A pauta jornalística como arma para combater preconceitos
A jornalista Fabiana Moraes tensiona os conceitos de objetividade e neutralidade jornalísticas no livro “A pauta é uma arma de combate”.

Fabiana Moraes: Nasceu no Recife e é professora universitária e jornalista Pesquisa mídia, imprensa, poder, raça, hierarquização social, imagem e arte. (Fonte: Revista Continente)
Pâmela Beiersdorf / Em Pauta
No livro “A pauta é uma arma de combate – subjetividade, prática reflexiva e posicionamento para superar um jornalismo que desumaniza”, a autora, jornalista e professora Fabiana Moraes parte de uma questão aparentemente simples para discutir problemas muito mais amplos relacionados ao funcionamento da imprensa, às relações de poder, à desigualdade social, ao racismo, ao machismo, à LGBTfobia, à representação de grupos marginalizados e à ideia de neutralidade jornalística. O livro propõe uma revisão da maneira como os jornalistas enxergam sua própria atividade e defende que toda escolha jornalística possui consequências sociais e políticas. A tentativa de esconder as escolhas atrás de uma suposta neutralidade pode, inclusive, contribuir para a reprodução de desigualdades. Em uma sociedade marcada por diferenças de classe, raça, gênero e território, tratar todas as posições como se partissem do mesmo lugar pode produzir uma falsa equivalência.

Livro: “A Pauta é Uma Arma de Combate”, lançado em 2022, aborda sensibilidade, análise e engajamento,articula críticas, propostas e reflexões sobre as relações discursivas do jornalismo com grupos sociais oprimidos. (Fonte: Afoitas)
A obra apresenta duas reportagens da autora, “Ave Maria” e “Casa Grande e Senzala”, ambas de 2013, fazendo uma autocrítica e narrando os bastidores que a envolveram em contatos próximos e narrativas extensas sobre grupos sociais invisibilizados. Essas reportagens falam sobre como o jornalismo pode servir como meio de se opor a certos cenários de destruição de humanidades e falam sobre como não há espaço, em um dos países campeões em desigualdade social e concentração de renda no mundo, para posturas “neutras” e falsamente equilibradas no jornalismo. A primeira reportagem denuncia a violência contra as mulheres no Brasil, evidenciando a impunidade dos assassinos e a falha do sistema de justiça, que trata a violência como algo rotineiro e aceitável. A segunda, reflete sobre como as divisões entre elite e classes marginalizadas, criadas no período colonial, continuam a influenciar a sociedade contemporânea, com a perpetuação de privilégios e discriminação, além de destacar o papel da mídia e das instituições nesse processo.
A defesa da subjetividade talvez seja um dos aspectos mais provocativos do livro. Em vez de compreender a subjetividade como um defeito que precisa ser eliminado, Fabiana propõe que o leitor reconheça sua existência e reflita sobre ela. A escolha das fontes é outro aspecto fundamental da crítica de Moraes. Uma reportagem não é construída apenas a partir dos acontecimentos, mas também das vozes que conseguem entrar na narrativa.
A principal contribuição da obra está em demonstrar que o jornalismo não apenas registra a realidade, mas participa de sua construção simbólica. Cada pauta, fonte, personagem, enquadramento e escolha narrativa pode contribuir para ampliar determinadas perspectivas ou para silenciar outras. A obra também reforça a importância da diversidade de fontes e da escuta de sujeitos que historicamente tiveram pouco espaço nos meios de comunicação. A partir da discussão sobre a pauta, a autora aborda questões relacionadas à subjetividade, à neutralidade, à escolha das fontes, à representação de grupos sociais e à desumanização. Por isso, uma das contribuições mais produtivas da obra talvez não seja simplesmente substituir “neutralidade” por “posicionamento”, mas defender uma postura de consciência crítica sobre as escolhas realizadas.

