Do pódio ao bem-estar: a atividade física como tratamento contra transtornos de ansiedade

Especialistas apontam que o movimento do corpo deixou de ser mero coadjuvante para virar protagonista na saúde mental

Por Pedro de Almeida/ Em Pauta

Atividade física e contato cpm o meio ambiente natural previne ansiedade – Foto: Freepik/ Em Pauta

O Brasil ocupa o topo do ranking mundial de prevalência de transtornos de ansiedade. Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 18,6 milhões de brasileiros são afetados pelo problema.

E o cenário não dá sinais de trégua. Dados do relatório Covitel 2023 e registros de afastamento do trabalho do Ministério da Previdência Social indicam um agravamento do quadro, impulsionado pela hiperconectividade e pelas crescentes exigências de produtividade da vida moderna. Diante desse desafio, a busca por aliviar a mente tem encontrado resposta no movimento do corpo.

Da corrida ao CrossFit: o exercício como desconexão

Para muitos, o início de uma rotina de exercícios surge como uma tentativa de pausar a rotina acelerada. Foi o caso de Nicolly Fernandes, que encontrou na variação de modalidades o seu ponto de equilíbrio psicológico.

“Me abri para praticar atividade física, que era algo que eu não fazia com tanta frequência. Iniciei a corrida e comecei a praticar CrossFit, e foi algo que me ajudou muito, psicologicamente falando, porque era um lugar onde eu conseguia desconectar de tudo o que vinha acontecendo”, relata a psicóloga Nicolly Fernandes, praticante de atividade física.

A percepção de Nicolly reflete uma mudança profunda no entendimento da medicina comportamental. O que antes era visto apenas como uma recomendação de “estilo de vida saudável”, hoje ganha status de prescrição médica. Segundo o psiquiatra Dr. Gustavo Rosa, a atividade física passou a ocupar um novo patamar nos consultórios:

“A atividade física é excelente, é uma ótima alternativa de tratamento. Durante algum tempo se falava muito dela como adjuvante. Hoje a gente já fala que é tratamento primário para algumas pessoas. Então ela não é só uma coisa que ajuda: pode ser o tratamento da pessoa”, explica o especialista.

O poder da comunidade: por que os esportes coletivos se destacam?

Se exercitar faz bem, mas a escolha da modalidade pode potencializar os resultados emocionais. Dados publicados pelo National Institutes of Health (NIH) revelam uma diferença marcante: atletas de modalidades individuais têm quase o dobro de chances de relatar sintomas de ansiedade e depressão (13%) em comparação aos praticantes de esportes coletivos (7%).

A explicação passa pelo pertencimento e pela troca social que as modalidades em grupo oferecem.

“A ideia do esporte e da atividade física coletiva explica por que se multiplicaram tanto modalidades como o CrossFit ou os esportes de raquete. É um ótimo exercício que vai melhorar o desempenho respiratório, aliviar o estresse e possibilitar o encontro com o outro, a socialização. Tu és um elemento importante naquele grupo onde vais fazer a diferença”, complementa o Dr. Gustavo Rosa, psiquiatra.

E outro ponto bastante positivo e que faz com que a gente desapegue um pouco é que aquele momento de diversão e de descontração que a gente tem ali enquanto grupo faz com que o esporte também se torne algo leve e não se torne mais uma atividade estressante no dia a dia. Como já envolve relações e amizades, se torna um ambiente social bastante agradável. O esporte deixa de ser uma atividade de obrigação e passa a ser mais de lazer.

Seja na solitude de uma corrida para organizar os pensamentos ou na energia contagiante de um treino em grupo, a ciência e a prática confirmam: integrar o corpo no processo de cura é um dos caminhos mais eficientes para encarar as exigências do mundo contemporâneo.

O essencial não é a busca por alta performance, mas a constância de transformar o movimento em um aliado diário da saúde mental.

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