Anjos Cruéis: uma análise sobre o lado obscuro da infância

Capa do livro Anjos Cruéis: Casos Reais de Pequenos Assassinos, de Daniel Cruz, publicado pela editora DarkSide Books. Foto: Beatriz Afonso
Por Beatriz Afonso / EmPauta
A obra Anjos Cruéis, de Daniel Cruz, escritor brasileiro considerado um dos pioneiros do true crime no Brasil, reúne mais de 20 análises de casos criminais cometidos por crianças. O autor narra detalhadamente como seres considerados puros e inocentes também são capazes de manipular, roubar e cometer crimes hediondos, chegando a receber as penas máximas previstas para os crimes cometidos. Dentre tantos casos citados na pesquisa de Cruz, um deles é o de Mary Bell, uma garota de apenas 11 anos que foi sentenciada por múltiplos assassinatos de crianças de sua vizinhança.
O autor também narra casos que inspiraram livros, como o de Liza Long, The Price of Silence: A Mom’s Perspective on Mental Illness, sob a perspectiva de uma mãe que descreve os horrores de conviver com um filho que apresenta um transtorno de personalidade antissocial (ou, como era antigamente rotulado, psicopatia infantil). Daniel aponta dois motivos predominantes que podem levar uma criança a cometer tais crimes. O primeiro é a genética, em que a parte do cérebro responsável pelo processamento de emoções como remorso e empatia não funciona adequadamente. O segundo motivo é o ambiente externo e a criação, em que a criança foi exposta desde cedo a múltiplos abusos, negligência e familiares de natureza instável.

Contracapa de Anjos Cruéis, que apresenta elementos visuais relacionados aos casos reais de violência infantil abordados na obra de Daniel Cruz. Foto: Beatriz Afonso
O que me interessou nesse livro é como ele traz casos criminais reais que distorcem completamente o imaginário coletivo acerca da infância e nos propõe as seguintes reflexões: crianças são tão capazes de cometer crimes quanto os adultos? Podem seres inocentes ser capazes de enganar, roubar, manipular, destruir e até mesmo matar? O que leva uma criança a cometer tais atos de violência? Além desses questionamentos, Cruz também discute a responsabilidade parental e até que ponto a família pode intervir ou mesmo influenciar se uma criança irá se tornar futuramente um psicopata.
O autor também traz uma questão interessante sobre como o rótulo “psicopata infantil” é prematuro e irresponsável, pois, ao fazer isso, o profissional tira completamente a perspectiva de melhora da criança ou do adolescente e o condena a um destino definitivo, sem qualquer possibilidade de mudança. Afinal, nem todo indivíduo com transtorno de personalidade antissocial irá matar; muitos convivem em sociedade e compreendem conceitos como empatia, ética e justiça. Do mesmo modo, nem todo criminoso homicida se enquadra nesse transtorno.
Desse modo, o livro Anjos Cruéis, de Daniel Cruz, nos traz uma perspectiva nova e distinta sobre a infância e a influência do meio sob o indivíduo. O autor realiza uma pesquisa detalhada sobre casos criminais de diversos países, incluindo o Brasil, que chocaram a população por envolverem menores de idade. A coletânea é extremamente útil para estudantes de psicologia e criminologia, ou até mesmo para aqueles que se interessam pelo universo do true crime e pelo estudo do comportamento humano.

