho acadêmico menos bagunçado – conclui Camille.
Com uma recepção consolidada entre as estudantes, a Sala das Pretas segue como uma referência de ação afirmativa transversal na UFPel, demonstrando que a permanência estudantil se constrói na articulação entre suporte material, acolhimento subjetivo e valorização da ancestralidade.





