Pandemia Emocional: Ansiedade e os Caminhos para Retomar o Presente
Num país que lidera o ranking mundial de afetados por transtornos de ansiedade, compreender os sintomas e soluções se tornou uma necessidade de saúde pública
Por Pedro de Almeida/ Em Pauta
Por trás do som alto do despertador e da luz fria da tela do celular logo nos primeiros segundos da manhã, esconde-se um ciclo silencioso que atinge milhões de pessoas. A rotina acelera, as demandas se acumulam e a mente projeta, a todo momento, os cenários do minuto seguinte. Viver assim tornou-se um padrão social, mas a que custo?
Em 2024, o Brasil registrou 472 mil licenças médicas por transtornos mentais, um salto de 68% em relação ao ano anterior, segundo dados do Ministério da Previdência Social. A ansiedade figura entre as principais causas desse afastamento no ambiente de trabalho.
O Alarme da Mente: Quando o Futuro É Agora
Para muitos, a jornada diária começa antes mesmo dos pés tocarem o chão. A resposta imediata a notificações e o rolamento compulsivo de feeds de notícias colocam o cérebro em estado de alerta permanente.
A psicóloga clínica Josiane Espanton desmistifica a ideia comum de que a ansiedade se refere apenas a preocupações de longo prazo.
— É um pouco clichê dizer que a ansiedade é viver no futuro, porque as pessoas pensam no futuro daqui a um ou dois anos. Na verdade, não. A ansiedade é viver o agora no momento a seguir.
Essa aceleração constante gera um desgaste cognitivo invisível. A ilusão da multitarefa — como responder a mensagens enquanto se escova os dentes ou toma café — atua na verdade como um dreno de energia mental.
O psiquiatra Gustavo Rosa alerta para o risco de encarar essa aceleração constante como algo inevitável da rotina moderna:
— Hoje todo mundo fala de saúde mental, mas existe o risco de banalizar e normalizar o adoecimento social. O fato de todo mundo ter ansiedade não quer dizer que não precisa ser olhado com cuidado. Que caminhos estamos fazendo como sociedade que levam a tanto burnout e sofrimento?
O corpo grita: sintomas psicossomáticos
Quando a mente atinge o limite do estresse sem expressar o sofrimento em palavras, o corpo assume o alarme. A separação entre saúde física e emocional, segundo os especialistas, é puramente artificial.
A psicóloga Nicolly Fernandes vivenciou na pele os efeitos do acúmulo de demandas e da privação de descanso. “Em 2024, percebi traços de burnout com sintomas ansiosos e depressivos. Eu trabalhava em um ambiente que exigia muito, virava 24 ou 36 horas direto. Comecei a perceber o impacto quando vi que, morando na capital, não tinha mais vontade de sair à rua em dias de sol — algo que sempre foi minha maior paixão”, desabafa Fernandes.
Ansiedade ou Ataque Cardíaco?
A dor no peito, a falta de ar e o formigamento nos membros são reações frequentes em crises agudas, levando muitos pacientes direto às emergências hospitalares.
O mestrando Ewerton Mello relata a confusão enfrentada durante momentos de pico de estresse. “Confundia a dor no peito e a falta de ar com problemas no coração. Sentia formigamento na boca, no braço. O ápice foi durante uma prova: eu tinha estudado o conteúdo, mas na hora de preencher meu próprio nome, não sabia o que colocar”, conta Ewerton Mello.
O psiquiatra Gustavo Rosa explica que a dificuldade em nomear o que se sente faz com que o organismo ‘converta’ a dor psíquica em dor física:
— O corpo grita quando a mente silencia. Quando a pessoa tem transtornos de pânico ou ansiedade somática, os sintomas simulam um ataque cardíaco. Se a dor é melhor explicada pelo contexto emocional, isso mostra que precisamos aprender a falar sobre os nossos sentimentos.”
A Engrenagem do Adoecimento: Redes Sociais, Trabalho e Ruminação
Três fatores centrais retroalimentam o ciclo da ansiedade na sociedade contemporânea:
- Ruminação Mental: O pensamento automático entra em looping, remoendo erros passados ou antecipando catástrofes sem partir para ações resolutivas.
- Dificuldade em Estabelecer Limites: A incapacidade de dizer “não” a demandas externas sob o medo de decepcionar, priorizando o outro em detrimento do próprio bem-estar.
- Cultura do Hiperestímulo Digital: Dados da OMS apontam que a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou 25% pós-pandemia, impulsionada pelo uso contínuo de telas e comparação social.
A Ilusão do Status pela Correria
Conforme ressalta Josiane Espanton, a hiperconectividade à noite e a busca por aprovação social transformaram a exaustão em um símbolo de valor individual. Ela complementa:
— Parece que as pessoas têm prazer em dizer que a vida está corrida e a agenda está cheia. Dá uma falsa sensação de importância. Mas alimentar essa rotina até o momento de deitar arruina a higiene do sono, gerando insônia e um dia seguinte desorganizado.
O Caminho de Volta: Práticas e Tratamentos Eficazes
Sair do ciclo da ansiedade patológica exige a combinação de intervenções clínicas e reestruturação da rotina diária.
O exercício físico como tratamento primário
Estudos recentes mostram que a atividade física deixou de ser apenas um coadjuvante no bem-estar mental. Uma pesquisa publicada pelo National Institutes of Health (NIH) destaca ainda que a prática de esportes coletivos reduz drasticamente o risco de ansiedade em comparação a modalidades individuais (7% contra 13%), devido ao fator de socialização e pertencimento.
Nicolly Fernandes encontrou no movimento o ponto de virada:
— Comecei a praticar corrida e CrossFit. Foi fundamental psicologicamente, pois era o único momento do dia em que eu conseguia me desligar completamente do trabalho e das preocupações.
Segundo o psiquiatra Dr. Gustavo Rosa, a atividade física deixou de ser vista apenas como uma terapia complementar para se consolidar como uma opção de tratamento primário para a ansiedade. O especialista destaca que o exercício não atua mais somente como um auxílio secundário, podendo representar a intervenção principal na recuperação de muitos pacientes.
Reestruturação cognitiva e atenção plena
Na terapia, uma das técnicas utilizadas é a reestruturação cognitiva, onde o paciente aprende a desmontar pensamentos catastróficos e a organizar suas prioridades de forma realista. Práticas de mindfulness (atenção plena) e a retomada de hobbies também auxiliam o cérebro a entrar no chamado estado de flow — momentos de absorção positiva que liberam serotonina e dopamina.
Sob a perspectiva neurocientífica, o tratamento contínuo reduz a reatividade da amígdala (área do cérebro associada ao medo e ao alarme) e fortalece o córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional e tomada de decisões conscientes.
Mudar o tom do amanhã
Não existe cura mágica para a ansiedade, nem a promessa de dias perfeitamente calmos. O processo de recuperação é gradativo e exige o abandono de velhos hábitos automatizados, desde afastar o celular do lado da cama até aprender a buscar ajuda sem medo do julgamento.
Reconhecer que o peito apertado e a corrida contra o tempo não são normais é o primeiro passo para resgatar a capacidade de viver o dia de hoje, sem a urgência de já estar no amanhã.

